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quinta-feira, 3 de março de 2016

Português à moda do Yoda, isto é.

- A Maria comeu a maçã.
- *A maçã a Maria comeu.

Qual destas vos parece correta? A primeira, não? Há uma razão: a ordem de palavras do português. Para explicar mais sobre a ordem de palavras é preciso compreender a base da sintaxe, i.e., as relações gramaticais.

Ora, diz a Gramática da Língua Portuguesa (2003) que uma oração/frase tem como domínio uma predicação; e que a predicação é constituída, tipicamente, por dois constituintes: o predicado e o sujeito. No predicado incluem-se "o predicador" e os seus argumentos internos. O sujeito é o argumento externo do predicado. No português, a maioria dos predicados são verbais, mas não se pense que o predicado é o verbo apenas.

Um predicado verbal é constituído pelo verbo, sim, mas também pelos seus argumentos ou complementos.

- A Maria [SU] deu uma maçã [OD] à filha [OI].

Adiante. Diz a mesma Gramática que o português "é uma língua de proeminência de sujeito". O que é que isto quer dizer? Quer dizer que, de um ponto de vista gramatical, é o sujeito que determina a concordância verbal. Veja-se:

- A Maria comeu maçãs. (SU na 3ª pessoa do singular, verbo conjugado na 3ª pessoa do singular - gramatical)
- *A Maria comeram maçãs. (SU na 3ª pessoa do singular, verbo conjugado na 3ª pessoa do plural, a concordar com o objeto direto - agramatical)

Por estas razões, em português, em frases declarativas, o sujeito surge tipicamente na "primeira posição argumental" da frase. Segue-se, então, o predicado. E aqui temos a ordem de palavras básica da nossa língua:

S V O [Sujeito - Verbo - Objeto]

No entanto, é perfeitamente possível dizer algo como:

- Comi sushi ao jantar.

Onde está o sujeito? Simples. O sujeito está na sua posição natural, à esquerda do predicado. É possível percebermos isso porque o verbo está conjugado de forma a concordar com o sujeito, na 1ª pessoa do singular. O sujeito é o pronome "eu", simplesmente é nulo foneticamente. O português é, então, uma língua sintaticamente dominada pelo sujeito, mas que permite sujeitos nulos - algo que não é possível, por exemplo, em inglês. Significa que, mesmo que o sujeito não apareça na frase, a sua posição sintática está sempre representada.

Quando S V O não é S V O

Como é habitual, a língua portuguesa enche-nos de exceções e de casos em que a ordem básica não se aplica.

Tipicamente, refere ainda a Gramática da Língua Portuguesa, "à estrutura sintáctica sujeito-predicado corresponde a estrutura temática tópico-comentário". Assim, numa frase como "A Maria comeu uma maçã", A Maria é sujeito e tópico; comeu uma maçã é o predicado e o comentário acerca da Maria. De um ponto de vista semântico, chamamos a este tipo de frases predicações, porque estamos a fazer um "juízo categórico" sobre alguma coisa (e essa alguma coisa é o constituinte representado pelo sujeito).

Quando o sujeito e o tópico correspondem, estamos a falar de tópicos não-marcados. Com topicalização não-marcada, o padrão de ordem de palavras é S V O (os exemplos doravante apresentados são retirados da Gramática da Língua Portuguesa).

- A que é que todos os alunos reagiram mal?
  Todos os alunos [TOP/SU] reagiram mal ao teste.

Mas nem sempre há uma correspondência entre tópico e sujeito. Quando assim é, falamos de tópicos marcados e estes sim, podem causar uma alteração na ordem de palavras.

- A quem é que o Pedro ofereceu esse livro?
  Esse livro [TOP], o Pedro [SU] ofereceu(-o) à Ana.*

Nesta frase, temos uma ordem O S V O (o segundo objeto, à direita do verbo, deve-se ao facto de o verbo oferecer ter dois argumentos - oferecer o quê [OD] a quem [OI]).

Mesmo sem questões de topicalização, o português também permite uma ordem V O S, em frases do tipo:

- Quem comeu o bolo?
  Comeu-o o João [SU].

O exemplo que inicia este post pode entrar nesta categoria, se considerarmos a maçã como tópico e a Maria como sujeito (no entanto, sem pontuação, essa leitura pode ser altamente ambígua).

- A Maria [TOP/SU] comeu a maçã.
- A maçã [TOP], a Maria [SU] comeu(-a).

Há ainda outros contextos a considerar. Quando a frase "apresenta informação nova no contexto das perguntas", mesmo sem topicalização, é possível ter diferentes padrões de ordens de palavras.

Quando temos verbos inacusativos, que são verbos que não têm argumentos internos, podemos ter a ordem V S.

- O que aconteceu?
  Chegaram os meus sobrinhos.

