Ontem escreveu-se aqui sobre o Presente do Indicativo, hoje abordam-se os dois principais tempos do passado do modo Indicativo em português: o Pretérito Perfeito e o Imperfeito.
No post anterior, vimos a diferença entre estados e eventos - ou situações não-dinâmicas e situações dinâmicas. Nos tempos do passado, a sua influência difere.
O Pretérito Perfeito é, por excelência, um tempo verbal que dá, efetivamente, informação de tempo passado (anterior ao momento da enunciação). Isto tanto é válido para estados como para eventos.
- Eu comi uma maçã.
- Eu estive doente.
O primeiro exemplo é um evento; o segundo, um estado. Em ambos, temos a informação de que uma situação ocorreu - e terminou - antes do momento da enunciação. Aqui reside uma das maiores diferenças entre o Pretérito Perfeito e o Imperfeito do ponto de vista temporal: o Pretérito Perfeito é um tempo terminativo, ou seja, dá informação de que a situação foi concluída no passado.
O Imperfeito, pelo contrário, nem sempre dá a informação de que a situação está concluída. O exemplo que se segue, retirado da Gramática da Língua Portuguesa (2003), demonstra isso mesmo:
- A Maria lia o jornal quando a Joana chegou.
Por esta frase, não conseguimos perceber quando a situação "a Maria ler o jornal" terminou. Isto tem uma outra consequência: ao não dar informação nem sobre o início nem sobre o fim das situações. o Imperfeito parece ter a propriedade de "alargar" as situações, isto é, de as fazer parecer mais duradouras.
No exemplo acima, dá a ideia de que a Maria esteve a ler o jornal durante algum tempo - indefinido - no passado.
O Imperfeito de cortesia e o Imperfeito no futuro
No post que anunciou o tema da semana, referiu-se o Imperfeito como o tempo verbal que mais usos tem. É que, na verdade, nem sempre o Imperfeito é usado como um tempo do passado. Na verdade, há situações em que nem tem sequer informação de tempo.
É o caso do Imperfeito de cortesia, de que já aqui falámos. Quando vamos ao café e dizemos "queria um café", estamos a usar este tempo verbal apenas porque parece mais educado do que dizer "quero um café", que soa mais como uma ordem do que um pedido.
Estranhamente, o Imperfeito também pode ter uma projeção de futuro, seja em frases condicionais ou em frases com adverbiais como amanhã, que dão essa leitura temporal.
- Se a Rita chegasse a tempo, íamos ao concerto.
- Amanhã ia falar consigo ao escritório.*
* Exemplos retirados da Gramática da Língua Portuguesa (2003)
Mostrar mensagens com a etiqueta verbos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta verbos. Mostrar todas as mensagens
domingo, 3 de abril de 2016
sexta-feira, 1 de abril de 2016
O que vai querer saber sobre o Presente
Ora, retomando o tema da semana, os tempos verbais, é hora de falar do presente. Como foi escrito no artigo anterior, o Presente do Indicativo raramente é usado para expressar o momento presente, o agora, doravante aqui chamado de momento da enunciação.
Isto significa que este tempo verbal nem sempre possui, na verdade, informação temporal. Eis um exemplo:
- Eu como uma maçã.
- Eu estou a comer uma maçã.
Qual destas frases é que usariam se estivessem, no momento da enunciação, a comer uma maçã? A segunda, pois claro, que está na forma progressiva. Isto acontece porque o Presente do Indicativo, nesta frase em particular, não tem grande informação de tempo. Para percebemos a razão para esta leitura, temos de perceber que há dois tipos de situações: situações dinâmicas (comer, correr, fazer, nascer, etc.) e situações não-dinâmicas (estar, ser). Às situações dinâmicas vamos chamar de eventos e às não-dinâmicas, estados.
Então, quando dizemos "eu como uma maçã", que é um evento, estamos a dizer exatamente o quê? Uma locução adverbial pode ajudar a explicar:
- Eu como uma maçã todos os dias.
Uma frase destas significa que estamos a falar de um hábito, de comer uma maçã todos os dias. Claro que o adverbial ajuda a reforçar a leitura, mas o que acontece é que quando usamos o Presente do Indicativo com eventos, o tempo verbal não dá informação temporal. Pelo contrário, dá uma leitura de habitualidade. Outro exemplo:
- Ele tocou piano como só ele o faz [habitualmente].
Pelo contrário, se o Presente do Indicativo for usado com um estado, então aí sim, dá informação de tempo presente:
- Eu estou [agora mesmo] em Londres.
Há, como sempre, alguns casos excecionais, em que o Presente pode dar informação de tempo presente com eventos. Mas são mesmo muito raros. Um exemplo que os gramáticos costumam dar é o dos relatos de futebol em direto.
- Messi recebe a bola... chuta... e marca golo [neste preciso momento].
Presente projetado para o futuro
Estes são os dois usos prototípicos deste tempo verbal. Mas também o podemos encontrar em frases com uma leitura de futuro, embora não seja o tempo verbal em si que dê essa informação. Como por exemplo:
- Chove amanhã.
Esta leitura é reforçada com a estrutura ir no Presente do Indicativo + verbo principal no infinitivo. Se, no exemplo, anterior, a leitura de futuro é sobretudo dada pelo adverbial "amanhã", uma frase do tipo "Vai chover" não precisa de adverbial para percebermos que se trata de uma frase com leitura de futuro.
E, para não complicar, por hoje é tudo. Amanhã haverá mais, sobre outro tempo verbal. Fiquem atentos!
Isto significa que este tempo verbal nem sempre possui, na verdade, informação temporal. Eis um exemplo:
- Eu como uma maçã.
- Eu estou a comer uma maçã.
Qual destas frases é que usariam se estivessem, no momento da enunciação, a comer uma maçã? A segunda, pois claro, que está na forma progressiva. Isto acontece porque o Presente do Indicativo, nesta frase em particular, não tem grande informação de tempo. Para percebemos a razão para esta leitura, temos de perceber que há dois tipos de situações: situações dinâmicas (comer, correr, fazer, nascer, etc.) e situações não-dinâmicas (estar, ser). Às situações dinâmicas vamos chamar de eventos e às não-dinâmicas, estados.
Então, quando dizemos "eu como uma maçã", que é um evento, estamos a dizer exatamente o quê? Uma locução adverbial pode ajudar a explicar:
- Eu como uma maçã todos os dias.
Uma frase destas significa que estamos a falar de um hábito, de comer uma maçã todos os dias. Claro que o adverbial ajuda a reforçar a leitura, mas o que acontece é que quando usamos o Presente do Indicativo com eventos, o tempo verbal não dá informação temporal. Pelo contrário, dá uma leitura de habitualidade. Outro exemplo:
- Ele tocou piano como só ele o faz [habitualmente].
Pelo contrário, se o Presente do Indicativo for usado com um estado, então aí sim, dá informação de tempo presente:
- Eu estou [agora mesmo] em Londres.
Há, como sempre, alguns casos excecionais, em que o Presente pode dar informação de tempo presente com eventos. Mas são mesmo muito raros. Um exemplo que os gramáticos costumam dar é o dos relatos de futebol em direto.
- Messi recebe a bola... chuta... e marca golo [neste preciso momento].
Presente projetado para o futuro
Estes são os dois usos prototípicos deste tempo verbal. Mas também o podemos encontrar em frases com uma leitura de futuro, embora não seja o tempo verbal em si que dê essa informação. Como por exemplo:
- Chove amanhã.
Esta leitura é reforçada com a estrutura ir no Presente do Indicativo + verbo principal no infinitivo. Se, no exemplo, anterior, a leitura de futuro é sobretudo dada pelo adverbial "amanhã", uma frase do tipo "Vai chover" não precisa de adverbial para percebermos que se trata de uma frase com leitura de futuro.
