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terça-feira, 8 de março de 2016

Que são estes verbos no plural?

Hoje vamos continuar a estudar questões problemáticas sobre concordância verbal. Na semana passada vimos que a concordância verbal se faz entre o sujeito e o verbo, porque o português é uma língua cuja sintaxe é dominada pelo sujeito - mesmo quando o sujeito é nulo (ou seja, quando não é expresso foneticamente).

Hoje vamos perceber que há certos casos em que isso não acontece. Para isso temos de recuar um pouco até às funções sintáticas. Já falámos no sujeito, que é o argumento externo, e no predicado e nos seus argumentos internos, que tanto podem ser objeto direto, indireto ou complemento oblíquo (quando é iniciado por preposições).

Ora, quando temos verbos do tipo ser, parecer, continuar, estar, ficar, etc., o argumento interno do verbo chama-se o predicativo do sujeito, porque está a conferir uma propriedade qualquer ao sujeito. Seja lá o que for, se estiver precedido do verbo ser, está a predicar o sujeito de alguma coisa.

- Os alunos são inteligentes.
- Eles parecem boas pessoas

Uma nota: o predicativo do sujeito não aparece apenas com o verbo ser; mas o verbo ser seleciona sempre um predicativo do sujeito. 

Então, há alguns casos em que, com o verbo ser, a concordância não se faz com o sujeito, mas sim com o predicativo do sujeito.

1 - Se o sujeito for aquilo, isto, nada, tudo, geralmente seguido de uma oração relativa restritiva.

- Aquilo que sempre quiseste foram férias na praia.
- Aquilo que sempre quiseste foi um cão.

2 - Em frases interrogativas, começadas por pronomes interrogativos como quem ou que.

- Quem são estas pessoas?

3 - Se o sujeito não se referir a pessoas, a concordância pode ser feita com o predicativo do sujeito: 

- O meu orgulho são os meus filhos.
[Reparem na agramaticalidade na concordância com o sujeito: 
*O meu orgulho é os meus filhos.]

4 - Com nomes de sentido coletivo.

- A maioria são mulheres
[Novamente:
*A maioria é mulheres.
Sobre esta frase, claro que é possível reestruturar esta frase de modo a ter concordância com o sujeito, até porque a expressão a maioria é tipicamente conjugada no singular, como já vimos noutro post, mas aí já não é bem o predicativo do sujeito. Veja-se:
- A maioria é composta por mulheres]

Tudo uma questão de medida

5 - Ainda no escopo do verbo ser, lembram-se de vos ter dito (no mesmo post no link imediatamente acima) que se o sujeito indicar uma quantidade ou uma medida, é essa medida que determina se o verbo está conjugado no plural ou no singular? Pois, como é costume, há uma exceção de que não falámos na altura.

Então, o exemplo que dei nesse post foi:

- Um litro de leite custa 1 euro.
- Dois litros de leite custam 1 euro. 

No entanto, a concordância não se faz com o sujeito se a seguir ao verbo estiverem expressões como muito, pouco, menos de, mais de, etc, porque, de uma maneira geral, esses advérbios de quantidade funcionam como predicativo do sujeito.

- Dois quilos de farinha é muito/pouco/demais.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Português à moda do Yoda, isto é.

- A Maria comeu a maçã.
- *A maçã a Maria comeu.

Qual destas vos parece correta? A primeira, não? Há uma razão: a ordem de palavras do português. Para explicar mais sobre a ordem de palavras é preciso compreender a base da sintaxe, i.e., as relações gramaticais.

Ora, diz a Gramática da Língua Portuguesa (2003) que uma oração/frase tem como domínio uma predicação; e que a predicação é constituída, tipicamente, por dois constituintes: o predicado e o sujeito. No predicado incluem-se "o predicador" e os seus argumentos internos. O sujeito é o argumento externo do predicado. No português, a maioria dos predicados são verbais, mas não se pense que o predicado é o verbo apenas.

Um predicado verbal é constituído pelo verbo, sim, mas também pelos seus argumentos ou complementos.

- A Maria [SU] deu uma maçã [OD] à filha [OI].

