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domingo, 3 de abril de 2016

O que vai querer saber sobre os tempos do passado

Ontem escreveu-se aqui sobre o Presente do Indicativo, hoje abordam-se os dois principais tempos do  passado do modo Indicativo em português: o Pretérito Perfeito e o Imperfeito.

No post anterior, vimos a diferença entre estados e eventos - ou situações não-dinâmicas e situações dinâmicas. Nos tempos do passado, a sua influência difere.

O Pretérito Perfeito é, por excelência, um tempo verbal que dá, efetivamente, informação de tempo passado (anterior ao momento da enunciação). Isto tanto é válido para estados como para eventos.

- Eu comi uma maçã.
- Eu estive doente.

O primeiro exemplo é um evento; o segundo, um estado. Em ambos, temos a informação de que uma situação ocorreu - e terminou - antes do momento da enunciação. Aqui reside uma das maiores diferenças entre o Pretérito Perfeito e o Imperfeito do ponto de vista temporal: o Pretérito Perfeito é um tempo terminativo, ou seja, dá informação de que a situação foi concluída no passado.

O Imperfeito, pelo contrário, nem sempre dá a informação de que a situação está concluída. O exemplo que se segue, retirado da Gramática da Língua Portuguesa (2003), demonstra isso mesmo:

- A Maria lia o jornal quando a Joana chegou.

Por esta frase, não conseguimos perceber quando a situação "a Maria ler o jornal" terminou. Isto tem uma outra consequência: ao não dar informação nem sobre o início nem sobre o fim das situações. o Imperfeito parece ter a propriedade de "alargar" as situações, isto é, de as fazer parecer mais duradouras.

No exemplo acima, dá a ideia de que a Maria esteve a ler o jornal durante algum tempo - indefinido - no passado.

O Imperfeito de cortesia e o Imperfeito no futuro

No post que anunciou o tema da semana, referiu-se o Imperfeito como o tempo verbal que mais usos tem. É que, na verdade, nem sempre o Imperfeito é usado como um tempo do passado. Na verdade, há situações em que nem tem sequer informação de tempo.

É o caso do Imperfeito de cortesia, de que já aqui falámos. Quando vamos ao café e dizemos "queria um café", estamos a usar este tempo verbal apenas porque parece mais educado do que dizer "quero um café", que soa mais como uma ordem do que um pedido.

Estranhamente, o Imperfeito também pode ter uma projeção de futuro, seja em frases condicionais ou em frases com adverbiais como amanhã, que dão essa leitura temporal.

- Se a Rita chegasse a tempo, íamos ao concerto.
- Amanhã ia falar consigo ao escritório.*




* Exemplos retirados da Gramática da Língua Portuguesa (2003)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O que vai querer saber sobre o Presente

Ora, retomando o tema da semana, os tempos verbais, é hora de falar do presente. Como foi escrito no artigo anterior, o Presente do Indicativo raramente é usado para expressar o momento presente, o agora, doravante aqui chamado de momento da enunciação.

Isto significa que este tempo verbal nem sempre possui, na verdade, informação temporal. Eis um exemplo:

- Eu como uma maçã.
- Eu estou a comer uma maçã.

Qual destas frases é que usariam se estivessem, no momento da enunciação, a comer uma maçã? A segunda, pois claro, que está na forma progressiva. Isto acontece porque o Presente do Indicativo, nesta frase em particular, não tem grande informação de tempo. Para percebemos a razão para esta leitura, temos de perceber que há dois tipos de situações: situações dinâmicas (comer, correr, fazer, nascer, etc.) e situações não-dinâmicas (estar, ser). Às situações dinâmicas vamos chamar de eventos e às não-dinâmicas, estados.

Então, quando dizemos "eu como uma maçã", que é um evento, estamos a dizer exatamente o quê? Uma locução adverbial pode ajudar a explicar:

- Eu como uma maçã todos os dias.

Uma frase destas significa que estamos a falar de um hábito, de comer uma maçã todos os dias. Claro que o adverbial ajuda a reforçar a leitura, mas o que acontece é que quando usamos o Presente do Indicativo com eventos, o tempo verbal não dá informação temporal. Pelo contrário, dá uma leitura de habitualidade. Outro exemplo:

- Ele tocou piano como só ele o faz [habitualmente].

Pelo contrário, se o Presente do Indicativo for usado com um estado, então aí sim, dá informação de tempo presente:

- Eu estou [agora mesmo] em Londres.

Há, como sempre, alguns casos excecionais, em que o Presente pode dar informação de tempo presente com eventos. Mas são mesmo muito raros. Um exemplo que os gramáticos costumam dar é o dos relatos de futebol em direto.

- Messi recebe a bola... chuta... e marca golo [neste preciso momento].

Presente projetado para o futuro

Estes são os dois usos prototípicos deste tempo verbal. Mas também o podemos encontrar em frases com uma leitura de futuro, embora não seja o tempo verbal em si que dê essa informação. Como por exemplo:

- Chove amanhã.

Esta leitura é reforçada com a estrutura ir no Presente do Indicativo + verbo principal no infinitivo. Se, no exemplo, anterior, a leitura de futuro é sobretudo dada pelo adverbial "amanhã", uma frase do tipo "Vai chover" não precisa de adverbial para percebermos que se trata de uma frase com leitura de futuro.

E, para não complicar, por hoje é tudo. Amanhã haverá mais, sobre outro tempo verbal. Fiquem atentos!

segunda-feira, 21 de março de 2016

10 dicas para escrever bem, sem erros e de forma convincente

Quer candidatar-se a uma entrevista de emprego? É responsável por documentação na empresa onde trabalha? Escolheu uma carreira que o obriga a escrever muito (e bem)?

Pois bem, não terá outra hipótese que não a de ter muito cuidado e atenção com aquilo que escreve. O uso correto da língua é uma componente fundamental no meio profissional e um descuido pode arriscar a sua reputação. E se escrever faz mesmo parte do seu dia-a-dia, então não ter consciência sobre alguns aspetos linguísticos é um risco tremendo e, muito provavelmente, um erro. 