E, para não complicar, por hoje é tudo. Amanhã haverá mais, sobre outro tempo verbal. Fiquem atentos!
terça-feira, 29 de março de 2016
5 factos que vai querer aprender sobre tempos verbais
Os tempos verbais são o tema da semana no Estudar a Língua. Antes de analisarmos os tempos do português e a sua aplicação na oralidade e na escrita, vamos conhecer alguns factos interessantes sobre tempos verbais, que o leitor certamente vai gostar de aprender.
1 - Quem foi pioneiro a falar de tempos verbais e de verbos?
Nada mais, nada menos do que Aristóteles! Na obra De Interpretatione, o pensador grego propõe uma definição de verbo e refere que o verbo transmite a "noção de tempo" e que carreia a noção do momento presente, do "agora". Isto, além do próprio significado da forma verbal, claro está.
Para o autor, a forma básica do verbo tem informação do tempo presente, ao passo que as formas que transmitem informação de passado e de futuro são indicadores de tempos verbais.
Hoje em dia sabe-se que há outras formas de expressar informação de tempo e sabe-se também que a função dos verbos não é apenas essa, mas os estudos de Aristóteles foram um grande contributo para os avanços da linguística e ainda hoje são tidos como referência em alguns estudos.
2 - Quantos tempos verbais tem o português?
O português tem 19 tempos verbais*, divididos em dois modos e ainda num grupo de formas nominais (por terem propriedades em comum com os nomes). Além destes modos, ainda existe o modo Imperativo, relacionados, com ordem ou pedidos, por exemplo.
Indicativo: Presente (tenho), Pretérito Perfeito Simples (tive), Pretérito Imperfeito (tinha), Pretérito Mais-Que-Perfeito Simples (tivera), Pretérito Mais-Que-Perfeito Composto (tinha feito), Futuro Simples (terei), Futuro Composto (terei feito), Condicional (teria), Condicional Composto (teria feito)
Conjuntivo (Subjuntivo em PT BR): Presente (tenha), Imperfeito (tivesse), Pretérito Mais-Que-Perfeito (Imperfeito Composto) (tivesse feito), Futuro (tiver), Futuro Composto (tiver feito)
Formas nominais: Gerúndio (tendo), Particípio (tido), Infinitivo impessoal (ter), Infinitivo flexionado (terem)
* Mas atenção: alguns gramáticos podem discordar desta análise, porque, como se referiu acima, nem todas estas formas verbais têm informação temporal.
3 - O Presente raramente transmite tempo presente.
Estranho, não é? Mas em certas línguas, como o português e o inglês, para transmitir tempo presente usa-se a forma progressiva: estar a + infinitivo na norma padrão do português europeu; estar + gerúndio em português do Brasil (e em certas regiões de Portugal, como o Alentejo) (estou a fazer um bolo; estou fazendo um bolo). Durante esta semana vamos explicar porquê, por isso estejam atentos!
4 - O português é das raras línguas a nível mundial que tem infinitivo flexionado.
O infinitivo, em princípio, é a forma mais básica do verbo, a raiz, por assim dizer. Por isso, é geralmente impessoal e não tem flexão. Acontece que, no português, pode ter, quando é precedido de tem sujeito próprio.
Por exemplo, não podemos dizer: *É bom eles fazer exercício. Dizemos, isso sim: É bom eles fazerem exercício. (Contraste-se com a construção impessoal: É bom fazer exercício.)
5 - O Imperfeito é o tempo verbal que mais usos diferentes tem em português.
Além de ser um tempo do passado, o Imperfeito é tradicionalmente usado com valor de cortesia, por exemplo. Quando pedimos um café, por exemplo, preferimos normalmente o Imperfeito ao Presente, embora seja no momento presente que queremos realmente um café (Queria um café).
Na verdade, raramente o Imperfeito é só um tempo do passado. Sem querer acrescentar demasiada informação por enquanto, porque também vamos falar mais disto durante a semana, o Imperfeito às vezes até é usado com um certo sentido de futuro, em frases do tipo "Amanhã ia ter contigo se pudesses" (é importante notar que o leitor só tem a certeza de que há uma leitura de futuro por causa do amanhã).
Já sabem: fiquem atentos, porque durante esta semana vamos ensinar bem mais sobre tempos verbais!
![]() |
| Foto: UOL educação |
1 - Quem foi pioneiro a falar de tempos verbais e de verbos?
![]() |
| Foto: clipart.me |
Para o autor, a forma básica do verbo tem informação do tempo presente, ao passo que as formas que transmitem informação de passado e de futuro são indicadores de tempos verbais.
Hoje em dia sabe-se que há outras formas de expressar informação de tempo e sabe-se também que a função dos verbos não é apenas essa, mas os estudos de Aristóteles foram um grande contributo para os avanços da linguística e ainda hoje são tidos como referência em alguns estudos.
2 - Quantos tempos verbais tem o português?
O português tem 19 tempos verbais*, divididos em dois modos e ainda num grupo de formas nominais (por terem propriedades em comum com os nomes). Além destes modos, ainda existe o modo Imperativo, relacionados, com ordem ou pedidos, por exemplo.
Indicativo: Presente (tenho), Pretérito Perfeito Simples (tive), Pretérito Imperfeito (tinha), Pretérito Mais-Que-Perfeito Simples (tivera), Pretérito Mais-Que-Perfeito Composto (tinha feito), Futuro Simples (terei), Futuro Composto (terei feito), Condicional (teria), Condicional Composto (teria feito)
Conjuntivo (Subjuntivo em PT BR): Presente (tenha), Imperfeito (tivesse), Pretérito Mais-Que-Perfeito (Imperfeito Composto) (tivesse feito), Futuro (tiver), Futuro Composto (tiver feito)
Formas nominais: Gerúndio (tendo), Particípio (tido), Infinitivo impessoal (ter), Infinitivo flexionado (terem)
* Mas atenção: alguns gramáticos podem discordar desta análise, porque, como se referiu acima, nem todas estas formas verbais têm informação temporal.
3 - O Presente raramente transmite tempo presente.
Estranho, não é? Mas em certas línguas, como o português e o inglês, para transmitir tempo presente usa-se a forma progressiva: estar a + infinitivo na norma padrão do português europeu; estar + gerúndio em português do Brasil (e em certas regiões de Portugal, como o Alentejo) (estou a fazer um bolo; estou fazendo um bolo). Durante esta semana vamos explicar porquê, por isso estejam atentos!
4 - O português é das raras línguas a nível mundial que tem infinitivo flexionado.
O infinitivo, em princípio, é a forma mais básica do verbo, a raiz, por assim dizer. Por isso, é geralmente impessoal e não tem flexão. Acontece que, no português, pode ter, quando é precedido de tem sujeito próprio.
Por exemplo, não podemos dizer: *É bom eles fazer exercício. Dizemos, isso sim: É bom eles fazerem exercício. (Contraste-se com a construção impessoal: É bom fazer exercício.)
5 - O Imperfeito é o tempo verbal que mais usos diferentes tem em português.
![]() |
| Foto: lifehacker.com |
Na verdade, raramente o Imperfeito é só um tempo do passado. Sem querer acrescentar demasiada informação por enquanto, porque também vamos falar mais disto durante a semana, o Imperfeito às vezes até é usado com um certo sentido de futuro, em frases do tipo "Amanhã ia ter contigo se pudesses" (é importante notar que o leitor só tem a certeza de que há uma leitura de futuro por causa do amanhã).
Já sabem: fiquem atentos, porque durante esta semana vamos ensinar bem mais sobre tempos verbais!
terça-feira, 8 de março de 2016
Que são estes verbos no plural?
Hoje vamos continuar a estudar questões problemáticas sobre concordância verbal. Na semana passada vimos que a concordância verbal se faz entre o sujeito e o verbo, porque o português é uma língua cuja sintaxe é dominada pelo sujeito - mesmo quando o sujeito é nulo (ou seja, quando não é expresso foneticamente).