As ordens V S O e V [O] S também são possíveis.

- Quem comeu o quê?
  Comeram os miúdos o bolo.
- Quem comeu o bolo?
  Comeram [o bolo] os miúdos.

Esta pequena lição à moda do Yoda (para quem não sabe, é a personagem do Star Wars que fala quase sempre com a ordem V S O, que, diga-se, não é a ordem de palavras básica do inglês) terá continuidade nos próximos dias, já que da ordem de palavras ainda derivam mais alguns problemas nos falantes. Fiquem atentos.





quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

E se nós ensináSSEMOS a conjugar os verbos?

Retomamos o tema da semana - os verbos - para explicar um pouco mais sobre os tempos verbais. No post anterior, referimos os modos e as modalidades a que se associam. Hoje, vamos aprofundar a questão da conjugação verbal e endereçar um erro grave, mas infelizmente comum na escrita.

Ao contrário de outras línguas, como o inglês, o português tem conjugações variáveis por pessoa e número, normalmente esquematizado no tradicional eu/tu/ele/nós/vós/eles - há, portanto, três pessoas no singular e outras três no plural. 

Além disso, convém não esquecer que, do ponto de vista da conjugação, os verbos se dividem em regulares e irregulares. As alterações de conjugação verbal, em verbos regulares, consistem numa diferente terminação da forma verbal. A raiz do verbo, por assim dizer, fica igual. 

Assim, com verbos terminados em -ar, no Presente do Indicativo, por exemplo, a forma verbal acaba em o/as/a/amos/ais/am; com verbos terminados em -er, a forma verbal acaba em o/es/e/emos/eis/em; e com verbos terminados em -ir, acabam em o/es/e/imos/is/em

Imagem: alunosonline.com.uol.br

E podemos continuar a lista por aí fora, com os demais tempos verbais do Indicativo (a saber, o Pretérito Perfeito Simples - eu cantei; eu comi; eu parti -; o Pretérito Imperfeito - eu cantava, eu comia, eu partia; o Futuro - eu cantarei, eu comerei, eu partirei, etc.).

O Conjuntivo

Tirando algumas exceções - como a segunda pessoa do plural (vós), que está cada vez mais em desuso e que leva a que muitos falantes não a saibam conjugar - o problema da conjugação não está no modo Indicativo, mas sim no Conjuntivo. 

Tal como todas as línguas do mundo, também o português tem palavras homófonas. E quando essas palavras são graficamente representadas, através da escrita, surge muitas vezes confusão, sobretudo em falantes com menor nível de escolaridade. 

Como vimos no post anterior, o Conjuntivo surge, tipicamente, em construções associadas à expressão de dúvida, de possibilidade ou de incerteza. Por exemplo, em frases condicionais, iniciadas por "se". Há três tipos de frases condicionais: a primeira, em que se usa o Presente do Conjuntivo, a segunda, em que usa o Imperfeito do Conjuntivo, e uma terceira, em que se usa um tempo composto, que não vamos por agora analisar. Caso não se lembrem destas coisas, porque são matéria dada ainda no ensino primário e que nunca mais é retomada, talvez se recordem das If Clauses (Type I, II e III) das aulas de inglês, dadas bem mais tarde. O valor semântico de cada uma delas, neste momento, não interessa. Importa, isso sim, conjugar bem cada tempo verbal:


Imagens: alunosonline.com.uol.br

Resumindo o que está na primeira tabela, no Presente do Conjuntivo (Subjuntivo para falantes do português do Brasil), conjuga-se com e/es/e/emos/eis/em em verbos terminados em -ar; a/as/a/amos/ais/am em verbos terminados em -er; e a/as/a/amos/ais/am em verbos terminados em -ir.

Foquemo-nos agora no Imperfeito do Indicativo, que é o que causa a maioria das asneiras. 

- Se eu vendesse casas, teria imenso sucesso. 

Esta é uma frase condicional com Imperfeito do Conjuntivo, na primeira pessoa do plural. Infelizmente, vendesse soa parecido a vende-se (embora nem sequer sejam exatamente homófonas, por causa da acentuação - o verbo no Imperfeito do Conjuntivo lê-se como se fosse "vendêsse"). Mas quantas e quantas vezes já não encontrámos disparates do tipo se eu vende-se ou se eu canta-se e por aí fora? Pois. Vende-se ou canta-se são verbos que estão no Presente do Indicativo - têm, por isso, valores semânticos e usos completamente diferentes e escrevem-se assim porque têm um clítico em posição de ênclise - um fenómeno que este blog também já explicou

Esta é uma das consequências de um certo abandono das questões linguísticas mais básicas no ensino, à medida que este avança, e só prova que a linguística nunca devia deixar de fazer parte dos programas de educação da língua materna - da mesma forma como nunca deixa de fazer parte nos programas de língua estrangeira.