Hoje vamos sair um pouco do domínio da escrita e entrar, por breves momentos, na oralidade. Ora, em muitas e muitas conversas, as horas são um tema muito falado. E a hora 12h30 é muitas vezes referida na oralidade de forma errada.
Os falantes, quando pensam em meio-dia, pensam numa palavra do género masculino, porque a palavra "dia" é masculina e porque a palavra "meio" também parece ser. Mas, na verdade, não é. Vamos por partes.
A palavra meio pode pertencer a três classes de palavras distintas. Em primeiro lugar, pode ser um adjetivo, que pode significar "metade de" alguma coisa ou algo "médio, moderado" (segundo o Priberam). Quando é um adjetivo, meio é variável em género (há meio e há meia). E como um adjetivo surge sempre no escopo de um nome - que está a qualificar -, tem de concordar com género desse nome.
Também pode ser um nome, de género masculino, com vários significados possíveis (metade, o centro de alguma coisa, o modo para chegar a algum lado, etc).
E, finalmente, pode ser um advérbio, que significa "um pouco" ou "mais ou menos". Meio, enquanto advérbio, é uma palavra invariável, não tem género.
Portanto, meio tanto pode ser variável em género, como não ter género nenhum, como ser uma palavra do género masculino. É natural que confunda, sobretudo numa expressão em que surge duas vezes. E a pior parte é que, apesar de os adjetivos surgirem sempre no escopo de um nome, nem sempre esse nome está expresso na frase ou expressão. É precisamente o caso.
Meio-dia é um nome composto, do género masculino porque o nome "dia" é que é, por assim dizer, "dominante". Mas o "meio" que vem a seguir é um adjetivo. E este adjetivo não concorda com a palavra meio-dia, mas sim com aquilo a que meio-dia se refere: a hora. E a hora é um nome de género feminino. E os adjetivos concordam sempre com o nome, não é? Então, a expressão é meio-dia e meia hora. Ou, simplificando, meio-dia e meia.
Isto é válido quer para português europeu como português do Brasil.
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segunda-feira, 16 de maio de 2016
quarta-feira, 11 de maio de 2016
8 - Eminente / Iminente
Neste ciclo de erros lexicais, temos percebido que, muitas vezes, a fonética semelhante das palavras leva a que muitos falantes cometam erros de escrita que deturpam o significado da sua mensagem. Este é mais um exemplo.
Embora possa haver uma ligeira diferença na pronunciação do "e" e do "i" no início das duas palavras, a maior parte das pessoas pode nem a detetar. E, consequentemente, muitas acabam por escrever coisas do tipo:
- A transferência do jogador está eminente.
Mal. Eminente significa algo que se destaca, que é superior.
e·mi·nen·te
adjectivo de dois géneros
"eminente", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/eminente [consultado em 11-05-2016].
1. Elevado; excelente.
2. Que excede aos outros.
"eminente", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/eminente [consultado em 11-05-2016].
Assim sendo, uma montanha pode ser eminente, por ser muito alta e por se destacar claramente na paisagem. Uma pessoa pode ser eminente, por ser importante ou por ter uma qualquer qualidade que é excelente.
Portanto, eminente não significa "aquilo que está prestes a acontecer". Isso, sim, é o que significa iminente. Ou seja:
- A transferência do jogador está iminente [e, portanto, pode acontecer a qualquer momento].
i·mi·nen·te
(latim imminens, -entis, particípio presente de immineo, -are, estar próximo, estar iminente)
adjectivo de dois géneros
"iminente", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/iminente [consultado em 11-05-2016].
(latim imminens, -entis, particípio presente de immineo, -are, estar próximo, estar iminente)
1. Que está quase a acontecer. = IMEDIATO, PRÓXIMO
"iminente", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/iminente [consultado em 11-05-2016].
Na verdade, há um truque para decorar. Apesar de ambas as palavras pertencerem à classe dos adjetivos, a palavra iminente surge, normalmente, associada à expressão estar iminente. Por significar estar próximo, esta expressão tem uma interpretação temporal de futuro próximo. Ou seja, no momento da enunciação, supomos que é verdade que aquela proposição há-de acontecer num futuro próximo. Ainda não aconteceu, não está a acontecer, mas vai acontecer em breve.
Pelo contrário, associamos a palavra eminente a uma qualidade, algo que é imutável. E portanto, não a podemos incluir numa expressão que carreie informação temporal. Se a montanha é eminente, então já o era no passado - desde a sua formação -, continua a sê-lo no momento da enunciação e continuará a sê-lo no futuro - a menos que desabe.
