- A Maria comeu a maçã.
- *A maçã a Maria comeu.
Qual destas vos parece correta? A primeira, não? Há uma razão: a ordem de palavras do português. Para explicar mais sobre a ordem de palavras é preciso compreender a base da sintaxe, i.e., as relações gramaticais.
Ora, diz a Gramática da Língua Portuguesa (2003) que uma oração/frase tem como domínio uma predicação; e que a predicação é constituída, tipicamente, por dois constituintes: o predicado e o sujeito. No predicado incluem-se "o predicador" e os seus argumentos internos. O sujeito é o argumento externo do predicado. No português, a maioria dos predicados são verbais, mas não se pense que o predicado é o verbo apenas.
Um predicado verbal é constituído pelo verbo, sim, mas também pelos seus argumentos ou complementos.
- A Maria [SU] deu uma maçã [OD] à filha [OI].
Adiante. Diz a mesma Gramática que o português "é uma língua de proeminência de sujeito". O que é que isto quer dizer? Quer dizer que, de um ponto de vista gramatical, é o sujeito que determina a concordância verbal. Veja-se:
- A Maria comeu maçãs. (SU na 3ª pessoa do singular, verbo conjugado na 3ª pessoa do singular - gramatical)
- *A Maria comeram maçãs. (SU na 3ª pessoa do singular, verbo conjugado na 3ª pessoa do plural, a concordar com o objeto direto - agramatical)
Por estas razões, em português, em frases declarativas, o sujeito surge tipicamente na "primeira posição argumental" da frase. Segue-se, então, o predicado. E aqui temos a ordem de palavras básica da nossa língua:
S V O [Sujeito - Verbo - Objeto]
No entanto, é perfeitamente possível dizer algo como:
- Comi sushi ao jantar.
Onde está o sujeito? Simples. O sujeito está na sua posição natural, à esquerda do predicado. É possível percebermos isso porque o verbo está conjugado de forma a concordar com o sujeito, na 1ª pessoa do singular. O sujeito é o pronome "eu", simplesmente é nulo foneticamente. O português é, então, uma língua sintaticamente dominada pelo sujeito, mas que permite sujeitos nulos - algo que não é possível, por exemplo, em inglês. Significa que, mesmo que o sujeito não apareça na frase, a sua posição sintática está sempre representada.
Quando S V O não é S V O
Como é habitual, a língua portuguesa enche-nos de exceções e de casos em que a ordem básica não se aplica.
Tipicamente, refere ainda a Gramática da Língua Portuguesa, "à estrutura sintáctica sujeito-predicado corresponde a estrutura temática tópico-comentário". Assim, numa frase como "A Maria comeu uma maçã", A Maria é sujeito e tópico; comeu uma maçã é o predicado e o comentário acerca da Maria. De um ponto de vista semântico, chamamos a este tipo de frases predicações, porque estamos a fazer um "juízo categórico" sobre alguma coisa (e essa alguma coisa é o constituinte representado pelo sujeito).
Quando o sujeito e o tópico correspondem, estamos a falar de tópicos não-marcados. Com topicalização não-marcada, o padrão de ordem de palavras é S V O (os exemplos doravante apresentados são retirados da Gramática da Língua Portuguesa).
- A que é que todos os alunos reagiram mal?
Todos os alunos [TOP/SU] reagiram mal ao teste.
Mas nem sempre há uma correspondência entre tópico e sujeito. Quando assim é, falamos de tópicos marcados e estes sim, podem causar uma alteração na ordem de palavras.
- A quem é que o Pedro ofereceu esse livro?
Esse livro [TOP], o Pedro [SU] ofereceu(-o) à Ana.*
Nesta frase, temos uma ordem O S V O (o segundo objeto, à direita do verbo, deve-se ao facto de o verbo oferecer ter dois argumentos - oferecer o quê [OD] a quem [OI]).
Mesmo sem questões de topicalização, o português também permite uma ordem V O S, em frases do tipo:
- Quem comeu o bolo?
Comeu-o o João [SU].
O exemplo que inicia este post pode entrar nesta categoria, se considerarmos a maçã como tópico e a Maria como sujeito (no entanto, sem pontuação, essa leitura pode ser altamente ambígua).
- A Maria [TOP/SU] comeu a maçã.
- A maçã [TOP], a Maria [SU] comeu(-a).
Há ainda outros contextos a considerar. Quando a frase "apresenta informação nova no contexto das perguntas", mesmo sem topicalização, é possível ter diferentes padrões de ordens de palavras.
Quando temos verbos inacusativos, que são verbos que não têm argumentos internos, podemos ter a ordem V S.
- O que aconteceu?
Chegaram os meus sobrinhos.
As ordens V S O e V [O] S também são possíveis.
