Já aqui falámos sobre o maior erro de todos, que é não dar importância à forma como se escreve. Depois há erros propriamente ditos, uns mais irritantes do que outros, dependendo da opinião dos falantes, claro.
Esta é a nossa opinião. De um ponto de vista técnico, não há erro pior, que soe pior, que retire mais credibilidade a alguém. Quando este erro é apanhado, a pessoa que o cometeu vai passar por alguém que andou pouco tempo na escola (se algum) ou que, no tempo em que lá esteve, não prestou grande atenção.
Sem mais demoras, ei-lo: ha-des. Além de constituir um valente pontapé na boa formação de palavras, esta... coisa (palavra não é certamente), mostra uma de duas coisas: ou um profundo desconhecimento sobre a formação de palavras em português, ou uma profunda falta de cuidado ao falar.
Talvez não seja difícil cometê-lo. É certamente mais complicado, de um ponto de vista fonético, dizer a sua versão correta, que, obviamente, é hás-de. Mas da mesma forma como todos nós, na infância, andámos insistentemente a treinar os "três tristes tigres", também podíamos tê-lo feito com "hás-de". "Hás-de". "Hás-de". "Hás-de". "Hás-de".
Se alguma vez cometeu este erro, repita "hás-de", pelo menos mil vezes, para nunca mais se voltar a enganar. Se comete de propósito, só porque é preguiçoso, pense que há alguém a ouvi-lo e, provavelmente, a insultá-lo mentalmente (ou a reagir da forma que se segue:)
Um bocadinho mais raro, mas ainda assim demasiado frequente, é a forma ha-dem, outro processo extraordinário de quem não gosta de se esforçar ou simplesmente de quem não aprender a falar a língua como deve ser. Em vez de hão-de, que não é nada, mas nada complicado de se dizer.
E, já agora, vamos só explicar: o verbo haver, tipicamente um verbo impessoal, em certas construções comporta-se como um verbo que se pode conjugar de acordo com o sujeito. Frases do tipo "havias de cá vir", em que o verbo haver é seguido da preposição "de". A frase aqui referida está no Pretérito Imperfeito, mas quando usada no Presente do Indicativo:
Eu hei-de
Tu hás-de (hás-de, hás-de, hás-de, hás-de)
Ele há-de
Nós havemos de
Vós haveis de
Eles hão-de (hão-de, hão-de, hão-de)
É importante também referir que, aqui, o verbo "haver" - seguido da preposição "de" - é um verbo auxiliar, sendo sempre seguido de um verbo principal.
E para quem continua a cometer este escabroso erro da língua portuguesa, lembrem-se: a língua é aquilo que os falantes falam, está em constante evolução. Quantos mais houver a dizer atrocidades como "ha-des" ou "ha-dem", maior é a probabilidade de virem a deixar de ser erros. E isso é das piores coisinhas que se pode fazer a uma língua tão bonita, tão rica, tão cheia de recursos como é a língua portuguesa, não é?
E já agora, devo dizer: Hades existe. É o nome de um deus grego. E escreve-se tudo junto e com maiúscula. E é o deus dos infernos. Infernos! Perceberam? Hades é dos infernos! Portanto não o digam.
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terça-feira, 31 de maio de 2016
segunda-feira, 16 de maio de 2016
9 - Meio-dia e meia / Meio-dia e meio
Hoje vamos sair um pouco do domínio da escrita e entrar, por breves momentos, na oralidade. Ora, em muitas e muitas conversas, as horas são um tema muito falado. E a hora 12h30 é muitas vezes referida na oralidade de forma errada.
Os falantes, quando pensam em meio-dia, pensam numa palavra do género masculino, porque a palavra "dia" é masculina e porque a palavra "meio" também parece ser. Mas, na verdade, não é. Vamos por partes.
A palavra meio pode pertencer a três classes de palavras distintas. Em primeiro lugar, pode ser um adjetivo, que pode significar "metade de" alguma coisa ou algo "médio, moderado" (segundo o Priberam). Quando é um adjetivo, meio é variável em género (há meio e há meia). E como um adjetivo surge sempre no escopo de um nome - que está a qualificar -, tem de concordar com género desse nome.
Também pode ser um nome, de género masculino, com vários significados possíveis (metade, o centro de alguma coisa, o modo para chegar a algum lado, etc).
E, finalmente, pode ser um advérbio, que significa "um pouco" ou "mais ou menos". Meio, enquanto advérbio, é uma palavra invariável, não tem género.
Portanto, meio tanto pode ser variável em género, como não ter género nenhum, como ser uma palavra do género masculino. É natural que confunda, sobretudo numa expressão em que surge duas vezes. E a pior parte é que, apesar de os adjetivos surgirem sempre no escopo de um nome, nem sempre esse nome está expresso na frase ou expressão. É precisamente o caso.
Meio-dia é um nome composto, do género masculino porque o nome "dia" é que é, por assim dizer, "dominante". Mas o "meio" que vem a seguir é um adjetivo. E este adjetivo não concorda com a palavra meio-dia, mas sim com aquilo a que meio-dia se refere: a hora. E a hora é um nome de género feminino. E os adjetivos concordam sempre com o nome, não é? Então, a expressão é meio-dia e meia hora. Ou, simplificando, meio-dia e meia.
Isto é válido quer para português europeu como português do Brasil.
Os falantes, quando pensam em meio-dia, pensam numa palavra do género masculino, porque a palavra "dia" é masculina e porque a palavra "meio" também parece ser. Mas, na verdade, não é. Vamos por partes.
A palavra meio pode pertencer a três classes de palavras distintas. Em primeiro lugar, pode ser um adjetivo, que pode significar "metade de" alguma coisa ou algo "médio, moderado" (segundo o Priberam). Quando é um adjetivo, meio é variável em género (há meio e há meia). E como um adjetivo surge sempre no escopo de um nome - que está a qualificar -, tem de concordar com género desse nome.