Uma vez mais, basta ter atenção ao escrever, pois não há qualquer semelhança semântica nestas duas palavras, apesar de ambas serem adjetivos.
segunda-feira, 9 de maio de 2016
7 - Traz / Trás
Este é de tal forma óbvio que parece impossível que alguém com mais do que o ensino primário se engane. Mas, infelizmente, é um erro comum, que acontece por se tratar de duas palavras homófonas, i.e., que se lêem exatamente da mesma maneira.
E, pior, também acontece aparecerem em meios de comunicação social. Não duvidem: erros como este são daqueles que retiram qualquer credibilidade a quem escreve.
A forma traz vem do verbo trazer, daí escrever-se com "z". É tão simples quanto isto. Ou não é? E corresponde à 3ª pessoa do singular, no Presente do Indicativo. Também pode ser a 2ª pessoa do Imperativo, que é o modo ligado às ordens e aos pedidos. Ou seja:
- Em alguns dias, ela traz a filha para o trabalho.
- Maria, traz o garrafão de água!
Por seu turno, trás consiste na parte posterior de alguma coisa. Ou, dito de forma ainda mais básica, é o contrário de frente. Também não podia ser mais simples.
- O Pedro virou-se para trás e viu-a.
- O atleta veio a correr desde trás e ganhou a maratona.
E é isto. Fácil, não é? Basta ter atenção.
quinta-feira, 5 de maio de 2016
6 - Descriminar / Discriminar
Este erro, tal como outros de que temos falado, encontra-se frequentemente em meios de comunicação social. E tal como o erro do artigo anterior, isso tem muitas repercussões para o sentido global da frase.
O erro, mais uma vez, está relacionado com a semelhança gráfica entre as palavras, mas se atentarmos às regras de formação de palavras, podemos retirar logo daí conclusões.
A palavra descriminar tem uma partícula importante, que é o prefixo "des". Ora, o prefixo "des" significa "ação contrária" (Ciberdúvidas). Ou seja, descriminar tem como raiz a palavra "criminar", a que é acrescentado o prefixo. Logo, descriminar é o contrário de criminar. E criminar significa:
cri·mi·nar - Conjugar
(latim criminor, -ari, acusar, caluniar)
"criminar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/criminar [consultado em 05-05-2016].
Portanto, podemos discriminar pessoas de diferentes origens, etnias, etc; podemos apresentar uma conta discriminada. O que não podemos fazer é discriminar alguém de um crime cometido ou descriminar uma pessoa pela sua etnia.
O erro, mais uma vez, está relacionado com a semelhança gráfica entre as palavras, mas se atentarmos às regras de formação de palavras, podemos retirar logo daí conclusões.
A palavra descriminar tem uma partícula importante, que é o prefixo "des". Ora, o prefixo "des" significa "ação contrária" (Ciberdúvidas). Ou seja, descriminar tem como raiz a palavra "criminar", a que é acrescentado o prefixo. Logo, descriminar é o contrário de criminar. E criminar significa:
cri·mi·nar - Conjugar
(latim criminor, -ari, acusar, caluniar)
verbo transitivo
1. Ter como criminoso.
2. Imputar crime a.
3. Acusar.
"criminar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/criminar [consultado em 05-05-2016].
A tal "ação contrária" de tudo isto, vulgo, a palavra descriminar, significa:
des·cri·mi·nar - Conjugar
(des- + criminar)
"descriminar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/descriminar [consultado em 05-05-2016].
(des- + criminar)
verbo transitivo
Tirar a culpa a; absolver do crime imputado. = DESCRIMINALIZAR
"descriminar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/descriminar [consultado em 05-05-2016].
Portanto, fixem o truque: se virem o "des", é um prefixo e a palavra está relacionada com a absolvição de culpa de alguém, em frases do tipo o juiz descriminou o homem acusado de traficar droga.
Isto nada tem que ver com a palavra associada a conceitos como xenofobia ou intolerância, que é a palavra discriminar ou discriminação, etc. E "dis" não é prefixo de coisa nenhuma; pelo contrário, faz parte da raiz da palavra discriminar. Que, por sua vez, significa:
dis·cri·mi·nar - Conjugar
(latim discrimino, -are)
"discriminar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/discriminar [consultado em 05-05-2016].