1 - Não cometer erros ortográficos


Os erros ortográficos Os correctores ortográficos são uma ferramenta rápida, eficiente e extremamente útil.

2 - Pontuação, pontuação, pontuação



Nunca é demais insistir: a pontuação é absolutamente determinante para a leitura. Erros de pontuação podem alterar por completo a semântica de uma frase. Se há pausas, use a vírgula, sem medo. 

Simplesmente, tenha o cuidado de não separar por vírgulas elementos da frase que não podem ser separados: sobretudo, nunca separe sujeito e o verbo por pontuação. Use-as, por exemplo, em enumerações, apostos (como "por exemplo" ou quaisquer outros constituintes que sirvam para classificar ou identificar o constituinte anterior), entre outros. 

Não se esqueça do ponto final no fim de uma frase. Se esta for exclamativa ou tiver um teor mais emotivo, use o ponto de exclamação (!) e, por favor, não use pontos finais em perguntas. O ponto de interrogação (?) serve para alguma coisa e, francamente, não o utilizar é um hábito irritante. 

Antes de um diálogo ou antes de apresentar uma enumeração, use os dois pontos (:). 

3 - Não dizer dez palavras quando duas chegam

Às vezes temos a tendência para complicar e dizemos demasiadas palavras para exprimir uma ideia. A língua portuguesa é uma língua rica e dá-nos muitas ferramentas. Pare um pouco e pense se não há uma maneira mais simples de se expressar. 

4 - Frases activas em vez de frases passivas

As frases passivas são úteis quando o sujeito é nulo. Mas têm um problema: alteram a ordem de palavras. Para se exprimir de forma eficiente, escreva de acordo com aquilo que é mais habitual para quem lê. Como já aqui referimos, a ordem de palavras habitual é S V O (Sujeito - Verbo - Objeto). Nas frases passivas, o constituinte que reconhecemos como sujeito passa para uma posição final da frase, tornando-a mais difícil de ler, porque não obedece à ordem habitual. 

Além disso, nas frases passivas usamos obrigatoriamente uma perífrase verbal, isto é, o sintagma verbal é constituído por mais do que uma forma verbal. Portanto, em muitos casos, estaremos a usar palavras a mais para aquilo de que precisamos.

Afinal, para quê dizer "A escultura foi feita pelo João" se podemos simplesmente dizer "O João fez a escultura"?

5 - Frases afirmativas em vez de frases negativas



A menos que o propósito seja mesmo reforçar a negatividade ou a negação da verdade de uma proposição qualquer, use frases afirmativas. São sempre mais fáceis de ler e são mais assertivas (e, mais uma vez, à partida serão mais curtas do que frases que incluem uma negação). 
6 - Não cometer erros gramaticais

De erros gramaticais temos falado desde que este blogue foi criado. Já percebemos que há erros mais graves do que outros, ou mais detetáveis do que outros. Este ponto não pode ser explanado aqui, porque a gramática tem uma dimensão quase infinita, e seria impossível apontar aqui todos os erros gramaticais passíveis de serem cometidos. Mas todos nós temos conhecimento da língua para detectar erros que tornem o texto menos fluido ou mais difícil de perceber. Quando assim é, é possível que haja alguns erros gramaticais. É uma questão de ter atenção e, claro, de ir lendo sempre que possível o Estudar a Língua, que o pode ajudar em muitas questões. 

7 - Saber quando hifenizar



Se algum dia alguém lê um texto seu e apanha algo como "fize-mos", diga adeus à sua reputação: quem o leu vai achar que não sabe escrever português. A conjugação dos verbos dá-se no ensino primário. Se cometer erros de primária, vão achar que a sua formação acabou aí ou que, durante o resto da sua formação, andou a dormir em vez de aprender e de estar atento. O hífen serve para "integrar" certas formas pronominais numa forma verbal. Leia mais sobre isto aqui e aqui.

8 - Não complicar

Em alguns dos pontos anteriores já explorámos um pouco esta ideia. A simplicidade é a maior arma para a eficiência. Quando escrevemos, temos um dado leitor e uma dada mensagem. A mensagem que está na nossa mente tem de passar para palavras escritas. Isso nem sempre é fácil: por vezes não encontramos a palavra certa e acabamos por complicar com demasiadas explicações e "rodriguinhos". Os textos não precisam de muitos ornamentos: deixe isso para as grandes obras literárias. Os ornamentos servem para quem tem um domínio profundo da língua, mas não se deixe enganar: são poucos os que o têm, e mesmo esses, muitas vezes, preferem simplificar para passarem eficazmente a sua mensagem.



9 - Usar devidamente a acentuação



O português tem acentos. Quem não gosta, tem de se habituar. Se não acentuar as palavras como deve ser, vai passar por preguiçoso, porque não se deu ao trabalho de colocar o acento onde devia. Sublinhe-se: onde devia; não ponha acentos no sítio errado. 

Lembre-se: há três tipos de acentuação em português. Há as palavras agudas, cuja sílaba tónica é a última (a-qui). Há as palavras graves, que são uma maioria, e cuja sílaba tónica é a penúltima (bo-la). E há, finalmente, as palavras esdrúxulas, cuja sílaba tónica é a antepenúltima (re-mé-di-o). 

Estas últimas são menos frequentes e são quase sempre acentuadas, seja por acento agudo ( ´ ) ou por acento circunflexo ( ^ ). 

Não existem palavras com dois acentos (a menos que um deles seja o sinal de anasalação, mais conhecido como til ( ~ )). 

Há ainda o acento grave. O acento grave só se usa nas seguintes palavras: à, àquilo, àquele/a/es/as. Este acento surge apenas quando há uma contração da preposição a com os determinantes a, as, aquilo, aquele, aquela, aqueles e aquelas. 