Hoje vamos perceber que há certos casos em que isso não acontece. Para isso temos de recuar um pouco até às funções sintáticas. Já falámos no sujeito, que é o argumento externo, e no predicado e nos seus argumentos internos, que tanto podem ser objeto direto, indireto ou complemento oblíquo (quando é iniciado por preposições).
Ora, quando temos verbos do tipo ser, parecer, continuar, estar, ficar, etc., o argumento interno do verbo chama-se o predicativo do sujeito, porque está a conferir uma propriedade qualquer ao sujeito. Seja lá o que for, se estiver precedido do verbo ser, está a predicar o sujeito de alguma coisa.
- Os alunos são inteligentes.
- Eles parecem boas pessoas.
Uma nota: o predicativo do sujeito não aparece apenas com o verbo ser; mas o verbo ser seleciona sempre um predicativo do sujeito.
Então, há alguns casos em que, com o verbo ser, a concordância não se faz com o sujeito, mas sim com o predicativo do sujeito.
1 - Se o sujeito for aquilo, isto, nada, tudo, geralmente seguido de uma oração relativa restritiva.
- Aquilo que sempre quiseste foram férias na praia.
- Aquilo que sempre quiseste foi um cão.
2 - Em frases interrogativas, começadas por pronomes interrogativos como quem ou que.
- Quem são estas pessoas?
3 - Se o sujeito não se referir a pessoas, a concordância pode ser feita com o predicativo do sujeito:
- O meu orgulho são os meus filhos.
[Reparem na agramaticalidade na concordância com o sujeito:
*O meu orgulho é os meus filhos.]
4 - Com nomes de sentido coletivo.
- A maioria são mulheres.
[Novamente:
*A maioria é mulheres.
Sobre esta frase, claro que é possível reestruturar esta frase de modo a ter concordância com o sujeito, até porque a expressão a maioria é tipicamente conjugada no singular, como já vimos noutro post, mas aí já não é bem o predicativo do sujeito. Veja-se:
- A maioria é composta por mulheres]
Tudo uma questão de medida
5 - Ainda no escopo do verbo ser, lembram-se de vos ter dito (no mesmo post no link imediatamente acima) que se o sujeito indicar uma quantidade ou uma medida, é essa medida que determina se o verbo está conjugado no plural ou no singular? Pois, como é costume, há uma exceção de que não falámos na altura.
Então, o exemplo que dei nesse post foi:
- Um litro de leite custa 1 euro.
- Dois litros de leite custam 1 euro.
No entanto, a concordância não se faz com o sujeito se a seguir ao verbo estiverem expressões como muito, pouco, menos de, mais de, etc, porque, de uma maneira geral, esses advérbios de quantidade funcionam como predicativo do sujeito.
- Dois quilos de farinha é muito/pouco/demais.
Hoje vamos perceber que há certos casos em que isso não acontece. Para isso temos de recuar um pouco até às funções sintáticas. Já falámos no sujeito, que é o argumento externo, e no predicado e nos seus argumentos internos, que tanto podem ser objeto direto, indireto ou complemento oblíquo (quando é iniciado por preposições).
Ora, quando temos verbos do tipo ser, parecer, continuar, estar, ficar, etc., o argumento interno do verbo chama-se o predicativo do sujeito, porque está a conferir uma propriedade qualquer ao sujeito. Seja lá o que for, se estiver precedido do verbo ser, está a predicar o sujeito de alguma coisa.
- Os alunos são inteligentes.
- Eles parecem boas pessoas.
Uma nota: o predicativo do sujeito não aparece apenas com o verbo ser; mas o verbo ser seleciona sempre um predicativo do sujeito.
Então, há alguns casos em que, com o verbo ser, a concordância não se faz com o sujeito, mas sim com o predicativo do sujeito.
1 - Se o sujeito for aquilo, isto, nada, tudo, geralmente seguido de uma oração relativa restritiva.
- Aquilo que sempre quiseste foram férias na praia.
- Aquilo que sempre quiseste foi um cão.
2 - Em frases interrogativas, começadas por pronomes interrogativos como quem ou que.
- Quem são estas pessoas?
3 - Se o sujeito não se referir a pessoas, a concordância pode ser feita com o predicativo do sujeito:
- O meu orgulho são os meus filhos.
[Reparem na agramaticalidade na concordância com o sujeito:
*O meu orgulho é os meus filhos.]
4 - Com nomes de sentido coletivo.
- A maioria são mulheres.
[Novamente:
*A maioria é mulheres.
Sobre esta frase, claro que é possível reestruturar esta frase de modo a ter concordância com o sujeito, até porque a expressão a maioria é tipicamente conjugada no singular, como já vimos noutro post, mas aí já não é bem o predicativo do sujeito. Veja-se:
- A maioria é composta por mulheres]
Tudo uma questão de medida
5 - Ainda no escopo do verbo ser, lembram-se de vos ter dito (no mesmo post no link imediatamente acima) que se o sujeito indicar uma quantidade ou uma medida, é essa medida que determina se o verbo está conjugado no plural ou no singular? Pois, como é costume, há uma exceção de que não falámos na altura.
Então, o exemplo que dei nesse post foi:
- Um litro de leite custa 1 euro.
- Dois litros de leite custam 1 euro.
No entanto, a concordância não se faz com o sujeito se a seguir ao verbo estiverem expressões como muito, pouco, menos de, mais de, etc, porque, de uma maneira geral, esses advérbios de quantidade funcionam como predicativo do sujeito.
- Dois quilos de farinha é muito/pouco/demais.
quinta-feira, 3 de março de 2016
Português à moda do Yoda, isto é.
- A Maria comeu a maçã.
- *A maçã a Maria comeu.
Qual destas vos parece correta? A primeira, não? Há uma razão: a ordem de palavras do português. Para explicar mais sobre a ordem de palavras é preciso compreender a base da sintaxe, i.e., as relações gramaticais.
Ora, diz a Gramática da Língua Portuguesa (2003) que uma oração/frase tem como domínio uma predicação; e que a predicação é constituída, tipicamente, por dois constituintes: o predicado e o sujeito. No predicado incluem-se "o predicador" e os seus argumentos internos. O sujeito é o argumento externo do predicado. No português, a maioria dos predicados são verbais, mas não se pense que o predicado é o verbo apenas.
Um predicado verbal é constituído pelo verbo, sim, mas também pelos seus argumentos ou complementos.
- A Maria [SU] deu uma maçã [OD] à filha [OI].
Adiante. Diz a mesma Gramática que o português "é uma língua de proeminência de sujeito". O que é que isto quer dizer? Quer dizer que, de um ponto de vista gramatical, é o sujeito que determina a concordância verbal. Veja-se:
- A Maria comeu maçãs. (SU na 3ª pessoa do singular, verbo conjugado na 3ª pessoa do singular - gramatical)
- *A Maria comeram maçãs. (SU na 3ª pessoa do singular, verbo conjugado na 3ª pessoa do plural, a concordar com o objeto direto - agramatical)
Por estas razões, em português, em frases declarativas, o sujeito surge tipicamente na "primeira posição argumental" da frase. Segue-se, então, o predicado. E aqui temos a ordem de palavras básica da nossa língua:
S V O [Sujeito - Verbo - Objeto]
No entanto, é perfeitamente possível dizer algo como:
- Comi sushi ao jantar.
Onde está o sujeito? Simples. O sujeito está na sua posição natural, à esquerda do predicado. É possível percebermos isso porque o verbo está conjugado de forma a concordar com o sujeito, na 1ª pessoa do singular. O sujeito é o pronome "eu", simplesmente é nulo foneticamente. O português é, então, uma língua sintaticamente dominada pelo sujeito, mas que permite sujeitos nulos - algo que não é possível, por exemplo, em inglês. Significa que, mesmo que o sujeito não apareça na frase, a sua posição sintática está sempre representada.
Quando S V O não é S V O
Como é habitual, a língua portuguesa enche-nos de exceções e de casos em que a ordem básica não se aplica.