(latim discrimino, -are)
verbo transitivo
1. Estabelecer diferenças. = DESTRINÇAR, DIFERENÇAR, DISCERNIR, DISTINGUIR
2. Colocar algo ou alguém de parte. = SEPARAR
3. Tratar de modo desigual ou injusto, com base em preconceitos de alguma ordem, nomeadamente sexual, religiosa, étnica, etc.
"discriminar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/discriminar [consultado em 05-05-2016].
Portanto, podemos discriminar pessoas de diferentes origens, etnias, etc; podemos apresentar uma conta discriminada. O que não podemos fazer é discriminar alguém de um crime cometido ou descriminar uma pessoa pela sua etnia.
sexta-feira, 29 de abril de 2016
5 - Ratificar / Retificar
Esta é outra que os jornais teimam em usar mal. Um erro extremamente comum em texto jornalístico, por ambas as palavras serem bastante usadas, embora tenham significados completamente diferentes.
O facto de haver muitas palavras parecidas em português só significa que quem escreve tem de o fazer com cuidado e atenção. E, se estiver a escrever para muita gente, como acontece nos meios de comunicação, em blogs ou para a web em geral, convém que saiba exatamente o significado daquilo que diz/escreve.
Ora bem, assim sendo, para explicar este erro basta explicar o que cada palavra quer dizer.
O verbo ratificar significa "confirmar", "comprovar", e é sobretudo utilizado em contexto jurídico. Quando uma lei é "comprovada" por alguém, ela é ratificada. Também se podem ratificar outros tipos de documentos, naturalmente. Dito de forma leiga, ratificar é a forma de tornar oficial o documento ou a lei, ou seja o que for.
Por seu turno, retificar significa "corrigir". Assim, retifica-se um erro. Também se pode retificar uma lei ou qualquer documento, claro, mas isso é porque a lei estava errada, não é porque vai ser promulgada por quem quer que seja.
É certo que a nova ortografia não veio ajudar em nada, porque tornou a grafia dos dois verbos ainda mais semelhantes (já que caiu o c em rectificar). Mas não é desculpa!
Este é um erro clássico para fazer lembrar sempre a quem escreve: tenha sempre atenção!
O facto de haver muitas palavras parecidas em português só significa que quem escreve tem de o fazer com cuidado e atenção. E, se estiver a escrever para muita gente, como acontece nos meios de comunicação, em blogs ou para a web em geral, convém que saiba exatamente o significado daquilo que diz/escreve.
Ora bem, assim sendo, para explicar este erro basta explicar o que cada palavra quer dizer.
O verbo ratificar significa "confirmar", "comprovar", e é sobretudo utilizado em contexto jurídico. Quando uma lei é "comprovada" por alguém, ela é ratificada. Também se podem ratificar outros tipos de documentos, naturalmente. Dito de forma leiga, ratificar é a forma de tornar oficial o documento ou a lei, ou seja o que for.
Por seu turno, retificar significa "corrigir". Assim, retifica-se um erro. Também se pode retificar uma lei ou qualquer documento, claro, mas isso é porque a lei estava errada, não é porque vai ser promulgada por quem quer que seja.
É certo que a nova ortografia não veio ajudar em nada, porque tornou a grafia dos dois verbos ainda mais semelhantes (já que caiu o c em rectificar). Mas não é desculpa!
Este é um erro clássico para fazer lembrar sempre a quem escreve: tenha sempre atenção!
quarta-feira, 27 de abril de 2016
4 - Em vez de / ao invés de
Felizmente, este não é dos mais comuns, mas ainda ocorre muitas vezes. É fácil, sobretudo, confundir estas expressões na oralidade. Aqui vale a pena ir ao dicionário para ver as diferenças. Então:
- Invés:
in·vés
"invés", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/DLPO/inv%C3%A9s [consultado em 27-04-2016].
substantivo masculino de dois números
1. Lado oposto ao dianteiro. = AVESSO
ao invés (de)• Ao contrário; contrariamente (ex.: a vantagem destes materiais, ao invés dos anteriores, é a relação qualidade-preço).
"invés", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/DLPO/inv%C3%A9s [consultado em 27-04-2016].
- Vez:
vez |ê|
"vez", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/DLPO/vez [consultado em 27-04-2016].
substantivo feminino
(...)
3. Ocasião, turno.
4. Tempo, época indeterminada.
(...)
em vez de• Em lugar de.
"vez", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/DLPO/vez [consultado em 27-04-2016].
Só por estas palavrinhas, que constituem o núcleo das duas expressões lexicais confundidas, se percebe como têm significados diferentes. Em vez de e ao invés de são duas locuções adverbiais, que têm, então, propósitos distintos.