Dê lá por onde der, nunca confunda o acento agudo com o acento grave. Sobretudo, não confunda à com há. Isso demonstra, no mínimo, falta de concentração. Na pior das hipóteses, mais uma vez, pode fazer com que o seu leitor pense que não sabe escrever, porque é outra vez um erro primário e grave. 


10 - Fazer uma revisão
Pode perder algum tempo, mas é um trabalho muito valioso. É subvalorizado, porque as pessoas andam sempre com pressa, sobretudo no meio profissional, mas uma boa revisão pode fazer a diferença. 
Às vezes cometemos erros irrelevantes, pequenas gralhas. Basta clicarmos na tecla ao lado daquela em que queremos mesmo carregar. Uma revisão permite-nos corrigir estes e outros erros e permite-nos perceber se em algum ponto do texto nos perdemos numa frase demasiado longa ou que ficou incompleta.  
A verdade é que o processo de revisão é quase tão importante como o da escrita, porque é da revisão que deve sair o produto final.


Se cumprir todas estas dicas, pode ter a certeza de que terá um produto final cuidado e credível. Não se esqueça: o Estudar a Língua está cá para esclarecer todas as dúvidas que possam surgir, sobretudo ao nível gramatical. E havemos de retomar este tema, para vos mostrar erros muito comuns na escrita que tem de evitar. Vemo-nos em breve!

quarta-feira, 16 de março de 2016

O maior erro de todos

Foto: Shutterstock
O propósito deste espaço tem sido o de corrigir e explicar erros gramaticais comummente usados em português. Tentamos fazê-lo de uma forma relativamente simples e recorremos a publicações e autores credenciados sempre que necessário. Pois hoje, o post será um pouco diferente.

Hoje vou falar sobre o maior erro de todos. É um erro comum a muitas línguas e a muitas culturas. O português e os países que têm o português como língua oficial não são exceção. É um erro transversal aos mais jovens, ainda em idade escolar, aos adultos que estão no mercado de trabalho, aos estabelecimentos de ensino, aos governos responsáveis pelos programas de ensino.

E é um erro crasso, mas muito simples: não valorizar a língua e a gramática. As noções mais básicas de gramática são ensinadas logo na primária, mas rapidamente são abandonadas antes que sejam aprofundadas.

Questões como as funções sintáticas (o sujeito, o predicado, os objetos) ou as classes de palavras (nomes, adjetivos, advérbios, preposições) são deixadas ao abandono pelo ensino e pelo pouco interesse das crianças nesta matéria. Em vez disso, opta-se por focar todo o ensino posterior em obras literárias. Obviamente que este é um trabalho importantíssimo também, porque representa a cultura da língua. Mas não ensina necessariamente um jovem a falar nem a escrever bem.

Nas universidades, não há formação nesse sentido, a menos que se vá para um curso de linguística. Mas então? Os engenheiros não têm de escrever manuais, propostas, orçamentos? Os professores não têm de dar aulas, escrever sumários? Os CEOs de grandes empresas não têm de apresentar relatórios e contas a cada trimestre? Os alunos universitários não têm de escrever testes, trabalhos, apresentações? Os jovens acabados de entrar no mercado de trabalho não têm de escrever cartas de apresentação em candidaturas de emprego?

A verdade é tão simples quanto esta: os erros gramaticais (os mais simples, pelo menos) são fáceis de detectar por toda a gente, porque há um conhecimento interiorizado da língua. Isto é, há coisas que soam mais ou menos bem. Mas quando somos nós a fazer uso da língua, convém que saibamos o que estamos a fazer, porque falar e escrever de forma errada pode perfeitamente arruinar a nossa reputação enquanto profissionais. 


Se uma pessoa não sabe articular uma frase numa candidatura a um emprego, será que o empregador o vai escolher? Certamente que não, mesmo que não se trate de um emprego relacionado com o uso da língua. Porque o uso correto da língua é uma questão de credibilidade - uma credibilidade das mais básicas - de um profissional.

O mesmo se passa com um profissional que escreve um documento da empresa que esteja repleto de erros. Que credibilidade lhe vão dar? Nenhuma, mesmo que o conteúdo técnico esteja todo lá.

Às vezes, é até uma forma de associarmos inteligência a uma certa pessoa. Claro que não é apenas o uso correto da língua que nos faz ser mais ou menos inteligentes, mas quantas vezes não encontraram comentários do tipo "Vai aprender a falar!" ou "Volta para a escola!" em resposta a declarações com erros gramaticais diversos! Quantas vezes já não vimos as pessoas a atentarem contra a inteligência de outra que tenha escrito uma data de erros?

Ainda assim, estas questões linguísticas são tidas como "chatas", pouco apetecíveis e desinteressantes por muita gente. Mas quando é que essas pessoas estudaram a língua? Quando tinham 6, 7, 8 anos. Do que se lembram? De pouco. Então como sabem que é "chato" e desinteressante? Há quem ache mais gira a matemática. Pois bem, a linguística tem algo de matemático. Dentro das humanidades, é a ciência mais exata (quiçá a única, até). Também tem algo de lógica (outro ponto em comum com a matemática). E, para quem não sabe e desconfia que isto realmente não tem interesse algum, fiquem a saber: é bastante engraçado vermos como conseguimos aprender a desconstruir a forma como falamos, pois ficamos a perceber de onde é que isto tudo vem.

Além disso, no ensino, há sempre disciplinas que temos de saber ultrapassar para concluir um dado ciclo de estudos, não há? E se isso nos beneficiar no futuro, por que não?


sexta-feira, 11 de março de 2016

Tratam-se de muitos disparates...

Hoje vamos tratar de desconstruir... algumas construções impessoais. Como vimos recentemente (aqui e aqui), o português é uma língua com predomínio sintático do sujeito, na medida em que é ele que determina a concordância verbal.

