Ora, retomando o tema da semana, os tempos verbais, é hora de falar do presente. Como foi escrito no artigo anterior, o Presente do Indicativo raramente é usado para expressar o momento presente, o agora, doravante aqui chamado de momento da enunciação.
Isto significa que este tempo verbal nem sempre possui, na verdade, informação temporal. Eis um exemplo:
- Eu como uma maçã.
- Eu estou a comer uma maçã.
Qual destas frases é que usariam se estivessem, no momento da enunciação, a comer uma maçã? A segunda, pois claro, que está na forma progressiva. Isto acontece porque o Presente do Indicativo, nesta frase em particular, não tem grande informação de tempo. Para percebemos a razão para esta leitura, temos de perceber que há dois tipos de situações: situações dinâmicas (comer, correr, fazer, nascer, etc.) e situações não-dinâmicas (estar, ser). Às situações dinâmicas vamos chamar de eventos e às não-dinâmicas, estados.
Então, quando dizemos "eu como uma maçã", que é um evento, estamos a dizer exatamente o quê? Uma locução adverbial pode ajudar a explicar:
- Eu como uma maçã todos os dias.
Uma frase destas significa que estamos a falar de um hábito, de comer uma maçã todos os dias. Claro que o adverbial ajuda a reforçar a leitura, mas o que acontece é que quando usamos o Presente do Indicativo com eventos, o tempo verbal não dá informação temporal. Pelo contrário, dá uma leitura de habitualidade. Outro exemplo:
- Ele tocou piano como só ele o faz [habitualmente].
Pelo contrário, se o Presente do Indicativo for usado com um estado, então aí sim, dá informação de tempo presente:
- Eu estou [agora mesmo] em Londres.
Há, como sempre, alguns casos excecionais, em que o Presente pode dar informação de tempo presente com eventos. Mas são mesmo muito raros. Um exemplo que os gramáticos costumam dar é o dos relatos de futebol em direto.
- Messi recebe a bola... chuta... e marca golo [neste preciso momento].
Presente projetado para o futuro
Estes são os dois usos prototípicos deste tempo verbal. Mas também o podemos encontrar em frases com uma leitura de futuro, embora não seja o tempo verbal em si que dê essa informação. Como por exemplo:
- Chove amanhã.
Esta leitura é reforçada com a estrutura ir no Presente do Indicativo + verbo principal no infinitivo. Se, no exemplo, anterior, a leitura de futuro é sobretudo dada pelo adverbial "amanhã", uma frase do tipo "Vai chover" não precisa de adverbial para percebermos que se trata de uma frase com leitura de futuro.
E, para não complicar, por hoje é tudo. Amanhã haverá mais, sobre outro tempo verbal. Fiquem atentos!
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sexta-feira, 1 de abril de 2016
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Modalidade, modo, verbo
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| Foto: clker.com |
Em primeiro lugar, quando temos um verbo numa frase, temos de atentar ao seu modo. E o que é isto? Segundo a Gramática da Língua Portuguesa de Mateus et alii (2003), o modo é aquilo que permite ao verbo expressar vários tipos de modalidade. Existem, fundamentalmente, quatro tipos de modalidade:
- interna ao participante: relacionada com a "capacidade e necessidade";
- externa ao participante: relacionada com "as circunstâncias externas" que rodeiam o participante;
- deôntica: relacionada com a ordem e o dever;
- epistémica: relacionada com a possibilidade, a dúvida e a incerteza.
Quanto a modos, existem, fundamentalmente, três: o Imperativo, o Conjuntivo e o Indicativo. Destes já ouviram falar, certo? Então, o Imperativo está relacionado com a ordem, pelo que expressa sobretudo uma modalidade deôntica.
O Conjuntivo e o Indicativo, de que vamos falar hoje, são um pouco mais difíceis de distinguir, pois podem "associar-se" a "mais do que uma modalidade". De qualquer modo, o Conjuntivo surge mais relacionado com a dúvida e a incerteza (modalidade epistémica). O modo Indicativo expressa mais facilmente certeza ou, simplesmente, situações em que se "afirma a veracidade de uma proposição" (Gramática da Língua Portuguesa, 2003) - no fundo, factos. É claro que a questão é bastante mais complexa, mas aqui tentamos simplificar.
Assim sendo, o Indicativo é o modo mais comum, sobretudo em frases simples. Em frases complexas, o Indicativo também surge na "maior parte das orações coordenadas" (frases com "e" ou "mas", por exemplo); e ainda na frase matriz ou oração principal da frase complexa. Já o Conjuntivo surge mais vezes em frases complexas subordinadas (em que há uma frase matriz, que pode ou não selecionar obrigatoriamente uma oração com Conjuntivo).
Quando nos ensinavam a distinguir os dois modos (ainda na escola primária), havia o hábito de dizer que, quando aparecia a conjunção integrante "que" numa frase (atente-se que o "que" nem sempre é uma conjunção integrante), a seguir teria de vir o Conjuntivo. Mas não é assim. Na verdade, o modo é escolhido com base naquilo que pretendemos exprimir.
Por exemplo, em frases complexas que expressam valores como "dúvida, volição, necessidade, possibilidade, obrigação, permissão", etc., o Conjuntivo é obrigatório:
- A Maria espera (Ind.) que o Rui chegue (Conj.) a horas.*
Já quando exprimimos "conhecimento ou crença", o Indicativo é mais frequente, mesmo na segunda oração.
- A Maria sabe (Ind.) que o Jorge está (Ind.) doente.*
Neste grupo há, no entanto, alguns verbos que admitem os dois modos na segunda oração.
- Ele calcula (Ind.) que os amigos estão (Ind.) em casa / estejam (Conj.) em casa.*
Por hoje é tudo. O próximo post será sobre a conjugação verbal, que está intimamente relacionada com o modo, e que traz muitos problemas - sobretudo quando há pronomes metidos ao barulho.
* Todos os exemplos foram retirados da Gramática da Língua Portuguesa, de 2003.
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