Adiante. Diz a mesma Gramática que o português "é uma língua de proeminência de sujeito". O que é que isto quer dizer? Quer dizer que, de um ponto de vista gramatical, é o sujeito que determina a concordância verbal. Veja-se:

- A Maria comeu maçãs. (SU na 3ª pessoa do singular, verbo conjugado na 3ª pessoa do singular - gramatical)
- *A Maria comeram maçãs. (SU na 3ª pessoa do singular, verbo conjugado na 3ª pessoa do plural, a concordar com o objeto direto - agramatical)

Por estas razões, em português, em frases declarativas, o sujeito surge tipicamente na "primeira posição argumental" da frase. Segue-se, então, o predicado. E aqui temos a ordem de palavras básica da nossa língua:

S V O [Sujeito - Verbo - Objeto]

No entanto, é perfeitamente possível dizer algo como:

- Comi sushi ao jantar.

Onde está o sujeito? Simples. O sujeito está na sua posição natural, à esquerda do predicado. É possível percebermos isso porque o verbo está conjugado de forma a concordar com o sujeito, na 1ª pessoa do singular. O sujeito é o pronome "eu", simplesmente é nulo foneticamente. O português é, então, uma língua sintaticamente dominada pelo sujeito, mas que permite sujeitos nulos - algo que não é possível, por exemplo, em inglês. Significa que, mesmo que o sujeito não apareça na frase, a sua posição sintática está sempre representada.

Quando S V O não é S V O

Como é habitual, a língua portuguesa enche-nos de exceções e de casos em que a ordem básica não se aplica.

Tipicamente, refere ainda a Gramática da Língua Portuguesa, "à estrutura sintáctica sujeito-predicado corresponde a estrutura temática tópico-comentário". Assim, numa frase como "A Maria comeu uma maçã", A Maria é sujeito e tópico; comeu uma maçã é o predicado e o comentário acerca da Maria. De um ponto de vista semântico, chamamos a este tipo de frases predicações, porque estamos a fazer um "juízo categórico" sobre alguma coisa (e essa alguma coisa é o constituinte representado pelo sujeito).

Quando o sujeito e o tópico correspondem, estamos a falar de tópicos não-marcados. Com topicalização não-marcada, o padrão de ordem de palavras é S V O (os exemplos doravante apresentados são retirados da Gramática da Língua Portuguesa).

- A que é que todos os alunos reagiram mal?
  Todos os alunos [TOP/SU] reagiram mal ao teste.

Mas nem sempre há uma correspondência entre tópico e sujeito. Quando assim é, falamos de tópicos marcados e estes sim, podem causar uma alteração na ordem de palavras.

- A quem é que o Pedro ofereceu esse livro?
  Esse livro [TOP], o Pedro [SU] ofereceu(-o) à Ana.*

Nesta frase, temos uma ordem O S V O (o segundo objeto, à direita do verbo, deve-se ao facto de o verbo oferecer ter dois argumentos - oferecer o quê [OD] a quem [OI]).

Mesmo sem questões de topicalização, o português também permite uma ordem V O S, em frases do tipo:

- Quem comeu o bolo?
  Comeu-o o João [SU].

O exemplo que inicia este post pode entrar nesta categoria, se considerarmos a maçã como tópico e a Maria como sujeito (no entanto, sem pontuação, essa leitura pode ser altamente ambígua).

- A Maria [TOP/SU] comeu a maçã.
- A maçã [TOP], a Maria [SU] comeu(-a).

Há ainda outros contextos a considerar. Quando a frase "apresenta informação nova no contexto das perguntas", mesmo sem topicalização, é possível ter diferentes padrões de ordens de palavras.

Quando temos verbos inacusativos, que são verbos que não têm argumentos internos, podemos ter a ordem V S.

- O que aconteceu?
  Chegaram os meus sobrinhos.

As ordens V S O e V [O] S também são possíveis.

- Quem comeu o quê?
  Comeram os miúdos o bolo.
- Quem comeu o bolo?
  Comeram [o bolo] os miúdos.

Esta pequena lição à moda do Yoda (para quem não sabe, é a personagem do Star Wars que fala quase sempre com a ordem V S O, que, diga-se, não é a ordem de palavras básica do inglês) terá continuidade nos próximos dias, já que da ordem de palavras ainda derivam mais alguns problemas nos falantes. Fiquem atentos.





terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Não, a gente não vamos...