Exceto nas construções sem sujeito, também denominadas por construções impessoais. E como sempre, estas trazem alguns problemas, algumas complicações e, infelizmente, muitos erros. Já falámos do maior deles todos, relacionado com o verbo haver.

Recapitulando esse tema, o verbo haver, por ser impessoal, nunca pode ser conjugado no plural, porque os verbos só podem estar no plural se concordarem com um sujeito igualmente plural. Ora, se não há sujeito (ou se o sujeito é impessoal), não pode haver plural. O verbo haver, no seu uso tradicional, tem apenas uma conjugação possível para o Presente (há), para o Pretérito Perfeito (houve), ou para o Imperfeito (havia).

"Tratam-se"de coisas nenhumas

Isto serve para outras expressões, mesmo que envolvam verbos que normalmente se conjugam com sujeitos. Uma delas, e que induz em erro muitos falantes constantemente, é a expressão "tratar-se de".

Claro que é possível dizer frases do tipo "A Maria trata do filho" (singular)" tal como podemos dizer "Os irmãos trataram do pai" (plural). Mas nesta frase há sujeitos (A Maria e Os irmãos). Quando usamos "trata-se de", não há sujeito à esquerda do verbo.

O sujeito é, pois, indeterminado, estando o verbo na terceira pessoa do singular (que, por assim dizer, é neutra). Sublinho: terceira pessoa do singular. Sempre. Significa isto que nunca há "tratam-se de", por muito que o que vem a seguir tenha sentido plural.

- Trata-se de um negócio de muitos milhões de euros.
- Trata-se de negócios de muitos milhões de euros.
- *Tratam-se de negócios de muitos milhões de euros.

Há uma explicação para isto? Talvez... A frase não tem um sujeito gramatical, mas, uma vez mais, o português é uma língua em que o sujeito gramatical tem uma profunda importância sintática na frase. E, tal como existem construções com sujeito à direita do verbo - e com concordância entre verbo e sujeito (como em Chegaram pessoas.) -, é possível que alguns falantes assumam a expressão nominal de sentido plural a seguir ao trata-se de como o sujeito lógico da frase. E daí fazerem a concordância com o verbo.

O português, devo dizer, permite outros tipos de construções impessoais. Mas isso fica para depois...





terça-feira, 8 de março de 2016

Que são estes verbos no plural?

Hoje vamos continuar a estudar questões problemáticas sobre concordância verbal. Na semana passada vimos que a concordância verbal se faz entre o sujeito e o verbo, porque o português é uma língua cuja sintaxe é dominada pelo sujeito - mesmo quando o sujeito é nulo (ou seja, quando não é expresso foneticamente).

Hoje vamos perceber que há certos casos em que isso não acontece. Para isso temos de recuar um pouco até às funções sintáticas. Já falámos no sujeito, que é o argumento externo, e no predicado e nos seus argumentos internos, que tanto podem ser objeto direto, indireto ou complemento oblíquo (quando é iniciado por preposições).

Ora, quando temos verbos do tipo ser, parecer, continuar, estar, ficar, etc., o argumento interno do verbo chama-se o predicativo do sujeito, porque está a conferir uma propriedade qualquer ao sujeito. Seja lá o que for, se estiver precedido do verbo ser, está a predicar o sujeito de alguma coisa.

- Os alunos são inteligentes.
- Eles parecem boas pessoas. 

Uma nota: o predicativo do sujeito não aparece apenas com o verbo ser; mas o verbo ser seleciona sempre um predicativo do sujeito. 

Então, há alguns casos em que, com o verbo ser, a concordância não se faz com o sujeito, mas sim com o predicativo do sujeito.

1 - Se o sujeito for aquilo, isto, nada, tudo, geralmente seguido de uma oração relativa restritiva.

- Aquilo que sempre quiseste foram férias na praia.
- Aquilo que sempre quiseste foi um cão.

2 - Em frases interrogativas, começadas por pronomes interrogativos como quem ou que.

- Quem são estas pessoas?

3 - Se o sujeito não se referir a pessoas, a concordância pode ser feita com o predicativo do sujeito: 

- O meu orgulho são os meus filhos.
[Reparem na agramaticalidade na concordância com o sujeito: 
*O meu orgulho é os meus filhos.]

4 - Com nomes de sentido coletivo.

- A maioria são mulheres. 
[Novamente:
*A maioria é mulheres.
Sobre esta frase, claro que é possível reestruturar esta frase de modo a ter concordância com o sujeito, até porque a expressão a maioria é tipicamente conjugada no singular, como já vimos noutro post, mas aí já não é bem o predicativo do sujeito. Veja-se:
- A maioria é composta por mulheres]

Tudo uma questão de medida

5 - Ainda no escopo do verbo ser, lembram-se de vos ter dito (no mesmo post no link imediatamente acima) que se o sujeito indicar uma quantidade ou uma medida, é essa medida que determina se o verbo está conjugado no plural ou no singular? Pois, como é costume, há uma exceção de que não falámos na altura.

Então, o exemplo que dei nesse post foi:

- Um litro de leite custa 1 euro.
- Dois litros de leite custam 1 euro. 

No entanto, a concordância não se faz com o sujeito se a seguir ao verbo estiverem expressões como muito, pouco, menos de, mais de, etc, porque, de uma maneira geral, esses advérbios de quantidade funcionam como predicativo do sujeito.

- Dois quilos de farinha é muito/pouco/demais.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Português à moda do Yoda, isto é.

- A Maria comeu a maçã.
- *A maçã a Maria comeu.

Qual destas vos parece correta? A primeira, não? Há uma razão: a ordem de palavras do português. Para explicar mais sobre a ordem de palavras é preciso compreender a base da sintaxe, i.e., as relações gramaticais.

Ora, diz a Gramática da Língua Portuguesa (2003) que uma oração/frase tem como domínio uma predicação; e que a predicação é constituída, tipicamente, por dois constituintes: o predicado e o sujeito. No predicado incluem-se "o predicador" e os seus argumentos internos. O sujeito é o argumento externo do predicado. No português, a maioria dos predicados são verbais, mas não se pense que o predicado é o verbo apenas.