- Quem comeu o quê?
Comeram os miúdos o bolo.
- Quem comeu o bolo?
Comeram [o bolo] os miúdos.
Esta pequena lição à moda do Yoda (para quem não sabe, é a personagem do Star Wars que fala quase sempre com a ordem V S O, que, diga-se, não é a ordem de palavras básica do inglês) terá continuidade nos próximos dias, já que da ordem de palavras ainda derivam mais alguns problemas nos falantes. Fiquem atentos.
quinta-feira, 3 de março de 2016
Sondagem sobre o Acordo Ortográfico: a favor ou contra?
terça-feira, 1 de março de 2016
Maria Helena Mateus: "Unificação ortográfica não tem como finalidade diminuir diferenças entre PE e PB"
Maria Helena Mira Mateus, professora catedrática jubilada pela Universidade de Lisboa, é um dos nomes de referência da linguística em Portugal. Coautora da Gramática da Língua Portuguesa (2003), dá agora continuidade ao ciclo de entrevistas do Estudar a Língua, abordando um dos assuntos mais discutidos nos últimos anos: o Acordo Ortográfico. E chama ainda a atenção para aspetos fundamentais da língua que são "descuidados" nos programas de ensino.
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| Foto: Ciberdúvidas |
O Ministério da Educação do Brasil está a
estudar medidas para retirar a literatura portuguesa do ensino. Que
consequências a longo prazo poderiam ter tais medidas para a língua portuguesa
e para uma maior unicidade da língua entre Portugal e o Brasil?
Não
vejo que manter ou retirar o caráter obrigatório do ensino da literatura
portuguesa tenha qualquer influência na manutenção das diferenças existentes
entre as variedades do português europeu e do português brasileiro. O uso
quotidiano da língua ultrapassa imensamente a influência que pode advir do
conhecimento de textos literários. É evidente por outro lado que, ao retirar do
ensino a obrigação de incluir alguns módulos sobre a literatura portuguesa, se
diminui o já pouco conhecimento que existe no Brasil sobre épocas e
características dessa literatura, ficando entregue aos professores a decisão de
ensinarem aspetos desse tema de acordo com os seus interesses pessoais. Tendo
em conta que o ensino de autores portugueses não tem apenas como objetivo discutir
aspetos linguísticos, penso que se deve fazer sobressair neste ensino os
aspetos culturais que a literatura sempre transmite. Julgo também necessário
que se dê lugar a outras variedades do português como as variedades faladas em
África, por exemplo. E por fim acho fundamental que a literatura produzida em
língua portuguesa, de qualquer das variedades, seja objeto de meios de
comunicação e de formas de apresentação ao público estimulantes e
esclarecedoras.
Estaremos a caminhar para uma divisão, além da já existente divisão dialectal,
entre o português do Brasil e o português europeu? Há algum papel do AO nesse
caminho?
A
preocupação do AO em unificar a escrita entre as variedades da língua
portuguesa tem um objetivo relevante para a expansão do livro e de outros meios
em que a grafia da língua seja necessária, e tem uma concretização económica
não despicienda. Trata-se apenas de uma unificação ortográfica que não tem como
finalidade diminuir as diferenças entre português brasileiro e português
europeu (ou entre outras formas de falar português nos países que pertencem à
CPLP), diferenças que são evidentes na oralidade da língua. A manutenção das
variedades no âmbito de uma certa língua (como o português, o inglês, o francês
ou outras línguas que foram “exportadas” no processo de colonização) é uma opção política e representa para os cidadãos
de vários países o interesse de estarem integrados numa vasta área que tem em
comum a língua em que falam e em que escrevem. É evidente, por outro lado, que
estas variedades exibem, no plano interno de cada uma, algumas diferenças que
correspondem a grupos geográficos ou sociais e que se denominam dialetos, o que
só reforça o conceito de que a variação das línguas é universal e se processa
no tempo, resultando de vários fatores, sobretudo do contacto entre línguas.
Falando do AO, já se cumpriram seis anos desde a sua implementação, mas muitos
falantes ainda não o aceitaram. Há consequências possíveis para a língua (como
por exemplo, haver ortografias diferentes entre diferentes facções da
sociedade)?