Também pode ser um nome, de género masculino, com vários significados possíveis (metade, o centro de alguma coisa, o modo para chegar a algum lado, etc).
E, finalmente, pode ser um advérbio, que significa "um pouco" ou "mais ou menos". Meio, enquanto advérbio, é uma palavra invariável, não tem género.
Portanto, meio tanto pode ser variável em género, como não ter género nenhum, como ser uma palavra do género masculino. É natural que confunda, sobretudo numa expressão em que surge duas vezes. E a pior parte é que, apesar de os adjetivos surgirem sempre no escopo de um nome, nem sempre esse nome está expresso na frase ou expressão. É precisamente o caso.
Meio-dia é um nome composto, do género masculino porque o nome "dia" é que é, por assim dizer, "dominante". Mas o "meio" que vem a seguir é um adjetivo. E este adjetivo não concorda com a palavra meio-dia, mas sim com aquilo a que meio-dia se refere: a hora. E a hora é um nome de género feminino. E os adjetivos concordam sempre com o nome, não é? Então, a expressão é meio-dia e meia hora. Ou, simplificando, meio-dia e meia.
Isto é válido quer para português europeu como português do Brasil.
segunda-feira, 21 de março de 2016
10 dicas para escrever bem, sem erros e de forma convincente
Quer candidatar-se a uma entrevista de emprego? É responsável por documentação na empresa onde trabalha? Escolheu uma carreira que o obriga a escrever muito (e bem)?
Pois bem, não terá outra hipótese que não a de ter muito cuidado e atenção com aquilo que escreve. O uso correto da língua é uma componente fundamental no meio profissional e um descuido pode arriscar a sua reputação. E se escrever faz mesmo parte do seu dia-a-dia, então não ter consciência sobre alguns aspetos linguísticos é um risco tremendo e, muito provavelmente, um erro.
1 - Não cometer erros ortográficos
Os erros ortográficos Os correctores ortográficos são uma ferramenta rápida, eficiente e extremamente útil.
2 - Pontuação, pontuação, pontuação
Nunca é demais insistir: a pontuação é absolutamente determinante para a leitura. Erros de pontuação podem alterar por completo a semântica de uma frase. Se há pausas, use a vírgula, sem medo.
Simplesmente, tenha o cuidado de não separar por vírgulas elementos da frase que não podem ser separados: sobretudo, nunca separe sujeito e o verbo por pontuação. Use-as, por exemplo, em enumerações, apostos (como "por exemplo" ou quaisquer outros constituintes que sirvam para classificar ou identificar o constituinte anterior), entre outros.
Não se esqueça do ponto final no fim de uma frase. Se esta for exclamativa ou tiver um teor mais emotivo, use o ponto de exclamação (!) e, por favor, não use pontos finais em perguntas. O ponto de interrogação (?) serve para alguma coisa e, francamente, não o utilizar é um hábito irritante.
Antes de um diálogo ou antes de apresentar uma enumeração, use os dois pontos (:).
3 - Não dizer dez palavras quando duas chegam
Às vezes temos a tendência para complicar e dizemos demasiadas palavras para exprimir uma ideia. A língua portuguesa é uma língua rica e dá-nos muitas ferramentas. Pare um pouco e pense se não há uma maneira mais simples de se expressar.
4 - Frases activas em vez de frases passivas
As frases passivas são úteis quando o sujeito é nulo. Mas têm um problema: alteram a ordem de palavras. Para se exprimir de forma eficiente, escreva de acordo com aquilo que é mais habitual para quem lê. Como já aqui referimos, a ordem de palavras habitual é S V O (Sujeito - Verbo - Objeto). Nas frases passivas, o constituinte que reconhecemos como sujeito passa para uma posição final da frase, tornando-a mais difícil de ler, porque não obedece à ordem habitual.
Além disso, nas frases passivas usamos obrigatoriamente uma perífrase verbal, isto é, o sintagma verbal é constituído por mais do que uma forma verbal. Portanto, em muitos casos, estaremos a usar palavras a mais para aquilo de que precisamos.
Afinal, para quê dizer "A escultura foi feita pelo João" se podemos simplesmente dizer "O João fez a escultura"?
5 - Frases afirmativas em vez de frases negativas
A menos que o propósito seja mesmo reforçar a negatividade ou a negação da verdade de uma proposição qualquer, use frases afirmativas. São sempre mais fáceis de ler e são mais assertivas (e, mais uma vez, à partida serão mais curtas do que frases que incluem uma negação).
6 - Não cometer erros gramaticais
De erros gramaticais temos falado desde que este blogue foi criado. Já percebemos que há erros mais graves do que outros, ou mais detetáveis do que outros. Este ponto não pode ser explanado aqui, porque a gramática tem uma dimensão quase infinita, e seria impossível apontar aqui todos os erros gramaticais passíveis de serem cometidos. Mas todos nós temos conhecimento da língua para detectar erros que tornem o texto menos fluido ou mais difícil de perceber. Quando assim é, é possível que haja alguns erros gramaticais. É uma questão de ter atenção e, claro, de ir lendo sempre que possível o Estudar a Língua, que o pode ajudar em muitas questões.
7 - Saber quando hifenizar
Se algum dia alguém lê um texto seu e apanha algo como "fize-mos", diga adeus à sua reputação: quem o leu vai achar que não sabe escrever português. A conjugação dos verbos dá-se no ensino primário. Se cometer erros de primária, vão achar que a sua formação acabou aí ou que, durante o resto da sua formação, andou a dormir em vez de aprender e de estar atento. O hífen serve para "integrar" certas formas pronominais numa forma verbal. Leia mais sobre isto aqui e aqui.
