Ontem escreveu-se aqui sobre o Presente do Indicativo, hoje abordam-se os dois principais tempos do passado do modo Indicativo em português: o Pretérito Perfeito e o Imperfeito.
No post anterior, vimos a diferença entre estados e eventos - ou situações não-dinâmicas e situações dinâmicas. Nos tempos do passado, a sua influência difere.
O Pretérito Perfeito é, por excelência, um tempo verbal que dá, efetivamente, informação de tempo passado (anterior ao momento da enunciação). Isto tanto é válido para estados como para eventos.
- Eu comi uma maçã.
- Eu estive doente.
O primeiro exemplo é um evento; o segundo, um estado. Em ambos, temos a informação de que uma situação ocorreu - e terminou - antes do momento da enunciação. Aqui reside uma das maiores diferenças entre o Pretérito Perfeito e o Imperfeito do ponto de vista temporal: o Pretérito Perfeito é um tempo terminativo, ou seja, dá informação de que a situação foi concluída no passado.
O Imperfeito, pelo contrário, nem sempre dá a informação de que a situação está concluída. O exemplo que se segue, retirado da Gramática da Língua Portuguesa (2003), demonstra isso mesmo:
- A Maria lia o jornal quando a Joana chegou.
Por esta frase, não conseguimos perceber quando a situação "a Maria ler o jornal" terminou. Isto tem uma outra consequência: ao não dar informação nem sobre o início nem sobre o fim das situações. o Imperfeito parece ter a propriedade de "alargar" as situações, isto é, de as fazer parecer mais duradouras.
No exemplo acima, dá a ideia de que a Maria esteve a ler o jornal durante algum tempo - indefinido - no passado.
O Imperfeito de cortesia e o Imperfeito no futuro
No post que anunciou o tema da semana, referiu-se o Imperfeito como o tempo verbal que mais usos tem. É que, na verdade, nem sempre o Imperfeito é usado como um tempo do passado. Na verdade, há situações em que nem tem sequer informação de tempo.
É o caso do Imperfeito de cortesia, de que já aqui falámos. Quando vamos ao café e dizemos "queria um café", estamos a usar este tempo verbal apenas porque parece mais educado do que dizer "quero um café", que soa mais como uma ordem do que um pedido.
Estranhamente, o Imperfeito também pode ter uma projeção de futuro, seja em frases condicionais ou em frases com adverbiais como amanhã, que dão essa leitura temporal.
- Se a Rita chegasse a tempo, íamos ao concerto.
- Amanhã ia falar consigo ao escritório.*
* Exemplos retirados da Gramática da Língua Portuguesa (2003)
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domingo, 3 de abril de 2016
sexta-feira, 1 de abril de 2016
O que vai querer saber sobre o Presente
Ora, retomando o tema da semana, os tempos verbais, é hora de falar do presente. Como foi escrito no artigo anterior, o Presente do Indicativo raramente é usado para expressar o momento presente, o agora, doravante aqui chamado de momento da enunciação.
Isto significa que este tempo verbal nem sempre possui, na verdade, informação temporal. Eis um exemplo:
- Eu como uma maçã.
- Eu estou a comer uma maçã.
Qual destas frases é que usariam se estivessem, no momento da enunciação, a comer uma maçã? A segunda, pois claro, que está na forma progressiva. Isto acontece porque o Presente do Indicativo, nesta frase em particular, não tem grande informação de tempo. Para percebemos a razão para esta leitura, temos de perceber que há dois tipos de situações: situações dinâmicas (comer, correr, fazer, nascer, etc.) e situações não-dinâmicas (estar, ser). Às situações dinâmicas vamos chamar de eventos e às não-dinâmicas, estados.
Então, quando dizemos "eu como uma maçã", que é um evento, estamos a dizer exatamente o quê? Uma locução adverbial pode ajudar a explicar:
- Eu como uma maçã todos os dias.
Uma frase destas significa que estamos a falar de um hábito, de comer uma maçã todos os dias. Claro que o adverbial ajuda a reforçar a leitura, mas o que acontece é que quando usamos o Presente do Indicativo com eventos, o tempo verbal não dá informação temporal. Pelo contrário, dá uma leitura de habitualidade. Outro exemplo:
- Ele tocou piano como só ele o faz [habitualmente].
Pelo contrário, se o Presente do Indicativo for usado com um estado, então aí sim, dá informação de tempo presente:
- Eu estou [agora mesmo] em Londres.
Há, como sempre, alguns casos excecionais, em que o Presente pode dar informação de tempo presente com eventos. Mas são mesmo muito raros. Um exemplo que os gramáticos costumam dar é o dos relatos de futebol em direto.
- Messi recebe a bola... chuta... e marca golo [neste preciso momento].
Presente projetado para o futuro
Estes são os dois usos prototípicos deste tempo verbal. Mas também o podemos encontrar em frases com uma leitura de futuro, embora não seja o tempo verbal em si que dê essa informação. Como por exemplo:
- Chove amanhã.