Hoje trago-vos um assunto bem mais problemático do que possa parecer: a concordância entre o sujeito e o verbo. Todos se lembram do que é o sujeito, certo? O sujeito é o argumento da frase que, no fundo, tem a "função de tópico da frase" e é ele que "desencadeia a concordância verbal" (Gramática da Língua Portuguesa de Mateus et alii, 2003). Quer isto dizer que o sujeito obriga o verbo a concordar com ele em pessoa e em número. 

Então, quando dizemos "O João comeu a maçã", o sujeito é "O João" - em jeito de curiosidade, deixem-me dizer-vos que esta é a frase-padrão para qualquer linguista que queira explicar algum fenómeno básico em frases simples. 

Parece simples, mas há sujeitos (gramaticais) que gostam de complicar e que têm a mania de nos confundir. Numa frase declarativa simples, o sujeito da frase é normalmente constituído por um sintagma (essencialmente, um grupo de palavras) em que o núcleo é um nome - atenção, o sujeito não é constituído obrigatoriamente apenas por um sintagma nominal. 

Reparem no título: o sujeito da frase é "a gente". Ora vejamos algumas das coisas que diz o dicionário Priberam sobre o nome "gente".


1. Conjunto indeterminado de pessoas.
2. Conjunto dos habitantes de um territóriopaís. = POPULAÇÃOPOVO


"gente", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/DLPO/gente [consultado em 02-02-2016].

Sublinhe-se: conjunto! A gente é um sintagma nominal composto por uma palavra no singular mas que tem um sentido plural. "A gente", na nossa cabeça, constitui um grupo, um coletivo. E, portanto, há muita gente que faz a concordância com o verbo no plural e que diz coisas do tipo "a gente vamos". Errado! "A gente não vamos" a lado nenhum, porque o sujeito está no singular. Isto tanto é válido para o português europeu como o português do Brasil. "A gente vai". Singular. Sempre. 

Há uma possível explicação para este erro. Como bem sabemos, no Brasil é muito comum utilizar a expressão "a gente" em substituição do pronome pessoal "nós", que é plural. Curiosamente, não me recordo de ouvir um brasileiro a fazer a concordância de forma errada - por isso mesmo, até perguntei a uma falante nativa, que me confirmou que, por terras de Vera Cruz, "a gente vamos" é coisa que não se ouve. Em Portugal, o cenário muda um pouco de figura, sobretudo quando estamos perante um registo oral ou coloquial. 

Então, resumindo, se o sintagma nominal estiver no singular, o verbo também tem de estar, mesmo que, lógica e semanticamente, a frase seja plural. Há que referir que nem todos os gramáticos pensam desta forma. Se a expressão "a gente vamos" é quase unanimemente considerada agramatical, o mesmo não acontece com a expressão "a maioria", que tem um valor semelhante: é um nome que está formalmente no singular mas com sentido plural. 

Há uma diferença. Quando utilizamos "a maioria", normalmente é a maioria de alguma coisa. E essa "alguma coisa" normalmente está no plural - pode até nem estar expressa na frase, mas vamos lá sempre dar pelo contexto. Vejam este título que encontrei na blogosfera: "(...) a maioria dos políticos que vão parar ao poder são umas nódoas...". Isto não parece tão errado como "a gente vamos" porque o plural está ali, à vista de todos. Mas o sujeito não é "os políticos"; é "a maioria dos políticos". E "a maioria" é que é o núcleo do sintagma nominal. 

Na verdade, expressões como "a maioria de", "um grupo de", "uma porção de", são consideradas por Brito (na Gramática da Língua Portuguesa, 2003) como "expressões quantitativas vagas". Se as expressões quantitativas, de natureza nominal, forem precisas, o número da expressão quantitativa é que determina a concordância (exemplo: "um litro de leite custa; dois litros de leite custam). Pelo contrário, como expressões do tipo "a maioria de" são imprecisas, pode pôr-se a hipótese - marginal - de se fazer a concordância com o elemento que é quantificado (na expressão "a maioria dos políticos", o elemento quantificado é "os políticos). 

Mas sublinho: esta hipótese é marginal. Continua a ser sempre preferível fazer a concordância verbal no singular, para que o verbo concorde com o núcleo do sintagma nominal que compõe o sujeito.