Um predicado verbal é constituído pelo verbo, sim, mas também pelos seus argumentos ou complementos.

- A Maria [SU] deu uma maçã [OD] à filha [OI].

Adiante. Diz a mesma Gramática que o português "é uma língua de proeminência de sujeito". O que é que isto quer dizer? Quer dizer que, de um ponto de vista gramatical, é o sujeito que determina a concordância verbal. Veja-se:

- A Maria comeu maçãs. (SU na 3ª pessoa do singular, verbo conjugado na 3ª pessoa do singular - gramatical)
- *A Maria comeram maçãs. (SU na 3ª pessoa do singular, verbo conjugado na 3ª pessoa do plural, a concordar com o objeto direto - agramatical)

Por estas razões, em português, em frases declarativas, o sujeito surge tipicamente na "primeira posição argumental" da frase. Segue-se, então, o predicado. E aqui temos a ordem de palavras básica da nossa língua:

S V O [Sujeito - Verbo - Objeto]

No entanto, é perfeitamente possível dizer algo como:

- Comi sushi ao jantar.

Onde está o sujeito? Simples. O sujeito está na sua posição natural, à esquerda do predicado. É possível percebermos isso porque o verbo está conjugado de forma a concordar com o sujeito, na 1ª pessoa do singular. O sujeito é o pronome "eu", simplesmente é nulo foneticamente. O português é, então, uma língua sintaticamente dominada pelo sujeito, mas que permite sujeitos nulos - algo que não é possível, por exemplo, em inglês. Significa que, mesmo que o sujeito não apareça na frase, a sua posição sintática está sempre representada.

Quando S V O não é S V O

Como é habitual, a língua portuguesa enche-nos de exceções e de casos em que a ordem básica não se aplica.

Tipicamente, refere ainda a Gramática da Língua Portuguesa, "à estrutura sintáctica sujeito-predicado corresponde a estrutura temática tópico-comentário". Assim, numa frase como "A Maria comeu uma maçã", A Maria é sujeito e tópico; comeu uma maçã é o predicado e o comentário acerca da Maria. De um ponto de vista semântico, chamamos a este tipo de frases predicações, porque estamos a fazer um "juízo categórico" sobre alguma coisa (e essa alguma coisa é o constituinte representado pelo sujeito).

Quando o sujeito e o tópico correspondem, estamos a falar de tópicos não-marcados. Com topicalização não-marcada, o padrão de ordem de palavras é S V O (os exemplos doravante apresentados são retirados da Gramática da Língua Portuguesa).

- A que é que todos os alunos reagiram mal?
  Todos os alunos [TOP/SU] reagiram mal ao teste.

Mas nem sempre há uma correspondência entre tópico e sujeito. Quando assim é, falamos de tópicos marcados e estes sim, podem causar uma alteração na ordem de palavras.

- A quem é que o Pedro ofereceu esse livro?
  Esse livro [TOP], o Pedro [SU] ofereceu(-o) à Ana.*

Nesta frase, temos uma ordem O S V O (o segundo objeto, à direita do verbo, deve-se ao facto de o verbo oferecer ter dois argumentos - oferecer o quê [OD] a quem [OI]).

Mesmo sem questões de topicalização, o português também permite uma ordem V O S, em frases do tipo:

- Quem comeu o bolo?
  Comeu-o o João [SU].

O exemplo que inicia este post pode entrar nesta categoria, se considerarmos a maçã como tópico e a Maria como sujeito (no entanto, sem pontuação, essa leitura pode ser altamente ambígua).

- A Maria [TOP/SU] comeu a maçã.
- A maçã [TOP], a Maria [SU] comeu(-a).

Há ainda outros contextos a considerar. Quando a frase "apresenta informação nova no contexto das perguntas", mesmo sem topicalização, é possível ter diferentes padrões de ordens de palavras.

Quando temos verbos inacusativos, que são verbos que não têm argumentos internos, podemos ter a ordem V S.

- O que aconteceu?
  Chegaram os meus sobrinhos.

As ordens V S O e V [O] S também são possíveis.

- Quem comeu o quê?
  Comeram os miúdos o bolo.
- Quem comeu o bolo?
  Comeram [o bolo] os miúdos.

Esta pequena lição à moda do Yoda (para quem não sabe, é a personagem do Star Wars que fala quase sempre com a ordem V S O, que, diga-se, não é a ordem de palavras básica do inglês) terá continuidade nos próximos dias, já que da ordem de palavras ainda derivam mais alguns problemas nos falantes. Fiquem atentos.





domingo, 28 de fevereiro de 2016

A, ante, após, até... A regência das preposições

Para finalizar a semana dos verbos, vamos cruzá-los com um outro tema: as preposições. Lembram-se das preposições, que em crianças éramos obrigados a saber de cor?

a, ante, após, até, com, contra, de, desde, durante, em, entre, para, perante, por, salvo, sem, sob, sobre, trás.*

Deixadas muitas vezes para o nosso subconsciente e para o nosso conhecimento interiorizado da língua, as preposições - e as locuções prepositivas, que são muitas mais do que as acima apresentadas - são uma categoria gramatical fundamental, na medida em que exprimem relações entre partes interdependentes de uma oração.

Normalmente, e dada a sua natureza relacional, só em casos raros é que as preposições surgem isoladas: tipicamente são seguidas de um nome ou de uma frase/oração.

- Fui a Paris (nome).
- Preciso de cortar o cabelo (frase).

Como é evidente, não serve este texto para explicar tudo o que há para saber sobre preposições. Pelo contrário, vamos cingir-nos àquelas que estão sempre associadas ao tema da semana, os verbos.

Numa frase, a maioria dos verbos surge obrigatoriamente associado a certas funções sintáticas (como por exemplo, o sujeito, o objeto direto, o objeto indireto, etc). Por isso, deles se diz que têm uma estrutura argumental.