As
diferenças que vão alterando uma língua em consequência da sua utilização pelos
falantes só em casos muito excecionais estão relacionadas com mudanças da
grafia. A ortografia de uma língua é estabelecida de forma convencional e
representa a normalização da escrita; é decidida geralmente no seio das
academias de letras ou de ciências e não altera a pronúncia; é portanto sempre secundária em relação à
oralidade. Na língua portuguesa, uma das primeiras reformas ortográficas data
de 1911. Foi com esta reforma que se decidiu suprimir o <h> que se
associava a consoantes em certas palavras como “pharmacia" representando
uma aspiração que já não era sentida na língua oral. O primeiro acordo
ortográfico entre Portugal e Brasil data de 1931 e aí se propunha a eliminação
das consoantes “mudas” que fazem parte do novo acordo de 1990. Tendo presente o
caráter convencional da ortografia, ela tem possibilidade de integrar alterações
que correspondem a mudanças da língua provocadas pelo uso. Evidentemente, não
se trata de transmitir a intervalos breves as alterações que se manifestam na
oralidade e por isso a ortografia mantém sempre um caráter conservador. Quando
as entidades próprias consideram que existem suficientes razões para se
alterarem certos aspetos obsoletos de uma ortografia, a mudança deve ser
transmitida na escola e na documentação oficial, e passar a integrar a norma.
Na escrita individual, sem caráter oficial ou escolar a ortografia antiga pode
ser mantida sem consequências visto que as mudanças não alteram a pronúncia da
língua.
"Sintaxe e semântica são muito descuidadas na
escola"
Como vê a situação da linguística no ensino da língua e que soluções propõe
para termos uma sociedade mais “atraída” para as questões da língua?
Ao
contrário do que se julga, as pessoas são atraídas pelas questões da língua, e
preocupam-se sobretudo com as pronúncias “corretas” e com as normas de dialetos
ou de variedades, exercendo sempre juízos de valor e até julgamentos morais. O
que afasta as pessoas é a coincidência entre o estudo da língua e os estudos
teóricos ou científicos, ou até
simplesmente gramaticais, desligados da aplicação prática. Há poucos estudos sobre
as infrações na sintaxe ou na semântica que sirvam para demonstrar que essas
infrações têm consequências graves, perigosas ou simplesmente risíveis. E no
entanto, essas áreas são muito descuidadas na escola em benefício dos “erros
ortográficos” porque estes são o que mais facilmente se pode corrigir sem
possibilidade de discussão.
Maria Helena Mateus escreveu recentemente um artigo sobre o Acordo Ortográfico no jornal Público. Podem lê-lo aqui.
domingo, 28 de fevereiro de 2016
A, ante, após, até... A regência das preposições
Para finalizar a semana dos verbos, vamos cruzá-los com um outro tema: as preposições. Lembram-se das preposições, que em crianças éramos obrigados a saber de cor?
a, ante, após, até, com, contra, de, desde, durante, em, entre, para, perante, por, salvo, sem, sob, sobre, trás.*
Deixadas muitas vezes para o nosso subconsciente e para o nosso conhecimento interiorizado da língua, as preposições - e as locuções prepositivas, que são muitas mais do que as acima apresentadas - são uma categoria gramatical fundamental, na medida em que exprimem relações entre partes interdependentes de uma oração.
Normalmente, e dada a sua natureza relacional, só em casos raros é que as preposições surgem isoladas: tipicamente são seguidas de um nome ou de uma frase/oração.
- Fui a Paris (nome).
- Preciso de cortar o cabelo (frase).
Como é evidente, não serve este texto para explicar tudo o que há para saber sobre preposições. Pelo contrário, vamos cingir-nos àquelas que estão sempre associadas ao tema da semana, os verbos.
Numa frase, a maioria dos verbos surge obrigatoriamente associado a certas funções sintáticas (como por exemplo, o sujeito, o objeto direto, o objeto indireto, etc). Por isso, deles se diz que têm uma estrutura argumental.
Alguns verbos têm apenas um argumento, o sujeito (nascer) - quando o único argumento é o sujeito, chama-se argumento externo, porque se situa fora do predicado. Há muitos verbos com dois argumentos, o sujeito e o objeto direto (comer). Outros têm três, o sujeito, o objeto direto e o indireto (dar). Nestes dois casos, os argumentos objeto direto e indireto são internos ao verbo, pois fazem parte do predicado.
- O menino nasceu.
- O Pedro comeu bolachas.
- O Rui deu um livro à Ana.
É aqui que surge o fenómeno linguístico que interessa a este artigo: certos verbos "exigem" que os seus argumentos sejam iniciados por preposições. Nos exemplos acima encontramos logo um desses casos.
- O Rui deu um livro à Ana (contração do artigo a com a preposição a).
Acontece que existem verbos que selecionam o chamado complemento oblíquo, que é obrigatoriamente iniciado por uma preposição em particular. É o caso dos verbo gostar (de), depender (de), conversar (com), morar (em).
- A Maria gosta de chocolate.
- A empresa depende de créditos.
- O professor conversou com os alunos.
- Ele mora no Porto.
Um outro caso clássico de regência de preposições: os chamados verbos de movimento, que podem selecionar uma de várias preposições.