Tipicamente, refere ainda a Gramática da Língua Portuguesa, "à estrutura sintáctica sujeito-predicado corresponde a estrutura temática tópico-comentário". Assim, numa frase como "A Maria comeu uma maçã", A Maria é sujeito e tópico; comeu uma maçã é o predicado e o comentário acerca da Maria. De um ponto de vista semântico, chamamos a este tipo de frases predicações, porque estamos a fazer um "juízo categórico" sobre alguma coisa (e essa alguma coisa é o constituinte representado pelo sujeito).
Quando o sujeito e o tópico correspondem, estamos a falar de tópicos não-marcados. Com topicalização não-marcada, o padrão de ordem de palavras é S V O (os exemplos doravante apresentados são retirados da Gramática da Língua Portuguesa).
- A que é que todos os alunos reagiram mal?
Todos os alunos [TOP/SU] reagiram mal ao teste.
Mas nem sempre há uma correspondência entre tópico e sujeito. Quando assim é, falamos de tópicos marcados e estes sim, podem causar uma alteração na ordem de palavras.
- A quem é que o Pedro ofereceu esse livro?
Esse livro [TOP], o Pedro [SU] ofereceu(-o) à Ana.*
Nesta frase, temos uma ordem O S V O (o segundo objeto, à direita do verbo, deve-se ao facto de o verbo oferecer ter dois argumentos - oferecer o quê [OD] a quem [OI]).
Mesmo sem questões de topicalização, o português também permite uma ordem V O S, em frases do tipo:
- Quem comeu o bolo?
Comeu-o o João [SU].
O exemplo que inicia este post pode entrar nesta categoria, se considerarmos a maçã como tópico e a Maria como sujeito (no entanto, sem pontuação, essa leitura pode ser altamente ambígua).
- A Maria [TOP/SU] comeu a maçã.
- A maçã [TOP], a Maria [SU] comeu(-a).
Há ainda outros contextos a considerar. Quando a frase "apresenta informação nova no contexto das perguntas", mesmo sem topicalização, é possível ter diferentes padrões de ordens de palavras.
Quando temos verbos inacusativos, que são verbos que não têm argumentos internos, podemos ter a ordem V S.
- O que aconteceu?
Chegaram os meus sobrinhos.
As ordens V S O e V [O] S também são possíveis.
- Quem comeu o quê?
Comeram os miúdos o bolo.
- Quem comeu o bolo?
Comeram [o bolo] os miúdos.
Esta pequena lição à moda do Yoda (para quem não sabe, é a personagem do Star Wars que fala quase sempre com a ordem V S O, que, diga-se, não é a ordem de palavras básica do inglês) terá continuidade nos próximos dias, já que da ordem de palavras ainda derivam mais alguns problemas nos falantes. Fiquem atentos.
- *A maçã a Maria comeu.
Qual destas vos parece correta? A primeira, não? Há uma razão: a ordem de palavras do português. Para explicar mais sobre a ordem de palavras é preciso compreender a base da sintaxe, i.e., as relações gramaticais.
Ora, diz a Gramática da Língua Portuguesa (2003) que uma oração/frase tem como domínio uma predicação; e que a predicação é constituída, tipicamente, por dois constituintes: o predicado e o sujeito. No predicado incluem-se "o predicador" e os seus argumentos internos. O sujeito é o argumento externo do predicado. No português, a maioria dos predicados são verbais, mas não se pense que o predicado é o verbo apenas.
Um predicado verbal é constituído pelo verbo, sim, mas também pelos seus argumentos ou complementos.
- A Maria [SU] deu uma maçã [OD] à filha [OI].
Adiante. Diz a mesma Gramática que o português "é uma língua de proeminência de sujeito". O que é que isto quer dizer? Quer dizer que, de um ponto de vista gramatical, é o sujeito que determina a concordância verbal. Veja-se:
- A Maria comeu maçãs. (SU na 3ª pessoa do singular, verbo conjugado na 3ª pessoa do singular - gramatical)
- *A Maria comeram maçãs. (SU na 3ª pessoa do singular, verbo conjugado na 3ª pessoa do plural, a concordar com o objeto direto - agramatical)
Por estas razões, em português, em frases declarativas, o sujeito surge tipicamente na "primeira posição argumental" da frase. Segue-se, então, o predicado. E aqui temos a ordem de palavras básica da nossa língua:
S V O [Sujeito - Verbo - Objeto]
No entanto, é perfeitamente possível dizer algo como:
- Comi sushi ao jantar.
Onde está o sujeito? Simples. O sujeito está na sua posição natural, à esquerda do predicado. É possível percebermos isso porque o verbo está conjugado de forma a concordar com o sujeito, na 1ª pessoa do singular. O sujeito é o pronome "eu", simplesmente é nulo foneticamente. O português é, então, uma língua sintaticamente dominada pelo sujeito, mas que permite sujeitos nulos - algo que não é possível, por exemplo, em inglês. Significa que, mesmo que o sujeito não apareça na frase, a sua posição sintática está sempre representada.
Quando S V O não é S V O
Como é habitual, a língua portuguesa enche-nos de exceções e de casos em que a ordem básica não se aplica.
Tipicamente, refere ainda a Gramática da Língua Portuguesa, "à estrutura sintáctica sujeito-predicado corresponde a estrutura temática tópico-comentário". Assim, numa frase como "A Maria comeu uma maçã", A Maria é sujeito e tópico; comeu uma maçã é o predicado e o comentário acerca da Maria. De um ponto de vista semântico, chamamos a este tipo de frases predicações, porque estamos a fazer um "juízo categórico" sobre alguma coisa (e essa alguma coisa é o constituinte representado pelo sujeito).
Quando o sujeito e o tópico correspondem, estamos a falar de tópicos não-marcados. Com topicalização não-marcada, o padrão de ordem de palavras é S V O (os exemplos doravante apresentados são retirados da Gramática da Língua Portuguesa).
- A que é que todos os alunos reagiram mal?
Todos os alunos [TOP/SU] reagiram mal ao teste.
Mas nem sempre há uma correspondência entre tópico e sujeito. Quando assim é, falamos de tópicos marcados e estes sim, podem causar uma alteração na ordem de palavras.
- A quem é que o Pedro ofereceu esse livro?
Esse livro [TOP], o Pedro [SU] ofereceu(-o) à Ana.*
Nesta frase, temos uma ordem O S V O (o segundo objeto, à direita do verbo, deve-se ao facto de o verbo oferecer ter dois argumentos - oferecer o quê [OD] a quem [OI]).
Mesmo sem questões de topicalização, o português também permite uma ordem V O S, em frases do tipo:
- Quem comeu o bolo?
Comeu-o o João [SU].
O exemplo que inicia este post pode entrar nesta categoria, se considerarmos a maçã como tópico e a Maria como sujeito (no entanto, sem pontuação, essa leitura pode ser altamente ambígua).
- A Maria [TOP/SU] comeu a maçã.
- A maçã [TOP], a Maria [SU] comeu(-a).
Há ainda outros contextos a considerar. Quando a frase "apresenta informação nova no contexto das perguntas", mesmo sem topicalização, é possível ter diferentes padrões de ordens de palavras.
Quando temos verbos inacusativos, que são verbos que não têm argumentos internos, podemos ter a ordem V S.
- O que aconteceu?
Chegaram os meus sobrinhos.
As ordens V S O e V [O] S também são possíveis.
- Quem comeu o quê?
Comeram os miúdos o bolo.
- Quem comeu o bolo?
Comeram [o bolo] os miúdos.