Alguns verbos têm apenas um argumento, o sujeito (nascer) - quando o único argumento é o sujeito, chama-se argumento externo, porque se situa fora do predicado. Há muitos verbos com dois argumentos, o sujeito e o objeto direto (comer). Outros têm três, o sujeito, o objeto direto e o indireto (dar). Nestes dois casos, os argumentos objeto direto e indireto são internos ao verbo, pois fazem parte do predicado.

- O menino nasceu.
- O Pedro comeu bolachas.
- O Rui deu um livro à Ana.

É aqui que surge o fenómeno linguístico que interessa a este artigo: certos verbos "exigem" que os seus argumentos sejam iniciados por preposições. Nos exemplos acima encontramos logo um desses casos.

- O Rui deu um livro à Ana (contração do artigo a com a preposição a).

Acontece que existem verbos que selecionam o chamado complemento oblíquo, que é obrigatoriamente iniciado por uma preposição em particular. É o caso dos verbo gostar (de), depender (de), conversar (com), morar (em).

- A Maria gosta de chocolate.
- A empresa depende de créditos.
- O professor conversou com os alunos.
- Ele mora no Porto.

Um outro caso clássico de regência de preposições: os chamados verbos de movimento, que podem selecionar uma de várias preposições.

- Eu quero ir em direção ao mar. (locução prepositiva)
- Eles vão para Lisboa.
- Nós vamos até ao Porto.

Não existe nenhuma regra por detrás da regência das preposições. Trata-se apenas de uma propriedade lexical de base dos próprios verbos - e que nada tem que ver com a própria sintaxe da frase.

É precisamente a questão da regência das preposições que leva a erros como a estratégia cortadora em frases em que os constituintes não estão na sua "ordem natural", como já referimos neste blog.


* A lista apresentada é constituída pelas chamadas preposições simples do português, segundo a Gramática da Língua Portuguesa (2003). Chame-se, no entanto, a atenção para outras palavras com "caráter relacional" "indiscutível", referidas por Cunha e Cintra (1984), como afora, conforme, consoante, durante, exceto, fora, mediante, menos, não obstante, salvo, segundo, senão, tirante, visto.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

E se nós ensináSSEMOS a conjugar os verbos?

Retomamos o tema da semana - os verbos - para explicar um pouco mais sobre os tempos verbais. No post anterior, referimos os modos e as modalidades a que se associam. Hoje, vamos aprofundar a questão da conjugação verbal e endereçar um erro grave, mas infelizmente comum na escrita.

Ao contrário de outras línguas, como o inglês, o português tem conjugações variáveis por pessoa e número, normalmente esquematizado no tradicional eu/tu/ele/nós/vós/eles - há, portanto, três pessoas no singular e outras três no plural. 

Além disso, convém não esquecer que, do ponto de vista da conjugação, os verbos se dividem em regulares e irregulares. As alterações de conjugação verbal, em verbos regulares, consistem numa diferente terminação da forma verbal. A raiz do verbo, por assim dizer, fica igual. 

Assim, com verbos terminados em -ar, no Presente do Indicativo, por exemplo, a forma verbal acaba em o/as/a/amos/ais/am; com verbos terminados em -er, a forma verbal acaba em o/es/e/emos/eis/em; e com verbos terminados em -ir, acabam em o/es/e/imos/is/em. 

Imagem: alunosonline.com.uol.br

E podemos continuar a lista por aí fora, com os demais tempos verbais do Indicativo (a saber, o Pretérito Perfeito Simples - eu cantei; eu comi; eu parti -; o Pretérito Imperfeito - eu cantava, eu comia, eu partia; o Futuro - eu cantarei, eu comerei, eu partirei, etc.).

O Conjuntivo

Tirando algumas exceções - como a segunda pessoa do plural (vós), que está cada vez mais em desuso e que leva a que muitos falantes não a saibam conjugar - o problema da conjugação não está no modo Indicativo, mas sim no Conjuntivo. 

Tal como todas as línguas do mundo, também o português tem palavras homófonas. E quando essas palavras são graficamente representadas, através da escrita, surge muitas vezes confusão, sobretudo em falantes com menor nível de escolaridade. 

Como vimos no post anterior, o Conjuntivo surge, tipicamente, em construções associadas à expressão de dúvida, de possibilidade ou de incerteza. Por exemplo, em frases condicionais, iniciadas por "se". Há três tipos de frases condicionais: a primeira, em que se usa o Presente do Conjuntivo, a segunda, em que usa o Imperfeito do Conjuntivo, e uma terceira, em que se usa um tempo composto, que não vamos por agora analisar. Caso não se lembrem destas coisas, porque são matéria dada ainda no ensino primário e que nunca mais é retomada, talvez se recordem das If Clauses (Type I, II e III) das aulas de inglês, dadas bem mais tarde. O valor semântico de cada uma delas, neste momento, não interessa. Importa, isso sim, conjugar bem cada tempo verbal:


Imagens: alunosonline.com.uol.br

Resumindo o que está na primeira tabela, no Presente do Conjuntivo (Subjuntivo para falantes do português do Brasil), conjuga-se com e/es/e/emos/eis/em em verbos terminados em -ar; a/as/a/amos/ais/am em verbos terminados em -er; e a/as/a/amos/ais/am em verbos terminados em -ir.

Foquemo-nos agora no Imperfeito do Indicativo, que é o que causa a maioria das asneiras. 

- Se eu vendesse casas, teria imenso sucesso. 

Esta é uma frase condicional com Imperfeito do Conjuntivo, na primeira pessoa do plural. Infelizmente, vendesse soa parecido a vende-se (embora nem sequer sejam exatamente homófonas, por causa da acentuação - o verbo no Imperfeito do Conjuntivo lê-se como se fosse "vendêsse"). Mas quantas e quantas vezes já não encontrámos disparates do tipo se eu vende-se ou se eu canta-se e por aí fora? Pois. Vende-se ou canta-se são verbos que estão no Presente do Indicativo - têm, por isso, valores semânticos e usos completamente diferentes e escrevem-se assim porque têm um clítico em posição de ênclise - um fenómeno que este blog também já explicou. 