A primeira relaciona-se com uma ideia de substituição: Em vez de ir à inspecção, comprei um carro novo. A segunda equivale a ao contrário de. Ora, não podemos dizer Ao contrário de ir à inspecção, comprei um carro novo, pois não?
Da mesma forma como não podemos dizer Em vez da irmã, o Rui gosta de estudar. Pelo contrário, dizemos Ao invés da irmã, o Rui gosta de estudar.
segunda-feira, 18 de abril de 2016
3 - Ir de encontro a / Ir ao encontro de
- O jovem político vai de encontro aos objetivos do partido.
Quantas vezes encontramos frases destas nos meios de comunicação social? Muitas, certo? Provavelmente, tantas que nem percebemos exatamente o que lá está escrito. O Estudar a Língua dá uma ajudinha. Vejam o próximo exemplo.
- O esquilo foi ao encontro de um tronco e caiu.
Que tal parece? Mal, estranho, não é? Pois claro. E se dissermos que "o esquilo foi de encontro a um tronco e caiu"? Estão a começar a perceber a diferença, certo?
A palavra encontro, que é uma nominalização formada a partir do verbo encontrar, permite estas duas expressões, que têm sentidos e usos completamente diferentes, mas que pela sua relativa semelhança se confundem muitas vezes entre si.
Quando falamos em ir ao encontro de, referimo-nos a uma ideia de concordância de uma entidade em relação a outra. É, portanto, uma expressão de natureza psicológica. E, assim sendo, o primeiro exemplo apresentado neste post devia incluir esta expressão e não a que lá está.
- O jovem político vai ao encontro dos objetivos do partido. = O jovem político partilha os mesmos objetivos do partido. = O jovem político concorda com os objetivos do partido.
Pelo contrário, quando falamos em ir de encontro a, aqui sim, referimo-nos à ideia de movimento físico. Logo, o esquilo não poderia ir ao encontro de um tronco mas sim ir de encontro a um tronco.
Lembrem-se: de a preposição a (contraída com o artigo definido o) vier primeiro, a ideia é de concordância; se vier primeiro a preposição de, falamos de movimento físico.
Quantas vezes encontramos frases destas nos meios de comunicação social? Muitas, certo? Provavelmente, tantas que nem percebemos exatamente o que lá está escrito. O Estudar a Língua dá uma ajudinha. Vejam o próximo exemplo.
- O esquilo foi ao encontro de um tronco e caiu.
Que tal parece? Mal, estranho, não é? Pois claro. E se dissermos que "o esquilo foi de encontro a um tronco e caiu"? Estão a começar a perceber a diferença, certo?
A palavra encontro, que é uma nominalização formada a partir do verbo encontrar, permite estas duas expressões, que têm sentidos e usos completamente diferentes, mas que pela sua relativa semelhança se confundem muitas vezes entre si.
Quando falamos em ir ao encontro de, referimo-nos a uma ideia de concordância de uma entidade em relação a outra. É, portanto, uma expressão de natureza psicológica. E, assim sendo, o primeiro exemplo apresentado neste post devia incluir esta expressão e não a que lá está.
- O jovem político vai ao encontro dos objetivos do partido. = O jovem político partilha os mesmos objetivos do partido. = O jovem político concorda com os objetivos do partido.
Pelo contrário, quando falamos em ir de encontro a, aqui sim, referimo-nos à ideia de movimento físico. Logo, o esquilo não poderia ir ao encontro de um tronco mas sim ir de encontro a um tronco.
Lembrem-se: de a preposição a (contraída com o artigo definido o) vier primeiro, a ideia é de concordância; se vier primeiro a preposição de, falamos de movimento físico.
sexta-feira, 15 de abril de 2016
2 - Há / à / a
Este é um erro particularmente irritante. Em boa verdade, deve haver muito poucas coisas mais irritantes do que ler textos escritos por alguém que consegue confundir estas três pequenas partículas. Por diversas razões, mas sobretudo, porque é não é um erro de primária: é um erro de primeira classe. (ou de primeiro ano, para quem quiser).
Mas vamos lá então explicar as restantes razões. Em primeiro lugar, as três palavrinhas pertencem a classes diferentes.
- Há é uma forma verbal pertencente ao verbo haver. Se o leitor já souber isto, achará óbvio e pode passar à frente. Se não souber, repita 1000 vezes para si e não se volte a enganar. E acrescente que o verbo haver tem o mesmo significado de existir. Há, então, dois usos primordiais para o há: o primeiro está relacionado com a ideia de existência; o segundo com a ideia de tempo [passado].