8 - Não complicar
Em alguns dos pontos anteriores já explorámos um pouco esta ideia. A simplicidade é a maior arma para a eficiência. Quando escrevemos, temos um dado leitor e uma dada mensagem. A mensagem que está na nossa mente tem de passar para palavras escritas. Isso nem sempre é fácil: por vezes não encontramos a palavra certa e acabamos por complicar com demasiadas explicações e "rodriguinhos". Os textos não precisam de muitos ornamentos: deixe isso para as grandes obras literárias. Os ornamentos servem para quem tem um domínio profundo da língua, mas não se deixe enganar: são poucos os que o têm, e mesmo esses, muitas vezes, preferem simplificar para passarem eficazmente a sua mensagem.
9 - Usar devidamente a acentuação
O português tem acentos. Quem não gosta, tem de se habituar. Se não acentuar as palavras como deve ser, vai passar por preguiçoso, porque não se deu ao trabalho de colocar o acento onde devia. Sublinhe-se: onde devia; não ponha acentos no sítio errado.
Lembre-se: há três tipos de acentuação em português. Há as palavras agudas, cuja sílaba tónica é a última (a-qui). Há as palavras graves, que são uma maioria, e cuja sílaba tónica é a penúltima (bo-la). E há, finalmente, as palavras esdrúxulas, cuja sílaba tónica é a antepenúltima (re-mé-di-o).
Estas últimas são menos frequentes e são quase sempre acentuadas, seja por acento agudo ( ´ ) ou por acento circunflexo ( ^ ).
Não existem palavras com dois acentos (a menos que um deles seja o sinal de anasalação, mais conhecido como til ( ~ )).
Há ainda o acento grave. O acento grave só se usa nas seguintes palavras: à, àquilo, àquele/a/es/as. Este acento surge apenas quando há uma contração da preposição a com os determinantes a, as, aquilo, aquele, aquela, aqueles e aquelas.
Dê lá por onde der, nunca confunda o acento agudo com o acento grave. Sobretudo, não confunda à com há. Isso demonstra, no mínimo, falta de concentração. Na pior das hipóteses, mais uma vez, pode fazer com que o seu leitor pense que não sabe escrever, porque é outra vez um erro primário e grave.
Se cumprir todas estas dicas, pode ter a certeza de que terá um produto final cuidado e credível. Não se esqueça: o Estudar a Língua está cá para esclarecer todas as dúvidas que possam surgir, sobretudo ao nível gramatical. E havemos de retomar este tema, para vos mostrar erros muito comuns na escrita que tem de evitar. Vemo-nos em breve!
Pois bem, não terá outra hipótese que não a de ter muito cuidado e atenção com aquilo que escreve. O uso correto da língua é uma componente fundamental no meio profissional e um descuido pode arriscar a sua reputação. E se escrever faz mesmo parte do seu dia-a-dia, então não ter consciência sobre alguns aspetos linguísticos é um risco tremendo e, muito provavelmente, um erro.
1 - Não cometer erros ortográficos
2 - Pontuação, pontuação, pontuação
Nunca é demais insistir: a pontuação é absolutamente determinante para a leitura. Erros de pontuação podem alterar por completo a semântica de uma frase. Se há pausas, use a vírgula, sem medo.
Simplesmente, tenha o cuidado de não separar por vírgulas elementos da frase que não podem ser separados: sobretudo, nunca separe sujeito e o verbo por pontuação. Use-as, por exemplo, em enumerações, apostos (como "por exemplo" ou quaisquer outros constituintes que sirvam para classificar ou identificar o constituinte anterior), entre outros.
Não se esqueça do ponto final no fim de uma frase. Se esta for exclamativa ou tiver um teor mais emotivo, use o ponto de exclamação (!) e, por favor, não use pontos finais em perguntas. O ponto de interrogação (?) serve para alguma coisa e, francamente, não o utilizar é um hábito irritante.
Antes de um diálogo ou antes de apresentar uma enumeração, use os dois pontos (:).
3 - Não dizer dez palavras quando duas chegam
Às vezes temos a tendência para complicar e dizemos demasiadas palavras para exprimir uma ideia. A língua portuguesa é uma língua rica e dá-nos muitas ferramentas. Pare um pouco e pense se não há uma maneira mais simples de se expressar.
4 - Frases activas em vez de frases passivas
As frases passivas são úteis quando o sujeito é nulo. Mas têm um problema: alteram a ordem de palavras. Para se exprimir de forma eficiente, escreva de acordo com aquilo que é mais habitual para quem lê. Como já aqui referimos, a ordem de palavras habitual é S V O (Sujeito - Verbo - Objeto). Nas frases passivas, o constituinte que reconhecemos como sujeito passa para uma posição final da frase, tornando-a mais difícil de ler, porque não obedece à ordem habitual.
Além disso, nas frases passivas usamos obrigatoriamente uma perífrase verbal, isto é, o sintagma verbal é constituído por mais do que uma forma verbal. Portanto, em muitos casos, estaremos a usar palavras a mais para aquilo de que precisamos.
Afinal, para quê dizer "A escultura foi feita pelo João" se podemos simplesmente dizer "O João fez a escultura"?
5 - Frases afirmativas em vez de frases negativas
A menos que o propósito seja mesmo reforçar a negatividade ou a negação da verdade de uma proposição qualquer, use frases afirmativas. São sempre mais fáceis de ler e são mais assertivas (e, mais uma vez, à partida serão mais curtas do que frases que incluem uma negação).
6 - Não cometer erros gramaticais
De erros gramaticais temos falado desde que este blogue foi criado. Já percebemos que há erros mais graves do que outros, ou mais detetáveis do que outros. Este ponto não pode ser explanado aqui, porque a gramática tem uma dimensão quase infinita, e seria impossível apontar aqui todos os erros gramaticais passíveis de serem cometidos. Mas todos nós temos conhecimento da língua para detectar erros que tornem o texto menos fluido ou mais difícil de perceber. Quando assim é, é possível que haja alguns erros gramaticais. É uma questão de ter atenção e, claro, de ir lendo sempre que possível o Estudar a Língua, que o pode ajudar em muitas questões.