- Eu quero ir em direção ao mar. (locução prepositiva)
- Eles vão para Lisboa.
- Nós vamos até ao Porto.
Não existe nenhuma regra por detrás da regência das preposições. Trata-se apenas de uma propriedade lexical de base dos próprios verbos - e que nada tem que ver com a própria sintaxe da frase.
É precisamente a questão da regência das preposições que leva a erros como a estratégia cortadora em frases em que os constituintes não estão na sua "ordem natural", como já referimos neste blog.
* A lista apresentada é constituída pelas chamadas preposições simples do português, segundo a Gramática da Língua Portuguesa (2003). Chame-se, no entanto, a atenção para outras palavras com "caráter relacional" "indiscutível", referidas por Cunha e Cintra (1984), como afora, conforme, consoante, durante, exceto, fora, mediante, menos, não obstante, salvo, segundo, senão, tirante, visto.
a, ante, após, até, com, contra, de, desde, durante, em, entre, para, perante, por, salvo, sem, sob, sobre, trás.*
Deixadas muitas vezes para o nosso subconsciente e para o nosso conhecimento interiorizado da língua, as preposições - e as locuções prepositivas, que são muitas mais do que as acima apresentadas - são uma categoria gramatical fundamental, na medida em que exprimem relações entre partes interdependentes de uma oração.
Normalmente, e dada a sua natureza relacional, só em casos raros é que as preposições surgem isoladas: tipicamente são seguidas de um nome ou de uma frase/oração.
- Fui a Paris (nome).
- Preciso de cortar o cabelo (frase).
Como é evidente, não serve este texto para explicar tudo o que há para saber sobre preposições. Pelo contrário, vamos cingir-nos àquelas que estão sempre associadas ao tema da semana, os verbos.
Numa frase, a maioria dos verbos surge obrigatoriamente associado a certas funções sintáticas (como por exemplo, o sujeito, o objeto direto, o objeto indireto, etc). Por isso, deles se diz que têm uma estrutura argumental.
Alguns verbos têm apenas um argumento, o sujeito (nascer) - quando o único argumento é o sujeito, chama-se argumento externo, porque se situa fora do predicado. Há muitos verbos com dois argumentos, o sujeito e o objeto direto (comer). Outros têm três, o sujeito, o objeto direto e o indireto (dar). Nestes dois casos, os argumentos objeto direto e indireto são internos ao verbo, pois fazem parte do predicado.
- O menino nasceu.
- O Pedro comeu bolachas.
- O Rui deu um livro à Ana.
É aqui que surge o fenómeno linguístico que interessa a este artigo: certos verbos "exigem" que os seus argumentos sejam iniciados por preposições. Nos exemplos acima encontramos logo um desses casos.
- O Rui deu um livro à Ana (contração do artigo a com a preposição a).
Acontece que existem verbos que selecionam o chamado complemento oblíquo, que é obrigatoriamente iniciado por uma preposição em particular. É o caso dos verbo gostar (de), depender (de), conversar (com), morar (em).
- A Maria gosta de chocolate.
- A empresa depende de créditos.
- O professor conversou com os alunos.
- Ele mora no Porto.
Um outro caso clássico de regência de preposições: os chamados verbos de movimento, que podem selecionar uma de várias preposições.
- Eu quero ir em direção ao mar. (locução prepositiva)
- Eles vão para Lisboa.
- Nós vamos até ao Porto.
Não existe nenhuma regra por detrás da regência das preposições. Trata-se apenas de uma propriedade lexical de base dos próprios verbos - e que nada tem que ver com a própria sintaxe da frase.
É precisamente a questão da regência das preposições que leva a erros como a estratégia cortadora em frases em que os constituintes não estão na sua "ordem natural", como já referimos neste blog.
* A lista apresentada é constituída pelas chamadas preposições simples do português, segundo a Gramática da Língua Portuguesa (2003). Chame-se, no entanto, a atenção para outras palavras com "caráter relacional" "indiscutível", referidas por Cunha e Cintra (1984), como afora, conforme, consoante, durante, exceto, fora, mediante, menos, não obstante, salvo, segundo, senão, tirante, visto.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
E se nós ensináSSEMOS a conjugar os verbos?
Retomamos o tema da semana - os verbos - para explicar um pouco mais sobre os tempos verbais. No post anterior, referimos os modos e as modalidades a que se associam. Hoje, vamos aprofundar a questão da conjugação verbal e endereçar um erro grave, mas infelizmente comum na escrita.
Ao contrário de outras línguas, como o inglês, o português tem conjugações variáveis por pessoa e número, normalmente esquematizado no tradicional eu/tu/ele/nós/vós/eles - há, portanto, três pessoas no singular e outras três no plural.