- Há um senhor que está ali doente. [ou seja, o senhor existe, está ali].
- Há muito tempo; há um ano; há uma semana...
Se não for isto que quer dizer, não invente e deixe o "há" em paz.
- À é uma contracção do artigo definido a com a preposição a. Recuemos, então: o artigo definido, que é variável em género e número, precede um nome (a Maria; a menina; a boneca) ou é o primeiro elemento de um sintagma nominal (a minha filha; a linda boneca). A preposição, como qualquer outra, é um elemento relacional, i.e., serve para ligar dois elementos numa mesma oração ou numa mesma frase, elementos esses que são dependentes entre si (vou a Lisboa; a uma semana da viagem, fiquei doente). Assim, usa-se a contracção à quando queremos dizer as duas coisas (artigo e preposição) ao mesmo tempo.
- Vou à costureira. [Vou a(prep) a(art.) costureira]
Assim sendo, se por acaso costuma dizer algo do tipo "À dois anos", bata com a cabeça nas paredes umas quantas vezes para nunca mais se esquecer que, nesse caso, tem de usar há.
- A distinção é bastante fácil e prende-se com o papel da preposição a. Quando usamos "há" sem ser com sentido de existência no momento da enunciação, esta forma verbal remete para o passado, daí expressões como há muito tempo atrás, etc. Pelo contrário, vimos num dos exemplos acima que a preposição a surge em construções com projeção de futuro (embora não seja ela que dá informação temporal de futuro, apenas significa que faz parte de uma construção frásica que tem essa leitura):
- A uma semana da viagem, fiquei doente [falta uma semana para a viagem (futuro) e eu fiquei doente];
- Vou a Lisboa [ainda não fui, logo irei no futuro; aqui, a preposição a pode ser substituída por até, por exemplo]
Mas vamos lá então explicar as restantes razões. Em primeiro lugar, as três palavrinhas pertencem a classes diferentes.
- Há é uma forma verbal pertencente ao verbo haver. Se o leitor já souber isto, achará óbvio e pode passar à frente. Se não souber, repita 1000 vezes para si e não se volte a enganar. E acrescente que o verbo haver tem o mesmo significado de existir. Há, então, dois usos primordiais para o há: o primeiro está relacionado com a ideia de existência; o segundo com a ideia de tempo [passado].
- Há um senhor que está ali doente. [ou seja, o senhor existe, está ali].
- Há muito tempo; há um ano; há uma semana...
Se não for isto que quer dizer, não invente e deixe o "há" em paz.
- À é uma contracção do artigo definido a com a preposição a. Recuemos, então: o artigo definido, que é variável em género e número, precede um nome (a Maria; a menina; a boneca) ou é o primeiro elemento de um sintagma nominal (a minha filha; a linda boneca). A preposição, como qualquer outra, é um elemento relacional, i.e., serve para ligar dois elementos numa mesma oração ou numa mesma frase, elementos esses que são dependentes entre si (vou a Lisboa; a uma semana da viagem, fiquei doente). Assim, usa-se a contracção à quando queremos dizer as duas coisas (artigo e preposição) ao mesmo tempo.
- Vou à costureira. [Vou a(prep) a(art.) costureira]
Assim sendo, se por acaso costuma dizer algo do tipo "À dois anos", bata com a cabeça nas paredes umas quantas vezes para nunca mais se esquecer que, nesse caso, tem de usar há.
- A distinção é bastante fácil e prende-se com o papel da preposição a. Quando usamos "há" sem ser com sentido de existência no momento da enunciação, esta forma verbal remete para o passado, daí expressões como há muito tempo atrás, etc. Pelo contrário, vimos num dos exemplos acima que a preposição a surge em construções com projeção de futuro (embora não seja ela que dá informação temporal de futuro, apenas significa que faz parte de uma construção frásica que tem essa leitura):
- A uma semana da viagem, fiquei doente [falta uma semana para a viagem (futuro) e eu fiquei doente];
- Vou a Lisboa [ainda não fui, logo irei no futuro; aqui, a preposição a pode ser substituída por até, por exemplo]
segunda-feira, 11 de abril de 2016
1 - O facto de o / o facto do
O novo ciclo de expressões lexicais utilizadas erradamente arranca com uma expressão que, arriscamos nós, aparece mais vezes escrita mal do que bem. Na verdade, há que admitir: em algumas destas expressões, é impossível fugir a certas questões gramaticais. Esta é uma delas.