Esta leitura é reforçada com a estrutura ir no Presente do Indicativo + verbo principal no infinitivo. Se, no exemplo, anterior, a leitura de futuro é sobretudo dada pelo adverbial "amanhã", uma frase do tipo "Vai chover" não precisa de adverbial para percebermos que se trata de uma frase com leitura de futuro.
E, para não complicar, por hoje é tudo. Amanhã haverá mais, sobre outro tempo verbal. Fiquem atentos!
Isto significa que este tempo verbal nem sempre possui, na verdade, informação temporal. Eis um exemplo:
- Eu como uma maçã.
- Eu estou a comer uma maçã.
Qual destas frases é que usariam se estivessem, no momento da enunciação, a comer uma maçã? A segunda, pois claro, que está na forma progressiva. Isto acontece porque o Presente do Indicativo, nesta frase em particular, não tem grande informação de tempo. Para percebemos a razão para esta leitura, temos de perceber que há dois tipos de situações: situações dinâmicas (comer, correr, fazer, nascer, etc.) e situações não-dinâmicas (estar, ser). Às situações dinâmicas vamos chamar de eventos e às não-dinâmicas, estados.
Então, quando dizemos "eu como uma maçã", que é um evento, estamos a dizer exatamente o quê? Uma locução adverbial pode ajudar a explicar:
- Eu como uma maçã todos os dias.
Uma frase destas significa que estamos a falar de um hábito, de comer uma maçã todos os dias. Claro que o adverbial ajuda a reforçar a leitura, mas o que acontece é que quando usamos o Presente do Indicativo com eventos, o tempo verbal não dá informação temporal. Pelo contrário, dá uma leitura de habitualidade. Outro exemplo:
- Ele tocou piano como só ele o faz [habitualmente].
Pelo contrário, se o Presente do Indicativo for usado com um estado, então aí sim, dá informação de tempo presente:
- Eu estou [agora mesmo] em Londres.
Há, como sempre, alguns casos excecionais, em que o Presente pode dar informação de tempo presente com eventos. Mas são mesmo muito raros. Um exemplo que os gramáticos costumam dar é o dos relatos de futebol em direto.
- Messi recebe a bola... chuta... e marca golo [neste preciso momento].
Presente projetado para o futuro
Estes são os dois usos prototípicos deste tempo verbal. Mas também o podemos encontrar em frases com uma leitura de futuro, embora não seja o tempo verbal em si que dê essa informação. Como por exemplo:
- Chove amanhã.
Esta leitura é reforçada com a estrutura ir no Presente do Indicativo + verbo principal no infinitivo. Se, no exemplo, anterior, a leitura de futuro é sobretudo dada pelo adverbial "amanhã", uma frase do tipo "Vai chover" não precisa de adverbial para percebermos que se trata de uma frase com leitura de futuro.
E, para não complicar, por hoje é tudo. Amanhã haverá mais, sobre outro tempo verbal. Fiquem atentos!
terça-feira, 29 de março de 2016
5 factos que vai querer aprender sobre tempos verbais
Os tempos verbais são o tema da semana no Estudar a Língua. Antes de analisarmos os tempos do português e a sua aplicação na oralidade e na escrita, vamos conhecer alguns factos interessantes sobre tempos verbais, que o leitor certamente vai gostar de aprender.
1 - Quem foi pioneiro a falar de tempos verbais e de verbos?
Nada mais, nada menos do que Aristóteles! Na obra De Interpretatione, o pensador grego propõe uma definição de verbo e refere que o verbo transmite a "noção de tempo" e que carreia a noção do momento presente, do "agora". Isto, além do próprio significado da forma verbal, claro está.
Para o autor, a forma básica do verbo tem informação do tempo presente, ao passo que as formas que transmitem informação de passado e de futuro são indicadores de tempos verbais.
Hoje em dia sabe-se que há outras formas de expressar informação de tempo e sabe-se também que a função dos verbos não é apenas essa, mas os estudos de Aristóteles foram um grande contributo para os avanços da linguística e ainda hoje são tidos como referência em alguns estudos.
2 - Quantos tempos verbais tem o português?
O português tem 19 tempos verbais*, divididos em dois modos e ainda num grupo de formas nominais (por terem propriedades em comum com os nomes). Além destes modos, ainda existe o modo Imperativo, relacionados, com ordem ou pedidos, por exemplo.
Indicativo: Presente (tenho), Pretérito Perfeito Simples (tive), Pretérito Imperfeito (tinha), Pretérito Mais-Que-Perfeito Simples (tivera), Pretérito Mais-Que-Perfeito Composto (tinha feito), Futuro Simples (terei), Futuro Composto (terei feito), Condicional (teria), Condicional Composto (teria feito)
Conjuntivo (Subjuntivo em PT BR): Presente (tenha), Imperfeito (tivesse), Pretérito Mais-Que-Perfeito (Imperfeito Composto) (tivesse feito), Futuro (tiver), Futuro Composto (tiver feito)
Formas nominais: Gerúndio (tendo), Particípio (tido), Infinitivo impessoal (ter), Infinitivo flexionado (terem)
* Mas atenção: alguns gramáticos podem discordar desta análise, porque, como se referiu acima, nem todas estas formas verbais têm informação temporal.
3 - O Presente raramente transmite tempo presente.