Além disso, convém não esquecer que, do ponto de vista da conjugação, os verbos se dividem em regulares e irregulares. As alterações de conjugação verbal, em verbos regulares, consistem numa diferente terminação da forma verbal. A raiz do verbo, por assim dizer, fica igual.
Assim, com verbos terminados em -ar, no Presente do Indicativo, por exemplo, a forma verbal acaba em o/as/a/amos/ais/am; com verbos terminados em -er, a forma verbal acaba em o/es/e/emos/eis/em; e com verbos terminados em -ir, acabam em o/es/e/imos/is/em.
E podemos continuar a lista por aí fora, com os demais tempos verbais do Indicativo (a saber, o Pretérito Perfeito Simples - eu cantei; eu comi; eu parti -; o Pretérito Imperfeito - eu cantava, eu comia, eu partia; o Futuro - eu cantarei, eu comerei, eu partirei, etc.).
O Conjuntivo
Tirando algumas exceções - como a segunda pessoa do plural (vós), que está cada vez mais em desuso e que leva a que muitos falantes não a saibam conjugar - o problema da conjugação não está no modo Indicativo, mas sim no Conjuntivo.
Tal como todas as línguas do mundo, também o português tem palavras homófonas. E quando essas palavras são graficamente representadas, através da escrita, surge muitas vezes confusão, sobretudo em falantes com menor nível de escolaridade.
Como vimos no post anterior, o Conjuntivo surge, tipicamente, em construções associadas à expressão de dúvida, de possibilidade ou de incerteza. Por exemplo, em frases condicionais, iniciadas por "se". Há três tipos de frases condicionais: a primeira, em que se usa o Presente do Conjuntivo, a segunda, em que usa o Imperfeito do Conjuntivo, e uma terceira, em que se usa um tempo composto, que não vamos por agora analisar. Caso não se lembrem destas coisas, porque são matéria dada ainda no ensino primário e que nunca mais é retomada, talvez se recordem das If Clauses (Type I, II e III) das aulas de inglês, dadas bem mais tarde. O valor semântico de cada uma delas, neste momento, não interessa. Importa, isso sim, conjugar bem cada tempo verbal:
Resumindo o que está na primeira tabela, no Presente do Conjuntivo (Subjuntivo para falantes do português do Brasil), conjuga-se com e/es/e/emos/eis/em em verbos terminados em -ar; a/as/a/amos/ais/am em verbos terminados em -er; e a/as/a/amos/ais/am em verbos terminados em -ir.
Foquemo-nos agora no Imperfeito do Indicativo, que é o que causa a maioria das asneiras.
- Se eu vendesse casas, teria imenso sucesso.
Esta é uma frase condicional com Imperfeito do Conjuntivo, na primeira pessoa do plural. Infelizmente, vendesse soa parecido a vende-se (embora nem sequer sejam exatamente homófonas, por causa da acentuação - o verbo no Imperfeito do Conjuntivo lê-se como se fosse "vendêsse"). Mas quantas e quantas vezes já não encontrámos disparates do tipo se eu vende-se ou se eu canta-se e por aí fora? Pois. Vende-se ou canta-se são verbos que estão no Presente do Indicativo - têm, por isso, valores semânticos e usos completamente diferentes e escrevem-se assim porque têm um clítico em posição de ênclise - um fenómeno que este blog também já explicou.
Esta é uma das consequências de um certo abandono das questões linguísticas mais básicas no ensino, à medida que este avança, e só prova que a linguística nunca devia deixar de fazer parte dos programas de educação da língua materna - da mesma forma como nunca deixa de fazer parte nos programas de língua estrangeira.
Ao contrário de outras línguas, como o inglês, o português tem conjugações variáveis por pessoa e número, normalmente esquematizado no tradicional eu/tu/ele/nós/vós/eles - há, portanto, três pessoas no singular e outras três no plural.
Além disso, convém não esquecer que, do ponto de vista da conjugação, os verbos se dividem em regulares e irregulares. As alterações de conjugação verbal, em verbos regulares, consistem numa diferente terminação da forma verbal. A raiz do verbo, por assim dizer, fica igual.
Assim, com verbos terminados em -ar, no Presente do Indicativo, por exemplo, a forma verbal acaba em o/as/a/amos/ais/am; com verbos terminados em -er, a forma verbal acaba em o/es/e/emos/eis/em; e com verbos terminados em -ir, acabam em o/es/e/imos/is/em.
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| Imagem: alunosonline.com.uol.br |
E podemos continuar a lista por aí fora, com os demais tempos verbais do Indicativo (a saber, o Pretérito Perfeito Simples - eu cantei; eu comi; eu parti -; o Pretérito Imperfeito - eu cantava, eu comia, eu partia; o Futuro - eu cantarei, eu comerei, eu partirei, etc.).