7 - Saber quando hifenizar
Se algum dia alguém lê um texto seu e apanha algo como "fize-mos", diga adeus à sua reputação: quem o leu vai achar que não sabe escrever português. A conjugação dos verbos dá-se no ensino primário. Se cometer erros de primária, vão achar que a sua formação acabou aí ou que, durante o resto da sua formação, andou a dormir em vez de aprender e de estar atento. O hífen serve para "integrar" certas formas pronominais numa forma verbal. Leia mais sobre isto aqui e aqui.
8 - Não complicar
Em alguns dos pontos anteriores já explorámos um pouco esta ideia. A simplicidade é a maior arma para a eficiência. Quando escrevemos, temos um dado leitor e uma dada mensagem. A mensagem que está na nossa mente tem de passar para palavras escritas. Isso nem sempre é fácil: por vezes não encontramos a palavra certa e acabamos por complicar com demasiadas explicações e "rodriguinhos". Os textos não precisam de muitos ornamentos: deixe isso para as grandes obras literárias. Os ornamentos servem para quem tem um domínio profundo da língua, mas não se deixe enganar: são poucos os que o têm, e mesmo esses, muitas vezes, preferem simplificar para passarem eficazmente a sua mensagem.
9 - Usar devidamente a acentuação
O português tem acentos. Quem não gosta, tem de se habituar. Se não acentuar as palavras como deve ser, vai passar por preguiçoso, porque não se deu ao trabalho de colocar o acento onde devia. Sublinhe-se: onde devia; não ponha acentos no sítio errado.
Lembre-se: há três tipos de acentuação em português. Há as palavras agudas, cuja sílaba tónica é a última (a-qui). Há as palavras graves, que são uma maioria, e cuja sílaba tónica é a penúltima (bo-la). E há, finalmente, as palavras esdrúxulas, cuja sílaba tónica é a antepenúltima (re-mé-di-o).
Estas últimas são menos frequentes e são quase sempre acentuadas, seja por acento agudo ( ´ ) ou por acento circunflexo ( ^ ).
Não existem palavras com dois acentos (a menos que um deles seja o sinal de anasalação, mais conhecido como til ( ~ )).
Há ainda o acento grave. O acento grave só se usa nas seguintes palavras: à, àquilo, àquele/a/es/as. Este acento surge apenas quando há uma contração da preposição a com os determinantes a, as, aquilo, aquele, aquela, aqueles e aquelas.
Dê lá por onde der, nunca confunda o acento agudo com o acento grave. Sobretudo, não confunda à com há. Isso demonstra, no mínimo, falta de concentração. Na pior das hipóteses, mais uma vez, pode fazer com que o seu leitor pense que não sabe escrever, porque é outra vez um erro primário e grave.
10 - Fazer uma revisão
Pode perder algum tempo, mas é um trabalho muito valioso. É subvalorizado, porque as pessoas andam sempre com pressa, sobretudo no meio profissional, mas uma boa revisão pode fazer a diferença.
Às vezes cometemos erros irrelevantes, pequenas gralhas. Basta clicarmos na tecla ao lado daquela em que queremos mesmo carregar. Uma revisão permite-nos corrigir estes e outros erros e permite-nos perceber se em algum ponto do texto nos perdemos numa frase demasiado longa ou que ficou incompleta.
A verdade é que o processo de revisão é quase tão importante como o da escrita, porque é da revisão que deve sair o produto final.
Se cumprir todas estas dicas, pode ter a certeza de que terá um produto final cuidado e credível. Não se esqueça: o Estudar a Língua está cá para esclarecer todas as dúvidas que possam surgir, sobretudo ao nível gramatical. E havemos de retomar este tema, para vos mostrar erros muito comuns na escrita que tem de evitar. Vemo-nos em breve!
sexta-feira, 11 de março de 2016
Tratam-se de muitos disparates...
Hoje vamos tratar de desconstruir... algumas construções impessoais. Como vimos recentemente (aqui e aqui), o português é uma língua com predomínio sintático do sujeito, na medida em que é ele que determina a concordância verbal.
Exceto nas construções sem sujeito, também denominadas por construções impessoais. E como sempre, estas trazem alguns problemas, algumas complicações e, infelizmente, muitos erros. Já falámos do maior deles todos, relacionado com o verbo haver.
Recapitulando esse tema, o verbo haver, por ser impessoal, nunca pode ser conjugado no plural, porque os verbos só podem estar no plural se concordarem com um sujeito igualmente plural. Ora, se não há sujeito (ou se o sujeito é impessoal), não pode haver plural. O verbo haver, no seu uso tradicional, tem apenas uma conjugação possível para o Presente (há), para o Pretérito Perfeito (houve), ou para o Imperfeito (havia).
"Tratam-se"de coisas nenhumas
Isto serve para outras expressões, mesmo que envolvam verbos que normalmente se conjugam com sujeitos. Uma delas, e que induz em erro muitos falantes constantemente, é a expressão "tratar-se de".
Claro que é possível dizer frases do tipo "A Maria trata do filho" (singular)" tal como podemos dizer "Os irmãos trataram do pai" (plural). Mas nesta frase há sujeitos (A Maria e Os irmãos). Quando usamos "trata-se de", não há sujeito à esquerda do verbo.
O sujeito é, pois, indeterminado, estando o verbo na terceira pessoa do singular (que, por assim dizer, é neutra). Sublinho: terceira pessoa do singular. Sempre. Significa isto que nunca há "tratam-se de", por muito que o que vem a seguir tenha sentido plural.