Esta pequena lição à moda do Yoda (para quem não sabe, é a personagem do Star Wars que fala quase sempre com a ordem V S O, que, diga-se, não é a ordem de palavras básica do inglês) terá continuidade nos próximos dias, já que da ordem de palavras ainda derivam mais alguns problemas nos falantes. Fiquem atentos.
domingo, 28 de fevereiro de 2016
A, ante, após, até... A regência das preposições
Para finalizar a semana dos verbos, vamos cruzá-los com um outro tema: as preposições. Lembram-se das preposições, que em crianças éramos obrigados a saber de cor?
a, ante, após, até, com, contra, de, desde, durante, em, entre, para, perante, por, salvo, sem, sob, sobre, trás.*
Deixadas muitas vezes para o nosso subconsciente e para o nosso conhecimento interiorizado da língua, as preposições - e as locuções prepositivas, que são muitas mais do que as acima apresentadas - são uma categoria gramatical fundamental, na medida em que exprimem relações entre partes interdependentes de uma oração.
Normalmente, e dada a sua natureza relacional, só em casos raros é que as preposições surgem isoladas: tipicamente são seguidas de um nome ou de uma frase/oração.
- Fui a Paris (nome).
- Preciso de cortar o cabelo (frase).
Como é evidente, não serve este texto para explicar tudo o que há para saber sobre preposições. Pelo contrário, vamos cingir-nos àquelas que estão sempre associadas ao tema da semana, os verbos.
Numa frase, a maioria dos verbos surge obrigatoriamente associado a certas funções sintáticas (como por exemplo, o sujeito, o objeto direto, o objeto indireto, etc). Por isso, deles se diz que têm uma estrutura argumental.
Alguns verbos têm apenas um argumento, o sujeito (nascer) - quando o único argumento é o sujeito, chama-se argumento externo, porque se situa fora do predicado. Há muitos verbos com dois argumentos, o sujeito e o objeto direto (comer). Outros têm três, o sujeito, o objeto direto e o indireto (dar). Nestes dois casos, os argumentos objeto direto e indireto são internos ao verbo, pois fazem parte do predicado.
- O menino nasceu.
- O Pedro comeu bolachas.
- O Rui deu um livro à Ana.
É aqui que surge o fenómeno linguístico que interessa a este artigo: certos verbos "exigem" que os seus argumentos sejam iniciados por preposições. Nos exemplos acima encontramos logo um desses casos.
- O Rui deu um livro à Ana (contração do artigo a com a preposição a).
Acontece que existem verbos que selecionam o chamado complemento oblíquo, que é obrigatoriamente iniciado por uma preposição em particular. É o caso dos verbo gostar (de), depender (de), conversar (com), morar (em).
- A Maria gosta de chocolate.
- A empresa depende de créditos.
- O professor conversou com os alunos.
- Ele mora no Porto.
Um outro caso clássico de regência de preposições: os chamados verbos de movimento, que podem selecionar uma de várias preposições.
- Eu quero ir em direção ao mar. (locução prepositiva)
- Eles vão para Lisboa.
- Nós vamos até ao Porto.
Não existe nenhuma regra por detrás da regência das preposições. Trata-se apenas de uma propriedade lexical de base dos próprios verbos - e que nada tem que ver com a própria sintaxe da frase.
É precisamente a questão da regência das preposições que leva a erros como a estratégia cortadora em frases em que os constituintes não estão na sua "ordem natural", como já referimos neste blog.
* A lista apresentada é constituída pelas chamadas preposições simples do português, segundo a Gramática da Língua Portuguesa (2003). Chame-se, no entanto, a atenção para outras palavras com "caráter relacional" "indiscutível", referidas por Cunha e Cintra (1984), como afora, conforme, consoante, durante, exceto, fora, mediante, menos, não obstante, salvo, segundo, senão, tirante, visto.
a, ante, após, até, com, contra, de, desde, durante, em, entre, para, perante, por, salvo, sem, sob, sobre, trás.*
Deixadas muitas vezes para o nosso subconsciente e para o nosso conhecimento interiorizado da língua, as preposições - e as locuções prepositivas, que são muitas mais do que as acima apresentadas - são uma categoria gramatical fundamental, na medida em que exprimem relações entre partes interdependentes de uma oração.
Normalmente, e dada a sua natureza relacional, só em casos raros é que as preposições surgem isoladas: tipicamente são seguidas de um nome ou de uma frase/oração.
- Fui a Paris (nome).
- Preciso de cortar o cabelo (frase).
Como é evidente, não serve este texto para explicar tudo o que há para saber sobre preposições. Pelo contrário, vamos cingir-nos àquelas que estão sempre associadas ao tema da semana, os verbos.
Numa frase, a maioria dos verbos surge obrigatoriamente associado a certas funções sintáticas (como por exemplo, o sujeito, o objeto direto, o objeto indireto, etc). Por isso, deles se diz que têm uma estrutura argumental.
Alguns verbos têm apenas um argumento, o sujeito (nascer) - quando o único argumento é o sujeito, chama-se argumento externo, porque se situa fora do predicado. Há muitos verbos com dois argumentos, o sujeito e o objeto direto (comer). Outros têm três, o sujeito, o objeto direto e o indireto (dar). Nestes dois casos, os argumentos objeto direto e indireto são internos ao verbo, pois fazem parte do predicado.
- O menino nasceu.
- O Pedro comeu bolachas.
- O Rui deu um livro à Ana.
É aqui que surge o fenómeno linguístico que interessa a este artigo: certos verbos "exigem" que os seus argumentos sejam iniciados por preposições. Nos exemplos acima encontramos logo um desses casos.
- O Rui deu um livro à Ana (contração do artigo a com a preposição a).
Acontece que existem verbos que selecionam o chamado complemento oblíquo, que é obrigatoriamente iniciado por uma preposição em particular. É o caso dos verbo gostar (de), depender (de), conversar (com), morar (em).
- A Maria gosta de chocolate.
- A empresa depende de créditos.
- O professor conversou com os alunos.
- Ele mora no Porto.
Um outro caso clássico de regência de preposições: os chamados verbos de movimento, que podem selecionar uma de várias preposições.
- Eu quero ir em direção ao mar. (locução prepositiva)
- Eles vão para Lisboa.
- Nós vamos até ao Porto.
Não existe nenhuma regra por detrás da regência das preposições. Trata-se apenas de uma propriedade lexical de base dos próprios verbos - e que nada tem que ver com a própria sintaxe da frase.
É precisamente a questão da regência das preposições que leva a erros como a estratégia cortadora em frases em que os constituintes não estão na sua "ordem natural", como já referimos neste blog.
* A lista apresentada é constituída pelas chamadas preposições simples do português, segundo a Gramática da Língua Portuguesa (2003). Chame-se, no entanto, a atenção para outras palavras com "caráter relacional" "indiscutível", referidas por Cunha e Cintra (1984), como afora, conforme, consoante, durante, exceto, fora, mediante, menos, não obstante, salvo, segundo, senão, tirante, visto.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
E se nós ensináSSEMOS a conjugar os verbos?
Retomamos o tema da semana - os verbos - para explicar um pouco mais sobre os tempos verbais. No post anterior, referimos os modos e as modalidades a que se associam. Hoje, vamos aprofundar a questão da conjugação verbal e endereçar um erro grave, mas infelizmente comum na escrita.
Ao contrário de outras línguas, como o inglês, o português tem conjugações variáveis por pessoa e número, normalmente esquematizado no tradicional eu/tu/ele/nós/vós/eles - há, portanto, três pessoas no singular e outras três no plural.
Além disso, convém não esquecer que, do ponto de vista da conjugação, os verbos se dividem em regulares e irregulares. As alterações de conjugação verbal, em verbos regulares, consistem numa diferente terminação da forma verbal. A raiz do verbo, por assim dizer, fica igual.
Assim, com verbos terminados em -ar, no Presente do Indicativo, por exemplo, a forma verbal acaba em o/as/a/amos/ais/am; com verbos terminados em -er, a forma verbal acaba em o/es/e/emos/eis/em; e com verbos terminados em -ir, acabam em o/es/e/imos/is/em.