Esta é uma das consequências de um certo abandono das questões linguísticas mais básicas no ensino, à medida que este avança, e só prova que a linguística nunca devia deixar de fazer parte dos programas de educação da língua materna - da mesma forma como nunca deixa de fazer parte nos programas de língua estrangeira. 


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Modalidade, modo, verbo

Foto: clker.com
Esta semana falamos de verbos. Os verbos são um mundo vasto nas línguas. Hoje, explico-vos os diversos modos verbais.

Em primeiro lugar, quando temos um verbo numa frase, temos de atentar ao seu modo. E o que é isto? Segundo a Gramática da Língua Portuguesa de Mateus et alii (2003), o modo é aquilo que permite ao verbo expressar vários tipos de modalidade. Existem, fundamentalmente, quatro tipos de modalidade:

- interna ao participante: relacionada com a "capacidade e necessidade";
- externa ao participante: relacionada com "as circunstâncias externas" que rodeiam o participante;
- deôntica: relacionada com a ordem e o dever;
- epistémica: relacionada com a possibilidade, a dúvida e a incerteza.

Quanto a modos, existem, fundamentalmente, três: o Imperativo, o Conjuntivo e o Indicativo. Destes já ouviram falar, certo? Então, o Imperativo está relacionado com a ordem, pelo que expressa sobretudo uma modalidade deôntica.

O Conjuntivo e o Indicativo, de que vamos falar hoje, são um pouco mais difíceis de distinguir, pois podem "associar-se" a "mais do que uma modalidade". De qualquer modo, o Conjuntivo surge mais relacionado com a dúvida e a incerteza (modalidade epistémica). O modo Indicativo expressa mais facilmente certeza ou, simplesmente, situações em que se "afirma a veracidade de uma proposição" (Gramática da Língua Portuguesa, 2003) - no fundo, factos. É claro que a questão é bastante mais complexa, mas aqui tentamos simplificar.

Assim sendo, o Indicativo é o modo mais comum, sobretudo em frases simples. Em frases complexas, o Indicativo também surge na "maior parte das orações coordenadas" (frases com "e" ou "mas", por exemplo); e ainda na frase matriz ou oração principal da frase complexa. Já o Conjuntivo surge mais vezes em frases complexas subordinadas (em que há uma frase matriz, que pode ou não selecionar obrigatoriamente uma oração com Conjuntivo).

Quando nos ensinavam a distinguir os dois modos (ainda na escola primária), havia o hábito de dizer que, quando aparecia a conjunção integrante "que" numa frase (atente-se que o "que" nem sempre é uma conjunção integrante), a seguir teria de vir o Conjuntivo. Mas não é assim. Na verdade, o modo é escolhido com base naquilo que pretendemos exprimir.

Por exemplo, em frases complexas que expressam valores como "dúvida, volição, necessidade, possibilidade, obrigação, permissão", etc.,  o Conjuntivo é obrigatório:

- A Maria espera (Ind.) que o Rui chegue (Conj.) a horas.*

Já quando exprimimos "conhecimento ou crença", o Indicativo é mais frequente, mesmo na segunda oração.

- A Maria sabe (Ind.) que o Jorge está (Ind.) doente.*

Neste grupo há, no entanto, alguns verbos que admitem os dois modos na segunda oração.

- Ele calcula (Ind.) que os amigos estão (Ind.) em casa / estejam (Conj.) em casa.*

Por hoje é tudo. O próximo post será sobre a conjugação verbal, que está intimamente relacionada com o modo, e que traz muitos problemas - sobretudo quando há pronomes metidos ao barulho.

* Todos os exemplos foram retirados da Gramática da Língua Portuguesa, de 2003.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Entrevista a Ana Maria Brito: "Jovens não tiram proveito dos recursos da língua"

Ana Maria Brito é professora catedrática na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e coautora da Gramática da Língua Portuguesa (2003) e é a primeira convidada do Estudar a Língua para iniciar um ciclo de entrevistas que o Estudar a Língua vai fazer a diversos especialistas da língua portuguesa. Nesta entrevista, falamos das diversas variedades do português e ainda abordamos a importância da sintaxe, área de especialização da autora. 

Fala-se muito nas diferenças entre o português do Brasil e o português europeu. Pode apontar as principais?
A maior variação é no sistema fonológico, naquilo que se chama vulgarmente a “pronúncia”. O sistema vocálico é mais reduzido e mais aberto. No plano lexical há também diferenças que têm a ver quer com novas palavras (muitos empréstimos de origem inglesa entraram facilmente na língua (”xerox”, fotocópia) quer com as mesmas palavras com um sentido novo, como “terno” (fato), “ónibus” (autocarro), “café da manhã” (pequeno almoço), quer com empréstimos de origem tupi (“abacaxi”) e africana (“sanzala”).   
Do ponto de vista morfossintático e sintático, uma das principais diferenças face ao PE relaciona-se com o sistema pronominal e com a concordância sujeito – verbo e com a flexão verbal. À parte uma zona no Sul que conserva ainda o “tu” como forma de tratamento do interlocutor, o PB usa predominantemente “você” e “vocês”, levando o verbo a tomar formas de terceira pessoa do singular e do plural: “você sabe…” “vocês sabiam…”. Também “nós” é muitas vezes substituído por “a gente”, igualmente justificando uma forma de 3ª pessoa do singular (“a gente sabe”). Como resultado, os paradigmas verbais são mais reduzidos do que no PE. Claro que, como o país é extenso e complexo, existe enorme variação quer do ponto de vista dialectal quer e principalmente do ponto de vista social; por isso, quando falamos em variação em relação ao PE, estamos a falar sobretudo de um PB vernáculo e oral, das classes mais desfavorecidas, que coexiste com um PB culto, que é o das classes escolarizadas e socialmente mais elevadas.
Outras diferenças dignas de nota: a diferente colocação dos pronomes átonos ou clíticos, com predomínio da próclise (“me diga uma coisa”); o uso de formas fortes dos pronomes em vez de formas átonas, como em “eu vi ele” em vez de “eu vi-o”; a produtividade do gerúndio nas formas progressivas (“estou vendo”), o uso de “ter” como verbo existencial (“tem gente aqui….”), o uso de formas possessivas isoladas, sem artigo definido, como em “minha carteira”, em vez de “a minha carteira”; também a redução na concordância nas expressões nominais é digna de nota: é frequente ouvir-se “os menino”, em que a marca de plural está reduzida ao artigo e não surge no nome.  
                                     