O Conjuntivo
Tirando algumas exceções - como a segunda pessoa do plural (vós), que está cada vez mais em desuso e que leva a que muitos falantes não a saibam conjugar - o problema da conjugação não está no modo Indicativo, mas sim no Conjuntivo.
Tal como todas as línguas do mundo, também o português tem palavras homófonas. E quando essas palavras são graficamente representadas, através da escrita, surge muitas vezes confusão, sobretudo em falantes com menor nível de escolaridade.
Como vimos no post anterior, o Conjuntivo surge, tipicamente, em construções associadas à expressão de dúvida, de possibilidade ou de incerteza. Por exemplo, em frases condicionais, iniciadas por "se". Há três tipos de frases condicionais: a primeira, em que se usa o Presente do Conjuntivo, a segunda, em que usa o Imperfeito do Conjuntivo, e uma terceira, em que se usa um tempo composto, que não vamos por agora analisar. Caso não se lembrem destas coisas, porque são matéria dada ainda no ensino primário e que nunca mais é retomada, talvez se recordem das If Clauses (Type I, II e III) das aulas de inglês, dadas bem mais tarde. O valor semântico de cada uma delas, neste momento, não interessa. Importa, isso sim, conjugar bem cada tempo verbal:
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| Imagens: alunosonline.com.uol.br |
Resumindo o que está na primeira tabela, no Presente do Conjuntivo (Subjuntivo para falantes do português do Brasil), conjuga-se com e/es/e/emos/eis/em em verbos terminados em -ar; a/as/a/amos/ais/am em verbos terminados em -er; e a/as/a/amos/ais/am em verbos terminados em -ir.
Foquemo-nos agora no Imperfeito do Indicativo, que é o que causa a maioria das asneiras.
- Se eu vendesse casas, teria imenso sucesso.
Esta é uma frase condicional com Imperfeito do Conjuntivo, na primeira pessoa do plural. Infelizmente, vendesse soa parecido a vende-se (embora nem sequer sejam exatamente homófonas, por causa da acentuação - o verbo no Imperfeito do Conjuntivo lê-se como se fosse "vendêsse"). Mas quantas e quantas vezes já não encontrámos disparates do tipo se eu vende-se ou se eu canta-se e por aí fora? Pois. Vende-se ou canta-se são verbos que estão no Presente do Indicativo - têm, por isso, valores semânticos e usos completamente diferentes e escrevem-se assim porque têm um clítico em posição de ênclise - um fenómeno que este blog também já explicou.
Esta é uma das consequências de um certo abandono das questões linguísticas mais básicas no ensino, à medida que este avança, e só prova que a linguística nunca devia deixar de fazer parte dos programas de educação da língua materna - da mesma forma como nunca deixa de fazer parte nos programas de língua estrangeira.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Modalidade, modo, verbo
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| Foto: clker.com |
Em primeiro lugar, quando temos um verbo numa frase, temos de atentar ao seu modo. E o que é isto? Segundo a Gramática da Língua Portuguesa de Mateus et alii (2003), o modo é aquilo que permite ao verbo expressar vários tipos de modalidade. Existem, fundamentalmente, quatro tipos de modalidade:
- interna ao participante: relacionada com a "capacidade e necessidade";
- externa ao participante: relacionada com "as circunstâncias externas" que rodeiam o participante;
- deôntica: relacionada com a ordem e o dever;
- epistémica: relacionada com a possibilidade, a dúvida e a incerteza.
Quanto a modos, existem, fundamentalmente, três: o Imperativo, o Conjuntivo e o Indicativo. Destes já ouviram falar, certo? Então, o Imperativo está relacionado com a ordem, pelo que expressa sobretudo uma modalidade deôntica.
O Conjuntivo e o Indicativo, de que vamos falar hoje, são um pouco mais difíceis de distinguir, pois podem "associar-se" a "mais do que uma modalidade". De qualquer modo, o Conjuntivo surge mais relacionado com a dúvida e a incerteza (modalidade epistémica). O modo Indicativo expressa mais facilmente certeza ou, simplesmente, situações em que se "afirma a veracidade de uma proposição" (Gramática da Língua Portuguesa, 2003) - no fundo, factos. É claro que a questão é bastante mais complexa, mas aqui tentamos simplificar.
Assim sendo, o Indicativo é o modo mais comum, sobretudo em frases simples. Em frases complexas, o Indicativo também surge na "maior parte das orações coordenadas" (frases com "e" ou "mas", por exemplo); e ainda na frase matriz ou oração principal da frase complexa. Já o Conjuntivo surge mais vezes em frases complexas subordinadas (em que há uma frase matriz, que pode ou não selecionar obrigatoriamente uma oração com Conjuntivo).