E podemos continuar a lista por aí fora, com os demais tempos verbais do Indicativo (a saber, o Pretérito Perfeito Simples - eu cantei; eu comi; eu parti -; o Pretérito Imperfeito - eu cantava, eu comia, eu partia; o Futuro - eu cantarei, eu comerei, eu partirei, etc.).
O Conjuntivo
Tirando algumas exceções - como a segunda pessoa do plural (vós), que está cada vez mais em desuso e que leva a que muitos falantes não a saibam conjugar - o problema da conjugação não está no modo Indicativo, mas sim no Conjuntivo.
Tal como todas as línguas do mundo, também o português tem palavras homófonas. E quando essas palavras são graficamente representadas, através da escrita, surge muitas vezes confusão, sobretudo em falantes com menor nível de escolaridade.
Como vimos no post anterior, o Conjuntivo surge, tipicamente, em construções associadas à expressão de dúvida, de possibilidade ou de incerteza. Por exemplo, em frases condicionais, iniciadas por "se". Há três tipos de frases condicionais: a primeira, em que se usa o Presente do Conjuntivo, a segunda, em que usa o Imperfeito do Conjuntivo, e uma terceira, em que se usa um tempo composto, que não vamos por agora analisar. Caso não se lembrem destas coisas, porque são matéria dada ainda no ensino primário e que nunca mais é retomada, talvez se recordem das If Clauses (Type I, II e III) das aulas de inglês, dadas bem mais tarde. O valor semântico de cada uma delas, neste momento, não interessa. Importa, isso sim, conjugar bem cada tempo verbal:
Resumindo o que está na primeira tabela, no Presente do Conjuntivo (Subjuntivo para falantes do português do Brasil), conjuga-se com e/es/e/emos/eis/em em verbos terminados em -ar; a/as/a/amos/ais/am em verbos terminados em -er; e a/as/a/amos/ais/am em verbos terminados em -ir.
Foquemo-nos agora no Imperfeito do Indicativo, que é o que causa a maioria das asneiras.
- Se eu vendesse casas, teria imenso sucesso.
Esta é uma frase condicional com Imperfeito do Conjuntivo, na primeira pessoa do plural. Infelizmente, vendesse soa parecido a vende-se (embora nem sequer sejam exatamente homófonas, por causa da acentuação - o verbo no Imperfeito do Conjuntivo lê-se como se fosse "vendêsse"). Mas quantas e quantas vezes já não encontrámos disparates do tipo se eu vende-se ou se eu canta-se e por aí fora? Pois. Vende-se ou canta-se são verbos que estão no Presente do Indicativo - têm, por isso, valores semânticos e usos completamente diferentes e escrevem-se assim porque têm um clítico em posição de ênclise - um fenómeno que este blog também já explicou.
Esta é uma das consequências de um certo abandono das questões linguísticas mais básicas no ensino, à medida que este avança, e só prova que a linguística nunca devia deixar de fazer parte dos programas de educação da língua materna - da mesma forma como nunca deixa de fazer parte nos programas de língua estrangeira.
Ao contrário de outras línguas, como o inglês, o português tem conjugações variáveis por pessoa e número, normalmente esquematizado no tradicional eu/tu/ele/nós/vós/eles - há, portanto, três pessoas no singular e outras três no plural.
Além disso, convém não esquecer que, do ponto de vista da conjugação, os verbos se dividem em regulares e irregulares. As alterações de conjugação verbal, em verbos regulares, consistem numa diferente terminação da forma verbal. A raiz do verbo, por assim dizer, fica igual.
Assim, com verbos terminados em -ar, no Presente do Indicativo, por exemplo, a forma verbal acaba em o/as/a/amos/ais/am; com verbos terminados em -er, a forma verbal acaba em o/es/e/emos/eis/em; e com verbos terminados em -ir, acabam em o/es/e/imos/is/em.
![]() |
| Imagem: alunosonline.com.uol.br |
E podemos continuar a lista por aí fora, com os demais tempos verbais do Indicativo (a saber, o Pretérito Perfeito Simples - eu cantei; eu comi; eu parti -; o Pretérito Imperfeito - eu cantava, eu comia, eu partia; o Futuro - eu cantarei, eu comerei, eu partirei, etc.).
O Conjuntivo
Tirando algumas exceções - como a segunda pessoa do plural (vós), que está cada vez mais em desuso e que leva a que muitos falantes não a saibam conjugar - o problema da conjugação não está no modo Indicativo, mas sim no Conjuntivo.
Tal como todas as línguas do mundo, também o português tem palavras homófonas. E quando essas palavras são graficamente representadas, através da escrita, surge muitas vezes confusão, sobretudo em falantes com menor nível de escolaridade.
Como vimos no post anterior, o Conjuntivo surge, tipicamente, em construções associadas à expressão de dúvida, de possibilidade ou de incerteza. Por exemplo, em frases condicionais, iniciadas por "se". Há três tipos de frases condicionais: a primeira, em que se usa o Presente do Conjuntivo, a segunda, em que usa o Imperfeito do Conjuntivo, e uma terceira, em que se usa um tempo composto, que não vamos por agora analisar. Caso não se lembrem destas coisas, porque são matéria dada ainda no ensino primário e que nunca mais é retomada, talvez se recordem das If Clauses (Type I, II e III) das aulas de inglês, dadas bem mais tarde. O valor semântico de cada uma delas, neste momento, não interessa. Importa, isso sim, conjugar bem cada tempo verbal:
![]() |
| Imagens: alunosonline.com.uol.br |
Resumindo o que está na primeira tabela, no Presente do Conjuntivo (Subjuntivo para falantes do português do Brasil), conjuga-se com e/es/e/emos/eis/em em verbos terminados em -ar; a/as/a/amos/ais/am em verbos terminados em -er; e a/as/a/amos/ais/am em verbos terminados em -ir.
Foquemo-nos agora no Imperfeito do Indicativo, que é o que causa a maioria das asneiras.
- Se eu vendesse casas, teria imenso sucesso.
Esta é uma frase condicional com Imperfeito do Conjuntivo, na primeira pessoa do plural. Infelizmente, vendesse soa parecido a vende-se (embora nem sequer sejam exatamente homófonas, por causa da acentuação - o verbo no Imperfeito do Conjuntivo lê-se como se fosse "vendêsse"). Mas quantas e quantas vezes já não encontrámos disparates do tipo se eu vende-se ou se eu canta-se e por aí fora? Pois. Vende-se ou canta-se são verbos que estão no Presente do Indicativo - têm, por isso, valores semânticos e usos completamente diferentes e escrevem-se assim porque têm um clítico em posição de ênclise - um fenómeno que este blog também já explicou.
Esta é uma das consequências de um certo abandono das questões linguísticas mais básicas no ensino, à medida que este avança, e só prova que a linguística nunca devia deixar de fazer parte dos programas de educação da língua materna - da mesma forma como nunca deixa de fazer parte nos programas de língua estrangeira.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Modalidade, modo, verbo
![]() |
| Foto: clker.com |
Em primeiro lugar, quando temos um verbo numa frase, temos de atentar ao seu modo. E o que é isto? Segundo a Gramática da Língua Portuguesa de Mateus et alii (2003), o modo é aquilo que permite ao verbo expressar vários tipos de modalidade. Existem, fundamentalmente, quatro tipos de modalidade:
- interna ao participante: relacionada com a "capacidade e necessidade";
- externa ao participante: relacionada com "as circunstâncias externas" que rodeiam o participante;
- deôntica: relacionada com a ordem e o dever;
- epistémica: relacionada com a possibilidade, a dúvida e a incerteza.
Quanto a modos, existem, fundamentalmente, três: o Imperativo, o Conjuntivo e o Indicativo. Destes já ouviram falar, certo? Então, o Imperativo está relacionado com a ordem, pelo que expressa sobretudo uma modalidade deôntica.