- Trata-se de um negócio de muitos milhões de euros.
- Trata-se de negócios de muitos milhões de euros.
- *Tratam-se de negócios de muitos milhões de euros.
Há uma explicação para isto? Talvez... A frase não tem um sujeito gramatical, mas, uma vez mais, o português é uma língua em que o sujeito gramatical tem uma profunda importância sintática na frase. E, tal como existem construções com sujeito à direita do verbo - e com concordância entre verbo e sujeito (como em Chegaram pessoas.) -, é possível que alguns falantes assumam a expressão nominal de sentido plural a seguir ao trata-se de como o sujeito lógico da frase. E daí fazerem a concordância com o verbo.
O português, devo dizer, permite outros tipos de construções impessoais. Mas isso fica para depois...
Exceto nas construções sem sujeito, também denominadas por construções impessoais. E como sempre, estas trazem alguns problemas, algumas complicações e, infelizmente, muitos erros. Já falámos do maior deles todos, relacionado com o verbo haver.
Recapitulando esse tema, o verbo haver, por ser impessoal, nunca pode ser conjugado no plural, porque os verbos só podem estar no plural se concordarem com um sujeito igualmente plural. Ora, se não há sujeito (ou se o sujeito é impessoal), não pode haver plural. O verbo haver, no seu uso tradicional, tem apenas uma conjugação possível para o Presente (há), para o Pretérito Perfeito (houve), ou para o Imperfeito (havia).
"Tratam-se"de coisas nenhumas
Isto serve para outras expressões, mesmo que envolvam verbos que normalmente se conjugam com sujeitos. Uma delas, e que induz em erro muitos falantes constantemente, é a expressão "tratar-se de".
Claro que é possível dizer frases do tipo "A Maria trata do filho" (singular)" tal como podemos dizer "Os irmãos trataram do pai" (plural). Mas nesta frase há sujeitos (A Maria e Os irmãos). Quando usamos "trata-se de", não há sujeito à esquerda do verbo.
O sujeito é, pois, indeterminado, estando o verbo na terceira pessoa do singular (que, por assim dizer, é neutra). Sublinho: terceira pessoa do singular. Sempre. Significa isto que nunca há "tratam-se de", por muito que o que vem a seguir tenha sentido plural.
- Trata-se de um negócio de muitos milhões de euros.
- Trata-se de negócios de muitos milhões de euros.
- *Tratam-se de negócios de muitos milhões de euros.
Há uma explicação para isto? Talvez... A frase não tem um sujeito gramatical, mas, uma vez mais, o português é uma língua em que o sujeito gramatical tem uma profunda importância sintática na frase. E, tal como existem construções com sujeito à direita do verbo - e com concordância entre verbo e sujeito (como em Chegaram pessoas.) -, é possível que alguns falantes assumam a expressão nominal de sentido plural a seguir ao trata-se de como o sujeito lógico da frase. E daí fazerem a concordância com o verbo.
O português, devo dizer, permite outros tipos de construções impessoais. Mas isso fica para depois...
terça-feira, 8 de março de 2016
Que são estes verbos no plural?
Hoje vamos continuar a estudar questões problemáticas sobre concordância verbal. Na semana passada vimos que a concordância verbal se faz entre o sujeito e o verbo, porque o português é uma língua cuja sintaxe é dominada pelo sujeito - mesmo quando o sujeito é nulo (ou seja, quando não é expresso foneticamente).
Hoje vamos perceber que há certos casos em que isso não acontece. Para isso temos de recuar um pouco até às funções sintáticas. Já falámos no sujeito, que é o argumento externo, e no predicado e nos seus argumentos internos, que tanto podem ser objeto direto, indireto ou complemento oblíquo (quando é iniciado por preposições).
Ora, quando temos verbos do tipo ser, parecer, continuar, estar, ficar, etc., o argumento interno do verbo chama-se o predicativo do sujeito, porque está a conferir uma propriedade qualquer ao sujeito. Seja lá o que for, se estiver precedido do verbo ser, está a predicar o sujeito de alguma coisa.
- Os alunos são inteligentes.
- Eles parecem boas pessoas.
Uma nota: o predicativo do sujeito não aparece apenas com o verbo ser; mas o verbo ser seleciona sempre um predicativo do sujeito.
Então, há alguns casos em que, com o verbo ser, a concordância não se faz com o sujeito, mas sim com o predicativo do sujeito.
1 - Se o sujeito for aquilo, isto, nada, tudo, geralmente seguido de uma oração relativa restritiva.
- Aquilo que sempre quiseste foram férias na praia.
- Aquilo que sempre quiseste foi um cão.
2 - Em frases interrogativas, começadas por pronomes interrogativos como quem ou que.
- Quem são estas pessoas?
3 - Se o sujeito não se referir a pessoas, a concordância pode ser feita com o predicativo do sujeito:
- O meu orgulho são os meus filhos.
[Reparem na agramaticalidade na concordância com o sujeito:
*O meu orgulho é os meus filhos.]
4 - Com nomes de sentido coletivo.
- A maioria são mulheres.
[Novamente:
*A maioria é mulheres.
Sobre esta frase, claro que é possível reestruturar esta frase de modo a ter concordância com o sujeito, até porque a expressão a maioria é tipicamente conjugada no singular, como já vimos noutro post, mas aí já não é bem o predicativo do sujeito. Veja-se:
- A maioria é composta por mulheres]
Tudo uma questão de medida
5 - Ainda no escopo do verbo ser, lembram-se de vos ter dito (no mesmo post no link imediatamente acima) que se o sujeito indicar uma quantidade ou uma medida, é essa medida que determina se o verbo está conjugado no plural ou no singular? Pois, como é costume, há uma exceção de que não falámos na altura.
Então, o exemplo que dei nesse post foi:
- Um litro de leite custa 1 euro.