Em primeiro lugar, para percebermos onde está o erro, temos de voltar às preposições. As preposições "de" e "em" têm uma propriedade que lhes permite contraírem com artigos, sejam definidos ou indefinidos, e ainda com pronomes pessoais.
Assim surgem "do", "da", "no", "na" e por aí fora. Foquemo-nos apenas na preposição "de". Esta contracção surge, por exemplo:
- para transmitir a ideia de posse (o carro do João; a bicicleta da Maria);
- para transmitir a ideia de origem (ele veio da cidade).
Muito diferente destes casos é a construção o facto de. A razão é simples. Enquanto o "de" que vimos acima está a introduzir complementos do nome anterior, este está a introduzir uma nova oração.
Sendo assim, as condições para uma contração da preposição com o artigo não existem, uma vez que a expressão seguinte funciona como sujeito da nova oração.
- O facto de ele estudar muito fez com que tivesse boas notas.
- *O facto dele estudar fez com que tivesse boas notas.
Outra expressão semelhante é antes de seguido de uma oração, em que aplicam exatamente as mesmas regras.
- Antes de ela entrar já eu tinha almoçado.
- *Antes dela entrar já eu tinha almoçado.
Por isso, lembrem-se: se virem a preposição de numa expressão lexical que introduza uma nova oração, não é possível vermos uma contração nem com artigos nem com pronomes.
Em primeiro lugar, para percebermos onde está o erro, temos de voltar às preposições. As preposições "de" e "em" têm uma propriedade que lhes permite contraírem com artigos, sejam definidos ou indefinidos, e ainda com pronomes pessoais.
Assim surgem "do", "da", "no", "na" e por aí fora. Foquemo-nos apenas na preposição "de". Esta contracção surge, por exemplo:
- para transmitir a ideia de posse (o carro do João; a bicicleta da Maria);
- para transmitir a ideia de origem (ele veio da cidade).
Muito diferente destes casos é a construção o facto de. A razão é simples. Enquanto o "de" que vimos acima está a introduzir complementos do nome anterior, este está a introduzir uma nova oração.
Sendo assim, as condições para uma contração da preposição com o artigo não existem, uma vez que a expressão seguinte funciona como sujeito da nova oração.
- O facto de ele estudar muito fez com que tivesse boas notas.
- *O facto dele estudar fez com que tivesse boas notas.
Outra expressão semelhante é antes de seguido de uma oração, em que aplicam exatamente as mesmas regras.
- Antes de ela entrar já eu tinha almoçado.
- *Antes dela entrar já eu tinha almoçado.
Por isso, lembrem-se: se virem a preposição de numa expressão lexical que introduza uma nova oração, não é possível vermos uma contração nem com artigos nem com pronomes.
domingo, 10 de abril de 2016
Novo ciclo: conheça os erros lexicais que nunca vai querer cometer
Hoje vamos sair do domínio da gramática e entrar no domínio do léxico. Quando falamos ou escrevemos, cruzamos inconscientemente várias áreas da língua. A gramática é uma delas, o léxico é outra. E há mais, como a fonética ou a pragmática, por exemplo.
Quando falamos em gramática, dito de uma forma básica e simplista, entramos no domínio das regras de construção frásica e da forma como combinam os constituintes de uma frase. Se falamos do léxico, estamos no domínio das palavras e das expressões que utilizamos todos os dias e que também são, obviamente, fundamentais para nos fazermos compreender.
Por isso, não convém cometer erros. Há por aí muitos sites e blogues que falam, de forma generalizada, em erros gramaticais quando estão a falar de expressões e de palavras. Mas muitos destes blogues não são escritos por especialistas da língua e podem muito bem induzir as pessoas em erro, apenas por porem tudo no mesmo saco. E mal. Quando nos referimos a erros no uso de palavras e expressões, não se trata de erros gramaticais, mas sim de erros lexicais.
E é por estes serem fundamentais e nem sempre estarem devidamente explicados que o Estudar a Língua se propõe a criar um novo ciclo de posts, em que vai explicar e corrigir, um a um, alguns dos maiores e mais comuns erros lexicais do português. Estejam atentos!
P.S. A lista que este espaço vai apresentar refere-se apenas ao português europeu, por uma simples razão. Muitos dos erros habitualmente apontados a falantes do português do Brasil, como confundir "mas" com "mais", por exemplo, surgem por questões relacionadas com a fonética ou com a pronunciação. Como aqui estamos no domínio do léxico, questões fonéticas e de pronunciação não serão tratadas.
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