O Conjuntivo e o Indicativo, de que vamos falar hoje, são um pouco mais difíceis de distinguir, pois podem "associar-se" a "mais do que uma modalidade". De qualquer modo, o Conjuntivo surge mais relacionado com a dúvida e a incerteza (modalidade epistémica). O modo Indicativo expressa mais facilmente certeza ou, simplesmente, situações em que se "afirma a veracidade de uma proposição" (Gramática da Língua Portuguesa, 2003) - no fundo, factos. É claro que a questão é bastante mais complexa, mas aqui tentamos simplificar.
Assim sendo, o Indicativo é o modo mais comum, sobretudo em frases simples. Em frases complexas, o Indicativo também surge na "maior parte das orações coordenadas" (frases com "e" ou "mas", por exemplo); e ainda na frase matriz ou oração principal da frase complexa. Já o Conjuntivo surge mais vezes em frases complexas subordinadas (em que há uma frase matriz, que pode ou não selecionar obrigatoriamente uma oração com Conjuntivo).
Quando nos ensinavam a distinguir os dois modos (ainda na escola primária), havia o hábito de dizer que, quando aparecia a conjunção integrante "que" numa frase (atente-se que o "que" nem sempre é uma conjunção integrante), a seguir teria de vir o Conjuntivo. Mas não é assim. Na verdade, o modo é escolhido com base naquilo que pretendemos exprimir.
Por exemplo, em frases complexas que expressam valores como "dúvida, volição, necessidade, possibilidade, obrigação, permissão", etc., o Conjuntivo é obrigatório:
- A Maria espera (Ind.) que o Rui chegue (Conj.) a horas.*
Já quando exprimimos "conhecimento ou crença", o Indicativo é mais frequente, mesmo na segunda oração.
- A Maria sabe (Ind.) que o Jorge está (Ind.) doente.*
Neste grupo há, no entanto, alguns verbos que admitem os dois modos na segunda oração.
- Ele calcula (Ind.) que os amigos estão (Ind.) em casa / estejam (Conj.) em casa.*
Por hoje é tudo. O próximo post será sobre a conjugação verbal, que está intimamente relacionada com o modo, e que traz muitos problemas - sobretudo quando há pronomes metidos ao barulho.
* Todos os exemplos foram retirados da Gramática da Língua Portuguesa, de 2003.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
Vou contar-vos uma história. Ou será que vou-vos contar uma história?
"Qual é a frase correta? Devia-te ter contado tudo ou devia ter-te contado tudo?" Há uns tempos fizeram-me esta pergunta. Confesso que me fez pensar. Afinal de contas, a linguística consiste no estudo da língua que é falada pelos falantes, isto é, que está em uso. E afinal, acho que todos nós usamos as duas situações aqui e ali.
Bem, vamos a algumas definições, para tentar compreender isto: àquela particulazinha (o "-te") dá-se o nome de pronome átono ou, simplesmente, clítico. Os clíticos têm apenas uma sílaba, não têm acentuação própria e "ocorrem associados à posição dos complementos dos verbos". E, conforme as formas verbais, podem surgir em várias posições na frase, na medida em que as línguas naturais têm os chamados "desencadeadores de colocação dos pronomes" (Gramática da Língua Portuguesa, Mateus et alii, 2003).
Antes de mais, é preciso lembrar que a posição dos clíticos varia conforme a variante da língua portuguesa. Por exemplo:
- "A menina levantou-se" - o clítico encontra-se depois do verbo em português europeu.
- "A menina se levantou" - em português brasileiro, surge antes do verbo.
Normalmente, referimo-nos a estas duas posições:
1. Quando o clítico está antes do verbo, temos próclise.
2. Se o clítico estiver depois do verbo, há ênclise.
Até aqui, tudo fácil, não é? Infelizmente, em linguística há sempre uma exceção, ou uma data de regras, ou uma série de construções frásicas, que decidem dificultar-nos a vida. Como gostam de dizer os linguistas, "quando há ciência, tudo tem de ser explicado"!
Assim sendo, foquemo-nos em construções com verbos auxiliares (do tipo "devia ter contado", como o nosso exemplo de partida). Quando há construções deste tipo, os clíticos nunca se associam ao verbo principal (nunca poderemos ter uma frase do tipo *"devia ter contado-te"), estando o verbo principal no particípio. Pelo contrário, associam-se ao auxiliar mais perto do verbo principal. Isto é, num exemplo como este, em que há dois auxiliares (dever e ter), o clítico surge, preferencialmente, acoplado ao verbo auxiliar "ter", que é o que está mais próximo do verbo principal. Daí que a opção mais correta, de um ponto de vista gramatical, seja "devia ter-te contado tudo".
Mas "devia-te ter contado tudo" não soa assim tão mal, pois não? Pois não. Mais uma vez, as gramáticas têm resposta. Existe um fenómeno linguístico chamado subida do clítico. Como vimos, numa frase simples, o clítico situa-se em posição de ênclise junto do verbo principal em português europeu - ou em posição proclítica em português do Brasil. Com um auxiliar, o clítico "sobe" para uma posição adjacente a esse auxiliar. Numa frase, como a do exemplo, com dois auxiliares, não é agramatical usarmos o clítico junto do primeiro auxiliar. Cenários como este são possíveis com verbos auxiliares do tipo começar, estar, dever, poder, etc.
Se o verbo principal estiver no infinitivo, o clítico oscila muito mais entre a associação ao auxiliar ou ao verbo principal ("vou contar-vos uma história" ou "vou-vos contar uma história").
Os desencadeadores
Até aqui, percebemos como funciona o posicionamento dos clíticos em frases simples e com verbos auxiliares. Percebemos também que, em português europeu, a ênclise é preferencial. Mas como escrevi logo no início, esse posicionamento pode estar dependente de desencadeadores, que forçam a existência de próclise, ou seja, que "obrigam" o clítico a mudar-se para uma posição anterior ao verbo a que está acoplado.
São alguns desses desencadeadores a negação, algumas interrogativas, a subordinação, as frases relativas e certos advérbios como só, mesmo, apenas, entre outros. Exemplos:
- Não o vi.
- Quem o viu?
- Ele disse que o viu.
- O livro que te dei ontem é bom.
- Só ele o viu.
Nota extra:
- Em português, sobretudo num registo oral, é muito comum fazer aquilo a que a Gramática da Língua Portuguesa chama de "redobro do clítico". Nem sempre é gramatical, mas há algumas construções em que é aceite. O que acontece com o clítico é que, apesar da sua natureza de complemento verbal, nem sempre surge na posição onde o complemento verbal normalmente está. E a língua permite que essa posição vazia seja preenchida pelo complemento verbal que o pronome representa. É o caso de:
- Ele deu-me a mim as flores.
- Nós conhecemo-nos a nós próprios.
Isto do redobro do clítico é bem mais complicado do que esta breve explicação, mas vou ficar-me por aqui, para não dificultar demasiado.
Para vários exemplos e mais definições sobre pronomes átonos em português europeu, vejam aqui.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Não, a gente não vamos...
Hoje trago-vos um assunto bem mais problemático do que possa parecer: a concordância entre o sujeito e o verbo. Todos se lembram do que é o sujeito, certo? O sujeito é o argumento da frase que, no fundo, tem a "função de tópico da frase" e é ele que "desencadeia a concordância verbal" (Gramática da Língua Portuguesa de Mateus et alii, 2003). Quer isto dizer que o sujeito obriga o verbo a concordar com ele em pessoa e em número.
Então, quando dizemos "O João comeu a maçã", o sujeito é "O João" - em jeito de curiosidade, deixem-me dizer-vos que esta é a frase-padrão para qualquer linguista que queira explicar algum fenómeno básico em frases simples.
Parece simples, mas há sujeitos (gramaticais) que gostam de complicar e que têm a mania de nos confundir. Numa frase declarativa simples, o sujeito da frase é normalmente constituído por um sintagma (essencialmente, um grupo de palavras) em que o núcleo é um nome - atenção, o sujeito não é constituído obrigatoriamente apenas por um sintagma nominal.