- Dois litros de leite custam 1 euro.
No entanto, a concordância não se faz com o sujeito se a seguir ao verbo estiverem expressões como muito, pouco, menos de, mais de, etc, porque, de uma maneira geral, esses advérbios de quantidade funcionam como predicativo do sujeito.
- Dois quilos de farinha é muito/pouco/demais.
Hoje vamos perceber que há certos casos em que isso não acontece. Para isso temos de recuar um pouco até às funções sintáticas. Já falámos no sujeito, que é o argumento externo, e no predicado e nos seus argumentos internos, que tanto podem ser objeto direto, indireto ou complemento oblíquo (quando é iniciado por preposições).
Ora, quando temos verbos do tipo ser, parecer, continuar, estar, ficar, etc., o argumento interno do verbo chama-se o predicativo do sujeito, porque está a conferir uma propriedade qualquer ao sujeito. Seja lá o que for, se estiver precedido do verbo ser, está a predicar o sujeito de alguma coisa.
- Os alunos são inteligentes.
- Eles parecem boas pessoas.
Uma nota: o predicativo do sujeito não aparece apenas com o verbo ser; mas o verbo ser seleciona sempre um predicativo do sujeito.
Então, há alguns casos em que, com o verbo ser, a concordância não se faz com o sujeito, mas sim com o predicativo do sujeito.
1 - Se o sujeito for aquilo, isto, nada, tudo, geralmente seguido de uma oração relativa restritiva.
- Aquilo que sempre quiseste foram férias na praia.
- Aquilo que sempre quiseste foi um cão.
2 - Em frases interrogativas, começadas por pronomes interrogativos como quem ou que.
- Quem são estas pessoas?
3 - Se o sujeito não se referir a pessoas, a concordância pode ser feita com o predicativo do sujeito:
- O meu orgulho são os meus filhos.
[Reparem na agramaticalidade na concordância com o sujeito:
*O meu orgulho é os meus filhos.]
4 - Com nomes de sentido coletivo.
- A maioria são mulheres.
[Novamente:
*A maioria é mulheres.
Sobre esta frase, claro que é possível reestruturar esta frase de modo a ter concordância com o sujeito, até porque a expressão a maioria é tipicamente conjugada no singular, como já vimos noutro post, mas aí já não é bem o predicativo do sujeito. Veja-se:
- A maioria é composta por mulheres]
Tudo uma questão de medida
5 - Ainda no escopo do verbo ser, lembram-se de vos ter dito (no mesmo post no link imediatamente acima) que se o sujeito indicar uma quantidade ou uma medida, é essa medida que determina se o verbo está conjugado no plural ou no singular? Pois, como é costume, há uma exceção de que não falámos na altura.
Então, o exemplo que dei nesse post foi:
- Um litro de leite custa 1 euro.
- Dois litros de leite custam 1 euro.
No entanto, a concordância não se faz com o sujeito se a seguir ao verbo estiverem expressões como muito, pouco, menos de, mais de, etc, porque, de uma maneira geral, esses advérbios de quantidade funcionam como predicativo do sujeito.
- Dois quilos de farinha é muito/pouco/demais.
quinta-feira, 3 de março de 2016
Sondagem sobre o Acordo Ortográfico: a favor ou contra?
terça-feira, 1 de março de 2016
Maria Helena Mateus: "Unificação ortográfica não tem como finalidade diminuir diferenças entre PE e PB"
Maria Helena Mira Mateus, professora catedrática jubilada pela Universidade de Lisboa, é um dos nomes de referência da linguística em Portugal. Coautora da Gramática da Língua Portuguesa (2003), dá agora continuidade ao ciclo de entrevistas do Estudar a Língua, abordando um dos assuntos mais discutidos nos últimos anos: o Acordo Ortográfico. E chama ainda a atenção para aspetos fundamentais da língua que são "descuidados" nos programas de ensino.
![]() |
| Foto: Ciberdúvidas |
O Ministério da Educação do Brasil está a
estudar medidas para retirar a literatura portuguesa do ensino. Que
consequências a longo prazo poderiam ter tais medidas para a língua portuguesa
e para uma maior unicidade da língua entre Portugal e o Brasil?
Não
vejo que manter ou retirar o caráter obrigatório do ensino da literatura
portuguesa tenha qualquer influência na manutenção das diferenças existentes
entre as variedades do português europeu e do português brasileiro. O uso
quotidiano da língua ultrapassa imensamente a influência que pode advir do
conhecimento de textos literários. É evidente por outro lado que, ao retirar do
ensino a obrigação de incluir alguns módulos sobre a literatura portuguesa, se
diminui o já pouco conhecimento que existe no Brasil sobre épocas e
características dessa literatura, ficando entregue aos professores a decisão de
ensinarem aspetos desse tema de acordo com os seus interesses pessoais. Tendo
em conta que o ensino de autores portugueses não tem apenas como objetivo discutir
aspetos linguísticos, penso que se deve fazer sobressair neste ensino os
aspetos culturais que a literatura sempre transmite. Julgo também necessário
que se dê lugar a outras variedades do português como as variedades faladas em
África, por exemplo. E por fim acho fundamental que a literatura produzida em
língua portuguesa, de qualquer das variedades, seja objeto de meios de
comunicação e de formas de apresentação ao público estimulantes e
esclarecedoras.
Estaremos a caminhar para uma divisão, além da já existente divisão dialectal,
entre o português do Brasil e o português europeu? Há algum papel do AO nesse
caminho?