Muitos falantes nativos de português do Brasil “queixam-se” de perceberem mal o português europeu. Isto tem que ver com uma diferente evolução da língua nos dois países?
Sim, claro; por várias razões que estão relacionadas com a forma como a língua portuguesa foi deslocada para o Brasil, com o contacto de línguas a que o Português foi exposto na colonização (quer com línguas índias quer com línguas africanas, quer mais tarde com línguas de emigrantes de várias nacionalidades, italianos, alemães, árabes, etc), o sistema fonológico foi muito alterado e uma das principais é a maior abertura das vogais e o desaparecimento de uma regra muito importante no PE que é a do vocalismo átono. No PE uma vogal não acentuada é fechada como em “morar”, pronunciada como “murar”; ora no Brasil a pronúncia é com o “o” semiaberto: “morar”. Por isso os falantes do PB por vezes não entendem muito bem falantes do PE, porque vão ouvir mutas vogais fechadas e muitos grupos consonânticos como “pn” (“pneu”) que um PB pronuncia como “peneu”.       

E quanto às restantes variedades do português?
Em África estamos a assistir também à emergência de variedades nacionais, o PM e o PA, em particular, embora ainda não de forma tão estável como o PB. O Português está nesses países em situação de forte contacto de línguas, é língua não materna para grande parte das populações, embora haja grandes diferenças entre cidade / campo, entre jovem / idoso, entre falante escolarizado / não escolarizado, mesmo entre homem / mulher. Os recenseamentos realizados nesses países mostram dados mais ou menos seguros sobre tudo isso e revelam também que o Português está a aumentar o número de falantes como L2, sendo claramente uma língua de prestígio.
Mas o Português está a mudar nesses países: além da parte vocabular, com muitos empréstimos das línguas Bantu e da parte fonológica, há também algumas diferenças morfossintáticas e sintáticas. No PA por exemplo, a construção ditransitiva tende a ser realizada com a preposição “em”: “dar na mãe uma prenda”; no PM, tal construção tende a perder a preposição: “dar a mãe uma prenda”. Em ambos os países nota-se um predomínio da preposição “em” usada mesmo com verbos de movimento e de deslocação: “chegar no mercado”, em vez de “chegar ao mercado”. No PM, está já registado e estudado um fenómeno de “dequeísmo” e paraquísmo” nas orações integrantes: “ eu vi de que ele chegou tarde”; “eu disse para que ele visse”. 
Dada a situação de relativa instabilidade do Português em Angola e Moçambique é portanto de prever que mudanças continuem a operar na língua.  

Centremo-nos no português de Portugal. Existe alguma diferença gramatical profunda entre dialectos?
Portugal é um país bastante uniforme do ponto de vista da gramática da língua, que se relaciona com o facto de a língua se ter estabilizado há mais de oito séculos num território pequeno e que mantém as suas fronteiras. Mas há variação dialectal forte mais uma vez no plano fonético e fonológico, existindo os chamados dialectos setentrionais e os centro-meridionais, além dos dialectos insulares. No plano morfossintático e sintático existem alguns fenómenos interessantes, sobretudo quando estão em jogo falantes mais idosos, menos escolarizados e mais afastados dos centros urbanos: assim, há que registar o uso do gerúndio no Alentejo e Algarve nas construções progressivas (“estou vendo”) o uso de “ter” existencial, curiosamente dois fenómenos que reencontramos no PB; no Alentejo pode ainda hoje ouvir-se por falantes mais velhos e menos escolarizados um gerúndio flexionado (“em (tu) estandes pronto”….).        

"Há que dar mais atenção à parte gramatical no ensino"

É sintaticista. O que pode dizer a um leigo sobre a preponderância da sintaxe para o uso correcto da língua?
A sintaxe é a base da gramática, é o “esqueleto” da língua… São as regras sintáticas que orientam a formação de frases simples e complexas, no que respeita à ordem de palavras, à concordância, à selecção entre palavras, às relações anafóricas, etc. Por isso, um bom domínio da sintaxe da língua é essencial para falar e escrever bem, com clareza e objetividade, para argumentar no discurso, para convencer o nosso interlocutor acerca de determinada ideia ou conteúdo.
Embora eu não seja pessimista no que respeita ao uso da língua pelas jovens gerações e veja com bons olhos o acesso que grande parte da população tem em relação à língua e às suas manifestações, quer pelo acesso à televisão, à rádio e principalmente às novas tecnologias de informação, não há dúvida de que muitos dos nossos jovens usam por vezes uma sintaxe pobre nas suas produções linguísticas e não tiram proveito dos inúmeros recursos da gramática da língua portuguesa. Há que dar mais atenção à parte gramatical e sintática da língua no ensino e não abandonar a reflexão gramatical nos níveis mais avançados, como se faz atualmnete no ensino secundário, no pressuposto de que os alunos já sabem o essencial de gramática. Isso não é verdade, por variadíssimas razões, e por isso sou a favor de um ensino de Português que dê grande espaço à reflexão gramatical.