Reparem no título: o sujeito da frase é "a gente". Ora vejamos algumas das coisas que diz o dicionário Priberam sobre o nome "gente".
"gente", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/DLPO/gente [consultado em 02-02-2016].
Então, quando dizemos "O João comeu a maçã", o sujeito é "O João" - em jeito de curiosidade, deixem-me dizer-vos que esta é a frase-padrão para qualquer linguista que queira explicar algum fenómeno básico em frases simples.
Parece simples, mas há sujeitos (gramaticais) que gostam de complicar e que têm a mania de nos confundir. Numa frase declarativa simples, o sujeito da frase é normalmente constituído por um sintagma (essencialmente, um grupo de palavras) em que o núcleo é um nome - atenção, o sujeito não é constituído obrigatoriamente apenas por um sintagma nominal.
Reparem no título: o sujeito da frase é "a gente". Ora vejamos algumas das coisas que diz o dicionário Priberam sobre o nome "gente".
1. Conjunto indeterminado de pessoas.
2. Conjunto dos habitantes de um território, país. = POPULAÇÃO, POVO
"gente", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/DLPO/gente [consultado em 02-02-2016].
Sublinhe-se: conjunto! A gente é um sintagma nominal composto por uma palavra no singular mas que tem um sentido plural. "A gente", na nossa cabeça, constitui um grupo, um coletivo. E, portanto, há muita gente que faz a concordância com o verbo no plural e que diz coisas do tipo "a gente vamos". Errado! "A gente não vamos" a lado nenhum, porque o sujeito está no singular. Isto tanto é válido para o português europeu como o português do Brasil. "A gente vai". Singular. Sempre.
Há uma possível explicação para este erro. Como bem sabemos, no Brasil é muito comum utilizar a expressão "a gente" em substituição do pronome pessoal "nós", que é plural. Curiosamente, não me recordo de ouvir um brasileiro a fazer a concordância de forma errada - por isso mesmo, até perguntei a uma falante nativa, que me confirmou que, por terras de Vera Cruz, "a gente vamos" é coisa que não se ouve. Em Portugal, o cenário muda um pouco de figura, sobretudo quando estamos perante um registo oral ou coloquial.
Então, resumindo, se o sintagma nominal estiver no singular, o verbo também tem de estar, mesmo que, lógica e semanticamente, a frase seja plural. Há que referir que nem todos os gramáticos pensam desta forma. Se a expressão "a gente vamos" é quase unanimemente considerada agramatical, o mesmo não acontece com a expressão "a maioria", que tem um valor semelhante: é um nome que está formalmente no singular mas com sentido plural.
Há uma diferença. Quando utilizamos "a maioria", normalmente é a maioria de alguma coisa. E essa "alguma coisa" normalmente está no plural - pode até nem estar expressa na frase, mas vamos lá sempre dar pelo contexto. Vejam este título que encontrei na blogosfera: "(...) a maioria dos políticos que vão parar ao poder são umas nódoas...". Isto não parece tão errado como "a gente vamos" porque o plural está ali, à vista de todos. Mas o sujeito não é "os políticos"; é "a maioria dos políticos". E "a maioria" é que é o núcleo do sintagma nominal.
Na verdade, expressões como "a maioria de", "um grupo de", "uma porção de", são consideradas por Brito (na Gramática da Língua Portuguesa, 2003) como "expressões quantitativas vagas". Se as expressões quantitativas, de natureza nominal, forem precisas, o número da expressão quantitativa é que determina a concordância (exemplo: "um litro de leite custa; dois litros de leite custam). Pelo contrário, como expressões do tipo "a maioria de" são imprecisas, pode pôr-se a hipótese - marginal - de se fazer a concordância com o elemento que é quantificado (na expressão "a maioria dos políticos", o elemento quantificado é "os políticos).
Mas sublinho: esta hipótese é marginal. Continua a ser sempre preferível fazer a concordância verbal no singular, para que o verbo concorde com o núcleo do sintagma nominal que compõe o sujeito.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
Houveram muitos erros...
Há qualquer coisa neste título que vos soa mal? Ainda bem, porque o uso incorreto do verbo "haver" é dos mais comuns da língua portuguesa.
O falante sabe que, ao conjugar um verbo, pode fazê-lo com os vários pronomes pessoais: eu, tu, ele, nós, vós, eles. Os últimos três, como sabem, estão no plural. Significa que o português permite a uma diferenciação de número ao conjugar verbos. E portanto, quando o referente do verbo "haver" está no plural, "houveram", pois claro.
Para quem comete esse erro, um exercício: e fazer isso no tempo presente? Não conseguem, pois não? Pois, porque, na esfera do presente, o verbo "haver" tem apenas uma forma: "há". E não podem dizer "eu há" ou "tu há", pois não? Claro que não.
Porque o verbo haver é um verbo impessoal, não tem pessoa (pronome pessoal) nem tem número (singular ou plural).
Muitas pessoas acham que este é um erro óbvio, embora haja ainda muitos que o cometem (haja, verbo "haver" no conjuntivo, sem pessoa e sem número, vêem?). Mas quando nos deparamos com perífrases verbais, isto é, com formas verbais constituídas por mais do que um verbo, a coisa começa a complicar. É tão, mas tão comum cometer erros neste tipo de estruturas que até os podemos encontrar muitos frequentemente em meios de comunicação social.
Nunca viram frases do tipo "vão haver mais pessoas no desemprego"? Afinal, "vão" é uma forma do verbo "ir", que se conjuga perfeitamente com número e que, por isso, tem formas plurais. Pois, mas "vão" está aqui como auxiliar do verbo principal; e o verbo principal é, novamente, o verbo "haver". E, portanto, o auxiliar nunca pode ser conjugado no plural, pois o verbo principal é impessoal. Assim sendo, "vai haver mais pessoas no desemprego."
Não compliquem: se o verbo "haver" está por lá, o plural não pode estar.
"Houveram muitos erros", mas a partir de agora não vai haver mais, pois não?
O falante sabe que, ao conjugar um verbo, pode fazê-lo com os vários pronomes pessoais: eu, tu, ele, nós, vós, eles. Os últimos três, como sabem, estão no plural. Significa que o português permite a uma diferenciação de número ao conjugar verbos. E portanto, quando o referente do verbo "haver" está no plural, "houveram", pois claro.
Para quem comete esse erro, um exercício: e fazer isso no tempo presente? Não conseguem, pois não? Pois, porque, na esfera do presente, o verbo "haver" tem apenas uma forma: "há". E não podem dizer "eu há" ou "tu há", pois não? Claro que não.
Porque o verbo haver é um verbo impessoal, não tem pessoa (pronome pessoal) nem tem número (singular ou plural).
Muitas pessoas acham que este é um erro óbvio, embora haja ainda muitos que o cometem (haja, verbo "haver" no conjuntivo, sem pessoa e sem número, vêem?). Mas quando nos deparamos com perífrases verbais, isto é, com formas verbais constituídas por mais do que um verbo, a coisa começa a complicar. É tão, mas tão comum cometer erros neste tipo de estruturas que até os podemos encontrar muitos frequentemente em meios de comunicação social.
Nunca viram frases do tipo "vão haver mais pessoas no desemprego"? Afinal, "vão" é uma forma do verbo "ir", que se conjuga perfeitamente com número e que, por isso, tem formas plurais. Pois, mas "vão" está aqui como auxiliar do verbo principal; e o verbo principal é, novamente, o verbo "haver". E, portanto, o auxiliar nunca pode ser conjugado no plural, pois o verbo principal é impessoal. Assim sendo, "vai haver mais pessoas no desemprego."
Não compliquem: se o verbo "haver" está por lá, o plural não pode estar.
"Houveram muitos erros", mas a partir de agora não vai haver mais, pois não?
Subscrever:
Mensagens (Atom)