A
preocupação do AO em unificar a escrita entre as variedades da língua
portuguesa tem um objetivo relevante para a expansão do livro e de outros meios
em que a grafia da língua seja necessária, e tem uma concretização económica
não despicienda. Trata-se apenas de uma unificação ortográfica que não tem como
finalidade diminuir as diferenças entre português brasileiro e português
europeu (ou entre outras formas de falar português nos países que pertencem à
CPLP), diferenças que são evidentes na oralidade da língua. A manutenção das
variedades no âmbito de uma certa língua (como o português, o inglês, o francês
ou outras línguas que foram “exportadas” no processo de colonização) é uma opção política e representa para os cidadãos
de vários países o interesse de estarem integrados numa vasta área que tem em
comum a língua em que falam e em que escrevem. É evidente, por outro lado, que
estas variedades exibem, no plano interno de cada uma, algumas diferenças que
correspondem a grupos geográficos ou sociais e que se denominam dialetos, o que
só reforça o conceito de que a variação das línguas é universal e se processa
no tempo, resultando de vários fatores, sobretudo do contacto entre línguas.
Falando do AO, já se cumpriram seis anos desde a sua implementação, mas muitos
falantes ainda não o aceitaram. Há consequências possíveis para a língua (como
por exemplo, haver ortografias diferentes entre diferentes facções da
sociedade)?
As
diferenças que vão alterando uma língua em consequência da sua utilização pelos
falantes só em casos muito excecionais estão relacionadas com mudanças da
grafia. A ortografia de uma língua é estabelecida de forma convencional e
representa a normalização da escrita; é decidida geralmente no seio das
academias de letras ou de ciências e não altera a pronúncia; é portanto sempre secundária em relação à
oralidade. Na língua portuguesa, uma das primeiras reformas ortográficas data
de 1911. Foi com esta reforma que se decidiu suprimir o <h> que se
associava a consoantes em certas palavras como “pharmacia" representando
uma aspiração que já não era sentida na língua oral. O primeiro acordo
ortográfico entre Portugal e Brasil data de 1931 e aí se propunha a eliminação
das consoantes “mudas” que fazem parte do novo acordo de 1990. Tendo presente o
caráter convencional da ortografia, ela tem possibilidade de integrar alterações
que correspondem a mudanças da língua provocadas pelo uso. Evidentemente, não
se trata de transmitir a intervalos breves as alterações que se manifestam na
oralidade e por isso a ortografia mantém sempre um caráter conservador. Quando
as entidades próprias consideram que existem suficientes razões para se
alterarem certos aspetos obsoletos de uma ortografia, a mudança deve ser
transmitida na escola e na documentação oficial, e passar a integrar a norma.
Na escrita individual, sem caráter oficial ou escolar a ortografia antiga pode
ser mantida sem consequências visto que as mudanças não alteram a pronúncia da
língua.
"Sintaxe e semântica são muito descuidadas na
escola"
Como vê a situação da linguística no ensino da língua e que soluções propõe
para termos uma sociedade mais “atraída” para as questões da língua?
Ao
contrário do que se julga, as pessoas são atraídas pelas questões da língua, e
preocupam-se sobretudo com as pronúncias “corretas” e com as normas de dialetos
ou de variedades, exercendo sempre juízos de valor e até julgamentos morais. O
que afasta as pessoas é a coincidência entre o estudo da língua e os estudos
teóricos ou científicos, ou até
simplesmente gramaticais, desligados da aplicação prática. Há poucos estudos sobre
as infrações na sintaxe ou na semântica que sirvam para demonstrar que essas
infrações têm consequências graves, perigosas ou simplesmente risíveis. E no
entanto, essas áreas são muito descuidadas na escola em benefício dos “erros
ortográficos” porque estes são o que mais facilmente se pode corrigir sem
possibilidade de discussão.
Maria Helena Mateus escreveu recentemente um artigo sobre o Acordo Ortográfico no jornal Público. Podem lê-lo aqui.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
Entrevista a Ana Maria Brito: "Jovens não tiram proveito dos recursos da língua"
Ana Maria Brito é professora catedrática na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e coautora da Gramática da Língua Portuguesa (2003) e é a primeira convidada do Estudar a Língua para iniciar um ciclo de entrevistas que o Estudar a Língua vai fazer a diversos especialistas da língua portuguesa. Nesta entrevista, falamos das diversas variedades do português e ainda abordamos a importância da sintaxe, área de especialização da autora.
Fala-se muito
nas diferenças entre o português do Brasil e o português europeu. Pode apontar
as principais?
A maior variação é no sistema fonológico, naquilo que se
chama vulgarmente a “pronúncia”. O sistema vocálico é mais reduzido e mais
aberto. No plano lexical há também diferenças que têm a ver quer com novas
palavras (muitos empréstimos de origem inglesa entraram facilmente na língua
(”xerox”, fotocópia) quer com as mesmas palavras com um sentido novo, como
“terno” (fato), “ónibus” (autocarro), “café da manhã” (pequeno almoço), quer
com empréstimos de origem tupi (“abacaxi”) e africana (“sanzala”).
Do ponto de vista morfossintático e sintático, uma das
principais diferenças face ao PE relaciona-se com o sistema pronominal e com a
concordância sujeito – verbo e com a flexão verbal. À parte uma zona no Sul que
conserva ainda o “tu” como forma de tratamento do interlocutor, o PB usa
predominantemente “você” e “vocês”, levando o verbo a tomar formas de terceira
pessoa do singular e do plural: “você sabe…” “vocês sabiam…”. Também “nós” é
muitas vezes substituído por “a gente”, igualmente justificando uma forma de 3ª
pessoa do singular (“a gente sabe”). Como resultado, os paradigmas verbais são
mais reduzidos do que no PE. Claro que, como o país é extenso e complexo,
existe enorme variação quer do ponto de vista dialectal quer e principalmente
do ponto de vista social; por isso, quando falamos em variação em relação ao
PE, estamos a falar sobretudo de um PB vernáculo e oral, das classes mais
desfavorecidas, que coexiste com um PB culto, que é o das classes escolarizadas
e socialmente mais elevadas.