Estranho, não é? Mas em certas línguas, como o português e o inglês, para transmitir tempo presente usa-se a forma progressiva: estar a + infinitivo na norma padrão do português europeu; estar + gerúndio em português do Brasil (e em certas regiões de Portugal, como o Alentejo) (estou a fazer um bolo; estou fazendo um bolo). Durante esta semana vamos explicar porquê, por isso estejam atentos!
4 - O português é das raras línguas a nível mundial que tem infinitivo flexionado.
O infinitivo, em princípio, é a forma mais básica do verbo, a raiz, por assim dizer. Por isso, é geralmente impessoal e não tem flexão. Acontece que, no português, pode ter, quando é precedido de tem sujeito próprio.
Por exemplo, não podemos dizer: *É bom eles fazer exercício. Dizemos, isso sim: É bom eles fazerem exercício. (Contraste-se com a construção impessoal: É bom fazer exercício.)
5 - O Imperfeito é o tempo verbal que mais usos diferentes tem em português.
Além de ser um tempo do passado, o Imperfeito é tradicionalmente usado com valor de cortesia, por exemplo. Quando pedimos um café, por exemplo, preferimos normalmente o Imperfeito ao Presente, embora seja no momento presente que queremos realmente um café (Queria um café).
Na verdade, raramente o Imperfeito é só um tempo do passado. Sem querer acrescentar demasiada informação por enquanto, porque também vamos falar mais disto durante a semana, o Imperfeito às vezes até é usado com um certo sentido de futuro, em frases do tipo "Amanhã ia ter contigo se pudesses" (é importante notar que o leitor só tem a certeza de que há uma leitura de futuro por causa do amanhã).
Já sabem: fiquem atentos, porque durante esta semana vamos ensinar bem mais sobre tempos verbais!
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| Foto: UOL educação |
1 - Quem foi pioneiro a falar de tempos verbais e de verbos?
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| Foto: clipart.me |
Para o autor, a forma básica do verbo tem informação do tempo presente, ao passo que as formas que transmitem informação de passado e de futuro são indicadores de tempos verbais.
Hoje em dia sabe-se que há outras formas de expressar informação de tempo e sabe-se também que a função dos verbos não é apenas essa, mas os estudos de Aristóteles foram um grande contributo para os avanços da linguística e ainda hoje são tidos como referência em alguns estudos.
2 - Quantos tempos verbais tem o português?
O português tem 19 tempos verbais*, divididos em dois modos e ainda num grupo de formas nominais (por terem propriedades em comum com os nomes). Além destes modos, ainda existe o modo Imperativo, relacionados, com ordem ou pedidos, por exemplo.
Indicativo: Presente (tenho), Pretérito Perfeito Simples (tive), Pretérito Imperfeito (tinha), Pretérito Mais-Que-Perfeito Simples (tivera), Pretérito Mais-Que-Perfeito Composto (tinha feito), Futuro Simples (terei), Futuro Composto (terei feito), Condicional (teria), Condicional Composto (teria feito)
Conjuntivo (Subjuntivo em PT BR): Presente (tenha), Imperfeito (tivesse), Pretérito Mais-Que-Perfeito (Imperfeito Composto) (tivesse feito), Futuro (tiver), Futuro Composto (tiver feito)
Formas nominais: Gerúndio (tendo), Particípio (tido), Infinitivo impessoal (ter), Infinitivo flexionado (terem)
* Mas atenção: alguns gramáticos podem discordar desta análise, porque, como se referiu acima, nem todas estas formas verbais têm informação temporal.
3 - O Presente raramente transmite tempo presente.
Estranho, não é? Mas em certas línguas, como o português e o inglês, para transmitir tempo presente usa-se a forma progressiva: estar a + infinitivo na norma padrão do português europeu; estar + gerúndio em português do Brasil (e em certas regiões de Portugal, como o Alentejo) (estou a fazer um bolo; estou fazendo um bolo). Durante esta semana vamos explicar porquê, por isso estejam atentos!
4 - O português é das raras línguas a nível mundial que tem infinitivo flexionado.
O infinitivo, em princípio, é a forma mais básica do verbo, a raiz, por assim dizer. Por isso, é geralmente impessoal e não tem flexão. Acontece que, no português, pode ter, quando é precedido de tem sujeito próprio.
Por exemplo, não podemos dizer: *É bom eles fazer exercício. Dizemos, isso sim: É bom eles fazerem exercício. (Contraste-se com a construção impessoal: É bom fazer exercício.)
5 - O Imperfeito é o tempo verbal que mais usos diferentes tem em português.
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| Foto: lifehacker.com |
Na verdade, raramente o Imperfeito é só um tempo do passado. Sem querer acrescentar demasiada informação por enquanto, porque também vamos falar mais disto durante a semana, o Imperfeito às vezes até é usado com um certo sentido de futuro, em frases do tipo "Amanhã ia ter contigo se pudesses" (é importante notar que o leitor só tem a certeza de que há uma leitura de futuro por causa do amanhã).
Já sabem: fiquem atentos, porque durante esta semana vamos ensinar bem mais sobre tempos verbais!
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