Quando nos ensinavam a distinguir os dois modos (ainda na escola primária), havia o hábito de dizer que, quando aparecia a conjunção integrante "que" numa frase (atente-se que o "que" nem sempre é uma conjunção integrante), a seguir teria de vir o Conjuntivo. Mas não é assim. Na verdade, o modo é escolhido com base naquilo que pretendemos exprimir.
Por exemplo, em frases complexas que expressam valores como "dúvida, volição, necessidade, possibilidade, obrigação, permissão", etc., o Conjuntivo é obrigatório:
- A Maria espera (Ind.) que o Rui chegue (Conj.) a horas.*
Já quando exprimimos "conhecimento ou crença", o Indicativo é mais frequente, mesmo na segunda oração.
- A Maria sabe (Ind.) que o Jorge está (Ind.) doente.*
Neste grupo há, no entanto, alguns verbos que admitem os dois modos na segunda oração.
- Ele calcula (Ind.) que os amigos estão (Ind.) em casa / estejam (Conj.) em casa.*
Por hoje é tudo. O próximo post será sobre a conjugação verbal, que está intimamente relacionada com o modo, e que traz muitos problemas - sobretudo quando há pronomes metidos ao barulho.
* Todos os exemplos foram retirados da Gramática da Língua Portuguesa, de 2003.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
Entrevista a Ana Maria Brito: "Jovens não tiram proveito dos recursos da língua"
Ana Maria Brito é professora catedrática na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e coautora da Gramática da Língua Portuguesa (2003) e é a primeira convidada do Estudar a Língua para iniciar um ciclo de entrevistas que o Estudar a Língua vai fazer a diversos especialistas da língua portuguesa. Nesta entrevista, falamos das diversas variedades do português e ainda abordamos a importância da sintaxe, área de especialização da autora.
Fala-se muito
nas diferenças entre o português do Brasil e o português europeu. Pode apontar
as principais?
A maior variação é no sistema fonológico, naquilo que se
chama vulgarmente a “pronúncia”. O sistema vocálico é mais reduzido e mais
aberto. No plano lexical há também diferenças que têm a ver quer com novas
palavras (muitos empréstimos de origem inglesa entraram facilmente na língua
(”xerox”, fotocópia) quer com as mesmas palavras com um sentido novo, como
“terno” (fato), “ónibus” (autocarro), “café da manhã” (pequeno almoço), quer
com empréstimos de origem tupi (“abacaxi”) e africana (“sanzala”).
Do ponto de vista morfossintático e sintático, uma das
principais diferenças face ao PE relaciona-se com o sistema pronominal e com a
concordância sujeito – verbo e com a flexão verbal. À parte uma zona no Sul que
conserva ainda o “tu” como forma de tratamento do interlocutor, o PB usa
predominantemente “você” e “vocês”, levando o verbo a tomar formas de terceira
pessoa do singular e do plural: “você sabe…” “vocês sabiam…”. Também “nós” é
muitas vezes substituído por “a gente”, igualmente justificando uma forma de 3ª
pessoa do singular (“a gente sabe”). Como resultado, os paradigmas verbais são
mais reduzidos do que no PE. Claro que, como o país é extenso e complexo,
existe enorme variação quer do ponto de vista dialectal quer e principalmente
do ponto de vista social; por isso, quando falamos em variação em relação ao
PE, estamos a falar sobretudo de um PB vernáculo e oral, das classes mais
desfavorecidas, que coexiste com um PB culto, que é o das classes escolarizadas
e socialmente mais elevadas.
Outras diferenças dignas de nota: a diferente colocação dos
pronomes átonos ou clíticos, com predomínio da próclise (“me diga uma coisa”); o
uso de formas fortes dos pronomes em vez de formas átonas, como em “eu vi ele”
em vez de “eu vi-o”; a produtividade do gerúndio nas formas progressivas
(“estou vendo”), o uso de “ter” como verbo existencial (“tem gente aqui….”), o
uso de formas possessivas isoladas, sem artigo definido, como em “minha
carteira”, em vez de “a minha carteira”; também a redução na concordância nas
expressões nominais é digna de nota: é frequente ouvir-se “os menino”, em que a
marca de plural está reduzida ao artigo e não surge no nome.
Muitos falantes nativos de português do Brasil “queixam-se”
de perceberem mal o português europeu. Isto tem que ver com uma diferente
evolução da língua nos dois países?
Sim, claro; por várias razões que estão relacionadas com a
forma como a língua portuguesa foi deslocada para o Brasil, com o contacto de
línguas a que o Português foi exposto na colonização (quer com línguas índias
quer com línguas africanas, quer mais tarde com línguas de emigrantes de várias
nacionalidades, italianos, alemães, árabes, etc), o sistema fonológico foi
muito alterado e uma das principais é a maior abertura das vogais e o
desaparecimento de uma regra muito importante no PE que é a do vocalismo átono.