Outras diferenças dignas de nota: a diferente colocação dos
pronomes átonos ou clíticos, com predomínio da próclise (“me diga uma coisa”); o
uso de formas fortes dos pronomes em vez de formas átonas, como em “eu vi ele”
em vez de “eu vi-o”; a produtividade do gerúndio nas formas progressivas
(“estou vendo”), o uso de “ter” como verbo existencial (“tem gente aqui….”), o
uso de formas possessivas isoladas, sem artigo definido, como em “minha
carteira”, em vez de “a minha carteira”; também a redução na concordância nas
expressões nominais é digna de nota: é frequente ouvir-se “os menino”, em que a
marca de plural está reduzida ao artigo e não surge no nome.
Muitos falantes nativos de português do Brasil “queixam-se”
de perceberem mal o português europeu. Isto tem que ver com uma diferente
evolução da língua nos dois países?
Sim, claro; por várias razões que estão relacionadas com a
forma como a língua portuguesa foi deslocada para o Brasil, com o contacto de
línguas a que o Português foi exposto na colonização (quer com línguas índias
quer com línguas africanas, quer mais tarde com línguas de emigrantes de várias
nacionalidades, italianos, alemães, árabes, etc), o sistema fonológico foi
muito alterado e uma das principais é a maior abertura das vogais e o
desaparecimento de uma regra muito importante no PE que é a do vocalismo átono.
No PE uma vogal não acentuada é fechada como em “morar”, pronunciada como
“murar”; ora no Brasil a pronúncia é com o “o” semiaberto: “morar”. Por isso os
falantes do PB por vezes não entendem muito bem falantes do PE, porque vão
ouvir mutas vogais fechadas e muitos grupos consonânticos como “pn” (“pneu”)
que um PB pronuncia como “peneu”.
E quanto às
restantes variedades do português?
Em África estamos a assistir também à emergência de
variedades nacionais, o PM e o PA, em particular, embora ainda não de forma tão
estável como o PB. O Português está nesses países em situação de forte contacto
de línguas, é língua não materna para grande parte das populações, embora haja
grandes diferenças entre cidade / campo, entre jovem / idoso, entre falante
escolarizado / não escolarizado, mesmo entre homem / mulher. Os recenseamentos
realizados nesses países mostram dados mais ou menos seguros sobre tudo isso e
revelam também que o Português está a aumentar o número de falantes como L2, sendo
claramente uma língua de prestígio.
Mas o Português está a mudar nesses países: além da parte
vocabular, com muitos empréstimos das línguas Bantu e da parte fonológica, há
também algumas diferenças morfossintáticas e sintáticas. No PA por exemplo, a
construção ditransitiva tende a ser realizada com a preposição “em”: “dar na
mãe uma prenda”; no PM, tal construção tende a perder a preposição: “dar a mãe
uma prenda”. Em ambos os países nota-se um predomínio da preposição “em” usada
mesmo com verbos de movimento e de deslocação: “chegar no mercado”, em vez de
“chegar ao mercado”. No PM, está já registado e estudado um fenómeno de
“dequeísmo” e paraquísmo” nas orações integrantes: “ eu vi de que ele chegou
tarde”; “eu disse para que ele visse”.
Dada a situação de relativa instabilidade do Português em
Angola e Moçambique é portanto de prever que mudanças continuem a operar na
língua.
Centremo-nos
no português de Portugal. Existe alguma diferença gramatical profunda entre
dialectos?
Portugal é um país bastante uniforme do ponto de vista da
gramática da língua, que se relaciona com o facto de a língua se ter
estabilizado há mais de oito séculos num território pequeno e que mantém as
suas fronteiras. Mas há variação dialectal forte mais uma vez no plano fonético
e fonológico, existindo os chamados dialectos setentrionais e os
centro-meridionais, além dos dialectos insulares. No plano morfossintático e
sintático existem alguns fenómenos interessantes, sobretudo quando estão em
jogo falantes mais idosos, menos escolarizados e mais afastados dos centros
urbanos: assim, há que registar o uso do gerúndio no Alentejo e Algarve nas
construções progressivas (“estou vendo”) o uso de “ter” existencial,
curiosamente dois fenómenos que reencontramos no PB; no Alentejo pode ainda
hoje ouvir-se por falantes mais velhos e menos escolarizados um gerúndio
flexionado (“em (tu) estandes pronto”….).
"Há que dar mais atenção à parte gramatical no ensino"
É
sintaticista. O que pode dizer a um leigo sobre a preponderância da sintaxe
para o uso correcto da língua?
A sintaxe é a base da gramática, é o “esqueleto” da língua…
São as regras sintáticas que orientam a formação de frases simples e complexas,
no que respeita à ordem de palavras, à concordância, à selecção entre palavras,
às relações anafóricas, etc. Por isso, um bom domínio da sintaxe da língua é
essencial para falar e escrever bem, com clareza e objetividade, para
argumentar no discurso, para convencer o nosso interlocutor acerca de
determinada ideia ou conteúdo.
Embora eu não seja pessimista no que respeita ao uso da
língua pelas jovens gerações e veja com bons olhos o acesso que grande parte da
população tem em relação à língua e às suas manifestações, quer pelo acesso à
televisão, à rádio e principalmente às novas tecnologias de informação, não há
dúvida de que muitos dos nossos jovens usam por vezes uma sintaxe pobre nas
suas produções linguísticas e não tiram proveito dos inúmeros recursos da
gramática da língua portuguesa. Há que dar mais atenção à parte gramatical e
sintática da língua no ensino e não abandonar a reflexão gramatical nos níveis
mais avançados, como se faz atualmnete no ensino secundário, no pressuposto de
que os alunos já sabem o essencial de gramática. Isso não é verdade, por
variadíssimas razões, e por isso sou a favor de um ensino de Português que dê
grande espaço à reflexão gramatical.
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