No PE uma vogal não acentuada é fechada como em “morar”, pronunciada como
“murar”; ora no Brasil a pronúncia é com o “o” semiaberto: “morar”. Por isso os
falantes do PB por vezes não entendem muito bem falantes do PE, porque vão
ouvir mutas vogais fechadas e muitos grupos consonânticos como “pn” (“pneu”)
que um PB pronuncia como “peneu”.
E quanto às
restantes variedades do português?
Em África estamos a assistir também à emergência de
variedades nacionais, o PM e o PA, em particular, embora ainda não de forma tão
estável como o PB. O Português está nesses países em situação de forte contacto
de línguas, é língua não materna para grande parte das populações, embora haja
grandes diferenças entre cidade / campo, entre jovem / idoso, entre falante
escolarizado / não escolarizado, mesmo entre homem / mulher. Os recenseamentos
realizados nesses países mostram dados mais ou menos seguros sobre tudo isso e
revelam também que o Português está a aumentar o número de falantes como L2, sendo
claramente uma língua de prestígio.
Mas o Português está a mudar nesses países: além da parte
vocabular, com muitos empréstimos das línguas Bantu e da parte fonológica, há
também algumas diferenças morfossintáticas e sintáticas. No PA por exemplo, a
construção ditransitiva tende a ser realizada com a preposição “em”: “dar na
mãe uma prenda”; no PM, tal construção tende a perder a preposição: “dar a mãe
uma prenda”. Em ambos os países nota-se um predomínio da preposição “em” usada
mesmo com verbos de movimento e de deslocação: “chegar no mercado”, em vez de
“chegar ao mercado”. No PM, está já registado e estudado um fenómeno de
“dequeísmo” e paraquísmo” nas orações integrantes: “ eu vi de que ele chegou
tarde”; “eu disse para que ele visse”.
Dada a situação de relativa instabilidade do Português em
Angola e Moçambique é portanto de prever que mudanças continuem a operar na
língua.
Centremo-nos
no português de Portugal. Existe alguma diferença gramatical profunda entre
dialectos?
Portugal é um país bastante uniforme do ponto de vista da
gramática da língua, que se relaciona com o facto de a língua se ter
estabilizado há mais de oito séculos num território pequeno e que mantém as
suas fronteiras. Mas há variação dialectal forte mais uma vez no plano fonético
e fonológico, existindo os chamados dialectos setentrionais e os
centro-meridionais, além dos dialectos insulares. No plano morfossintático e
sintático existem alguns fenómenos interessantes, sobretudo quando estão em
jogo falantes mais idosos, menos escolarizados e mais afastados dos centros
urbanos: assim, há que registar o uso do gerúndio no Alentejo e Algarve nas
construções progressivas (“estou vendo”) o uso de “ter” existencial,
curiosamente dois fenómenos que reencontramos no PB; no Alentejo pode ainda
hoje ouvir-se por falantes mais velhos e menos escolarizados um gerúndio
flexionado (“em (tu) estandes pronto”….).
"Há que dar mais atenção à parte gramatical no ensino"
É
sintaticista. O que pode dizer a um leigo sobre a preponderância da sintaxe
para o uso correcto da língua?
A sintaxe é a base da gramática, é o “esqueleto” da língua…
São as regras sintáticas que orientam a formação de frases simples e complexas,
no que respeita à ordem de palavras, à concordância, à selecção entre palavras,
às relações anafóricas, etc. Por isso, um bom domínio da sintaxe da língua é
essencial para falar e escrever bem, com clareza e objetividade, para
argumentar no discurso, para convencer o nosso interlocutor acerca de
determinada ideia ou conteúdo.
Embora eu não seja pessimista no que respeita ao uso da
língua pelas jovens gerações e veja com bons olhos o acesso que grande parte da
população tem em relação à língua e às suas manifestações, quer pelo acesso à
televisão, à rádio e principalmente às novas tecnologias de informação, não há
dúvida de que muitos dos nossos jovens usam por vezes uma sintaxe pobre nas
suas produções linguísticas e não tiram proveito dos inúmeros recursos da
gramática da língua portuguesa. Há que dar mais atenção à parte gramatical e
sintática da língua no ensino e não abandonar a reflexão gramatical nos níveis
mais avançados, como se faz atualmnete no ensino secundário, no pressuposto de
que os alunos já sabem o essencial de gramática. Isso não é verdade, por
variadíssimas razões, e por isso sou a favor de um ensino de Português que dê
grande espaço à reflexão gramatical.
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